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O sapo e a sonda



Agora passo a explicar por que, entre tantas imagens marcantes, tais como a da pianista nua e a de Celso de Mello espetado por dúvidas, escolhi dois tópicos para resumir a semana. Foram duas imagens epifânicas, alegres em certo sentido, melancólicas em outro. Ambas agônicas. Traduzem um tipo especial de tristeza e alegria simultâneas que ocorre nos momentos de extrema realização da potência, mas que escancaram as fragilidades, quer estejamos falando de um sapo, quer de uma sonda espacial. 

Ou é isso ou começo a projetar as reverberações pessoais em cada coisa e pessoa que vejo ou escuto, exatamente como faz aquele peixe muito estranho cujo aparelho digestivo se projeta como uma espécie grua de cinema e, no segundo seguinte, fagocita o alimento. No fim das contas, é basicamente o que fazemos toda hora.

A primeira imagem é a do sapo (pode ter sido uma rã, mas querelas biológicas a esta altura não ajudariam tanto a desatar o nó) que, na última hora, desistiu de ser astronauta e saltou do foguete ou de sua base de lançamento, não há consenso, em plena decolagem.

Estaria o sapo pessoalmente convencido de que, na superfície, alguém o esperava com um desses anteparos que os Bombeiros usam para amortecer a queda de quem, achando-se no alto de um prédio, não tem outra opção na vida senão pular?

O que tinha em mente o venturoso batráquio, eis uma dúvida que morreu ou morrerá com ele.

O que o levou a preferir o mergulho à dúvida sideral que orbita a cabeça de qualquer homem ou mulher que escolha decolar rumo ao infinito com a ajuda de propulsores alimentados precariamente por algum combustível que, num dado momento da viagem, deverá exaurir-se, pondo fim à aventura?

O sapo, pelo visto, não é bobo, o que não quer dizer que a escolha fosse das mais simples. Tinha à frente o risco da queda e a possibilidade de morte por esmagamento. Bastaria que uma das cápsulas ou das roupas especiais se despressurizasse, por uma dessas contingências irônicas, para que a jornada além do conhecido se transformasse em pesadelo. 

Por sua, despencar sem a certeza de haver lá em baixo uma rede de segurança que diminua os riscos ou mesmo os elimine é uma atividade a qual se dedicam os puros de coração e os suicidas.

O animal, que talvez não fosse nem puro nem suicida, quis, todavia, a queda. Esticou os membros e saltou. Ainda vive? Ninguém sabe. Tinha amores? Tampouco. A expectativa de vida dos sapos é brevíssima, donde se conclui que essa espécie animal se vê cotidianamente obrigada a amar pouco, mas intensamente.

A segunda imagem da semana é a da sonda Voyager, lançada ao espaço 36 anos atrás, em 1977. Eu tinha 3 anos negativos. Em comunicado, a Agência Espacial Americana informou que a Voyager havia se tornado o primeiro artefato produzido por seres humanos a deixar os limites do sistema solar.

A 19 bilhões de quilômetros do Sol, mergulhada no espaço interestelar, a Voyager é a única entre nós que não está sob a influência do astro-rei.

A sonda, que não se parece em nada com um sapo, é um aparelhinho com jeito de antena parabólica empregado na análise, à distância ou em solo, do máximo de corpos celestes que encontrar pela frente, não fazendo distinção entre os de maior ou menor brilho, luas ou sóis, anéis ou cometas, meteoros e outras esquisitices fantasmagóricas que apenas a corrida espacial descompromissada permite mapear. 

A Voyager 1 encontrou 33 luas, descobriu anéis em três planetas e flagrou atividade vulcânica em outros tantos. O objetivo principal da missão, investigar Júpiter, Saturno e Urano, foi cumprido em 1989, ano da queda do muro de Berlim e da morte do pintor espanhol Salvador Dalí.  

Conforme li, “apenas por volta de 2030 não haverá mais bateria" para a Voyager, que passará a viver não apenas longe do nosso sol, mas também sem alimento preparado por nós. 

O intrigante nisso tudo é se perguntar se o sapo sabia disso quando saltou do foguete. Sabia que, embora duradouras, as baterias acabam, e daí em diante o veículo espacial vaga impulsionado apenas pela força da inércia?

Sabia que as informações sobre as 48 luas registradas em mais de três décadas de serviços prestados pela Voyager ficarão para sempre guardadas nesse amontoado de ferro e outros materiais e que esse patrimônio restará inacessível para todo o sempre?

O sapo, um corpo recheado de carbono, nervos, músculos e fluidos, preferiu não arriscar tanto. Pulou. A sonda, sem outra razão senão a de continuar existindo e com isso indo adiante na campanha de dessava das estrelas, rompeu com nosso sistema. Ambos escolheram extrapolar os limites.  

E nada nos autoriza a determinar quem sobrevive ou não à queda. 

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