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A cada 72 horas

Com que frequência o número 1111 aparece no seu dia? 

Apenas nesse horário que antecede o almoço ou também um pouco antes de ir dormir, quando decidimos sobranceiramente começar uma atividade que nos tomará as próximas quatro ou cinco horas e ao fim da qual um rosto (o nosso?) vai se erguer de um livro ou da cavidade mais prazerosa do corpo (do nosso?) e se surpreender ao enxergar no espelho um sorriso (o meu?), não qualquer sorriso, mas esse que resulta do acúmulo de impressões ou fluidos – então, com que frequência esse número que esconde um sorriso que não esconde nada acontece?

Alguém mais enxerga na repetição de padrões, não apenas numéricos, mas também olfativos e visuais, uma pista de que o cotidiano é regido por leis não escritas, ou seja, todo esse vasto panteão de fenômenos que escapam ao limitado poder de compreensão, à normatização e ao instituto da taxonomia radical?

Entendendo por taxonomia radical a irrefreável tendência contemporânea a encontrar, entre tantas possibilidades, um nome e apenas um que corresponda em perfeição à imagem designada.

Vejo o número 1111 com uma assiduidade que, se não me assusta, é apenas porque, rejeitando o misticismo e todo tipo de interpretação do que possa nascer do entrecruzamento das órbitas celestes, aceito a ideia de que um objeto imaginário que se repete a cada intervalo de 72 horas, seja no mostrador da tevê, seja no computador, seja no relógio, e cuja simbologia repousa na abertura de portais que dão a outros universos, um número também relacionado a eventos traumáticos e, portanto, cheios de uma carga anormal de significados – se isso não me transforma como as mensagens dos corpos em suspensão no espaço transformam uma astróloga, é somente porque prefiro não enxergar nada por inteiro.

O que pode se definir como um modo de vida. Entre ele e os sulcos do cotidiano, não estabeleço conexões além das que já existem. 

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