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O demônio das impurezas

Uma casa se divide em duas partes: a cozinha e o resto. Tudo assume contornos diferentes quando temos por companhia fogões, geladeiras, panelas, rodinhos de pia e uma mesinha de fórmica habitada por garrafa de café e cesta de pão.  O mundo não é visto do mesmo jeito quando visto da cozinha. As pessoas não são as mesmas quando estão a conversar ou discutir na cozinha. Uma súbita intimidade se apodera, os freios afrouxam, os laços ganham viço. O sisudo cede ao riso, o mais tranquilo alteia a voz, o risonho experimenta a introspecção.  Não é que os papéis se invertam nem as máscaras caiam. É que a cozinha tem lógica contrária à da alcova.  Se nesta os segredos são mantidos a sete chaves, naquela o exercício mais frequente é o de propagar. Se numa o jogo dá-se normalmente entre pares de amantes, noutra a rede amplia-se, envolvendo players de todas as espécies, sabores e taras. Diferente do tempo da sala, onde impera a TV; do quarto, onde nos estiramos à maneira...

O sapo e a sonda

Agora passo a explicar por que, entre tantas imagens marcantes, tais como a da pianista nua e a de Celso de Mello espetado por dúvidas, escolhi dois tópicos para resumir a semana. Foram duas imagens epifânicas, alegres em certo sentido, melancólicas em outro. Ambas agônicas. Traduzem um tipo especial de tristeza e alegria simultâneas que ocorre nos momentos de extrema realização da potência, mas que escancaram as fragilidades, quer estejamos falando de um sapo, quer de uma sonda espacial.  Ou é isso ou começo a projetar as reverberações pessoais em cada coisa e pessoa que vejo ou escuto, exatamente como faz aquele peixe muito estranho cujo aparelho digestivo se projeta como uma espécie grua de cinema e, no segundo seguinte, fagocita o alimento. No fim das contas, é basicamente o que fazemos toda hora. A primeira imagem é a do sapo (pode ter sido uma rã, mas querelas biológicas a esta altura não ajudariam tanto a desatar o nó) que, na última hora, desistiu de ser ast...

Essas qualidades

Então, antes de sair de casa, decidiu colocar alguns pingos nos is.  Chegou mesmo a desenhar aspas com as duas mãos no ar, um gesto que sempre deplorou embora no começo a natureza dessa repulsa contivesse uma semente de rancor ao se conectar à inveja que sentia de um amigo mais inteligente e mais bonito que causava sempre uma boa impressão entre as meninas da mesma idade ao projetar no ar pegajoso da adolescência essas aspas imaginárias, pontuando cada frase com respingos de um humor derivado de Friends , o que prontamente era recebido como sinal de maturidade, ironia e raciocínio rápido, três qualidades que essas mesmas meninas admiravam em rapazes e das quais ele se sentia tão geograficamente separado quanto uma colher de pau no Mogadíscio e uma escada rolante em Vladivostok.  Feito isso, tratou de colocar os pingos nos is e só depois foi embora, não sem antes esclarecer que, tal como havia alertado, o sumo do problema é arredio e não será com três ou quatro anos ou ...

Cinco anos depois

Nesta quinta-feira, 12 de setembro, se completam cinco anos desde a morte de David Foster Wallace, com quem topei ainda em 2006, dois anos antes que o escritor se suicidasse. A tragédia, aliada à súbita projeção de seu trabalho, já inscrito no cânone literário e tratado como coisa sagrada, acabaria elevando DFW a um pedestal do qual talvez seja difícil depô-lo e ao qual o próprio autor quem sabe preferisse atirar tomates ou preservar à sombra do que tinha a dizer. Topar com ele, nesse caso, quer dizer apenas que tinha tropeçado em alguém, como muitas vezes havia ocorrido e ainda ocorreria ao longo da vida. Tropecei no cara, e isso mudou muita coisa pra mim. Assim como topar com Herman Hesse aos 17 e com Rubem Fonseca aos 19 anos, conhecer DFW aos 26 foi um baque nada metafórico. É surrado e impreciso falar em antes e depois, em divisor de águas, em cancelas existenciais além das quais avistamos um passado que já não se parece em mais nada com o que somos agora. Mas foi basicame...

Mitologias modernas

Vamos falar sobre o mito do desagregacionsmo, essa construção ficcional sócio-proprietária de uma verdade maior que procura explicar, em termos genéricos, como uma realidade particular – a nossa – se movimenta. Primeiro, é preciso dizer que muito já se escreveu sobre o desagregacionsimo e o seu par ordenado, o agregacionismo. Há quem defenda que, enquanto existirem fóruns, caixas de comentários e grupos de pessoas reunidas em torno de uma mesa no centro da qual um casco de cerveja rege todos os fenômenos terrestres e celestes – enquanto houver vida, o desagregacionismo continuará um tema palpitante. Grosso modo, o desagregacionismo consiste na certeza de que discordar,  raison d'être  de qualquer relacionamento, é mais importante que escutar.  Escuto para discordar, portanto. Eis a espinha dorsal do desagregacionismo. Da escuta são filtrados apenas os elementos servíveis ao discurso de crítica e rejeitados os inservíveis. Seja porque a internet permeabil...

Instrumentos de caça

Disse o Armando Freitas Filho que só gente muito sortuda encontra o que procura quando não está procurando, o que não soa como uma definição tão extravagante assim de sorte. Pelo contrário, se existe uma boa definição para a palavra, eis uma que não deixa nada a dever: dar de cara com o que a gente deseja, talvez até sem saber, sem precisar procurar. No mais das vezes, investe-se tempo e energia em algo cujo ganho é vacilante e a consistência, escorregadia. É uma tarefa espinhosa tentar encontrar a sorte no cotidiano, apanhá-la na sala, surpreendê-la na cozinha ou no banheiro, tocaiá-la deslocando-se rápido pela brecha da porta que se abriu com o vento enquanto tirávamos os móveis do lugar de sempre, cercá-la com vassoura, pano de chão e rodinho de pia, que todos os recursos e ferramentas empregados na conquista e manutenção da sorte são escassos e nenhum garante, como de resto os mais otimistas podem ser levados a crer, que encontrar não seja também um dos muitos sign...

A cada 72 horas

Com que frequência o número 1111 aparece no seu dia?  Apenas nesse horário que antecede o almoço ou também um pouco antes de ir dormir, quando decidimos sobranceiramente começar uma atividade que nos tomará as próximas quatro ou cinco horas e ao fim da qual um rosto (o nosso?) vai se erguer de um livro ou da cavidade mais prazerosa do corpo (do nosso?) e se surpreender ao enxergar no espelho um sorriso (o meu?), não qualquer sorriso, mas esse que resulta do acúmulo de impressões ou fluidos – então, com que frequência esse número que esconde um sorriso que não esconde nada acontece? Alguém mais enxerga na repetição de padrões, não apenas numéricos, mas também olfativos e visuais, uma pista de que o cotidiano é regido por leis não escritas, ou seja, todo esse vasto panteão de fenômenos que escapam ao limitado poder de compreensão, à normatização e ao instituto da taxonomia radical? Entendendo por taxonomia radical a irrefreável tendência contemporânea a encontrar, entre t...