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O morador

Depois do café, a cabeça fala sozinha, a boca não sabe se concorda; a boca sempre teme ferir as suscetibilidades, os olhos acompanham o facão deitar abaixo as plantas do terreno ao lado, as pernas descansam, as mãos escrevem ainda que não haja uma razão clara; quanto menos clareza, mais as mãos se agitam, e por enquanto não há nada que a barriga e o restante do corpo possam fazer senão esperar, esperar que a vó saia da UTI falando os palavrões de sempre, a mãe se recupere, o pai não se aborreça mais porque o filho passa dias sem telefonar, o segundo semestre chegue e depois termine, as árvores cresçam apenas para serem cortadas novamente, a água esvazie no fundo da pia e volte a acumular, o lixo se amontoe e em seguida desapareça, o tempo cubra de ferrugem o corrimão do prédio e de branco os cabelos, as páginas se preencham à vontade, as linhas desentortem, as curvas endireitem, as retas se percam nas paralelas, as histórias se contem a si mesmas, e que nada disso pareça excepcional,...

Questões de moradia

Acima, encontro familiar em residência no bairro Conjunto Ceará na década de 1970: entes congratulam-se mutuamente e hasteiam bandeira como forma de celebrar os laços inquebrantáveis da vida. Menininha vestida de bailarina canta Macarena à capela     Não imaginava que teria tanta dificuldade ao procurar um apartamento novo depois de ficar cansado da vista de telhados de amianto e terrenos baldios e resolver apostar na qualidade de vida, essa soberba expressão que vinha evitando desde os 13 anos. Por qualidade de vida entendam um pouco de verde, quem sabe até sombra durante o dia inteiro e uma área de lazer agradável, ótima para promover reuniões com os amigos e familiares nos fins de semana a fim de exercitar os ritos que mantêm funcionando as engrenagens dos laços sociais. Um objetivo secundário nessa procura, mas que não pode deixar de ser citado, é a tentativa profilática de escapar da neurose do cara do apartamento 7, um assassino em potencial, e das síndromes ...

The last of us: a jornada de Joel e Ellie

Atravessei quatro estações , matei mais homens que monstros, vasculhei buracos, salvei uma garotinha da morte, fui salvo por ela, caminhei no frio, resolvi charadas, desvendei mistérios, acionei mecanismos que levantam portas e outros que baixam portas, fui a partes diferentes de muitas cidades e presenciei o horror provocado por uma epidemia.  Lembrei de quando tudo era diferente, havia pessoas nas ruas e jornais e cinemas e cafés e aos domingos as praças estavam cheias. Reencontrei fotografias perdidas sob os escombros do que costumava ser uma casa. Sobrevivi ao custo dos despojos de famílias infectadas. E ainda não é o fim. O que vou dizer é algo deliberadamente grandiloqüente e, por isso mesmo, adequado à situação: The last of us é talvez o melhor jogo de videogame já feito, não apenas no PS3, mas também nos velhos SNES, Mega e Master, com uma breve passagem pelo Mega Drive, já que falo a partir de uma experiência particular com consoles, particular e errátic...

Cobrindo distâncias

Espanta é descobrir todo dia que escrever é quase sempre tatear às escuras, procurar um fiapo de sentido para um problema muitas vezes sem contornos claros, tentar moldar um boneco de neve ou barro debaixo d’água. A gente nunca sabe direito o que tem no final. E quando chega, o fim não parece o fim de coisa alguma. O fim é esse lugarzinho arbitrário fincado num ponto distante ao qual devemos chegar mediante esforço próprio, torrando as energias acumuladas, alargando habilidades, inventando uma ética e uma técnica ao longo da jornada. A empreitada é exigente, requer muita energia, dá vontade de desistir o tempo inteiro, mas sem ela é tudo muito pior, é tudo muito menor. Trata-se de um mecanismo de descoberta. Toda jornada tem um único objetivo: forjar uma ética e uma técnica. Pensem em Homero e em Ulisses, pensem em Tolkien e nos hobbits, em Stephen King e no grupo de garotos que sai de casa à procura de um corpo.  Pensem no sem número de personagens que, por alg...

Esse almoço ainda demora?

O que foi legal na Flip? E o que não foi? Primeiro o que não foi: 1. Como em qualquer edição da festa, algumas mesas foram bem-sucedidas, outras não, cabendo aí, por razões inescapáveis, o debate sobre o que é considerado bem-sucedido nesse tipo de evento, cuja plateia lembra bastante a das arquibancadas de outra festa recente no Brasil, a da Fifa. 2. O fato foi lateralmente mencionado por um dos participantes da Flip, Gilberto Gil, que se manifestou contra a predominância de uma massa majoritariamente branca nas arenas durante os jogos da Copa das Confederações. Foi muito aplaudido, claro. Teria sido mais se houvesse estendido a crítica à própria homogeneidade na cor da pele da plateia da Flip? Acredito que não. Pudera. Fica feio aceitar participar de um evento e depois criticar o público que toma parte dele. Mais feio ainda é fazer de conta que tudo ali é muito diferente. Gil foi esperto. Atirou no passado e deixou o presente de lado, em seu cantinho, vibrando s...

Alegria contra o baixo astral

Apenas ontem vi A alegria , de Felipe Bragança e Marina Meliande, uma profecia exibida em 2010, ano de Copa do Mundo, ano eleitoral. No filme há uma ou duas cenas marcantes pelo caráter antecipatório: uma delas é a revolta dos jovens portando cartazes e enfrentando a polícia com uma fúria exemplar três anos antes das manifestações contra o aumento da tarifa de transporte em SP e RJ, a reboque das quais sobreviriam todas as demais, pulverizadas e volatilizadas por um sentimento difuso de mudança, mas todas igualmente surpreendentes pela força que canalizavam – e carnavalizavam. A outra cena é a dos jovens mascarados reunidos na cozinha de um apartamento de classe média baixa após selarem um pacto – DILMA, os créditos, por favor! – no centro do qual está a promessa de que envelheceriam corajosos – ou, caso contrário, não envelheceriam. Um gesto de radicalidade tipicamente adolescente? Pergunta retórica? Piada? Uma preocupação genuína?   Com que idade uma pessoa se tor...

Vinagrete Sport Club

À falta de um nome adequado para o que vem ocorrendo, cada um resolve chamar como quer. Revolução ou marcha reformista, primavera ou inverno, baderna ou mudança, intifada hormonal ou radicalização democrática. A guerra em curso diz respeito menos às mudanças no sistema de transporte do que à forma de recepção da multiplicidade de mensagens endereçadas a uma audiência igualmente difusa. Todo mundo entende como quer a frase encontrada na garrafa. Quatro estações não são suficientes para classificar os atos das ruas. O espectro político não se reduz a direita ou esquerda, nem se esgota nas palavras de ordem. Os jovens irmanam-se enquanto duram as passeatas. A rejeição é a tônica dos protestos. Nas redes sociais, nas ruas, nos bares, há esse clima de clube do Bolinha. Se tiver bilhete para as manifestações e comungar valores semelhantes, ambos critérios de corte, dentro; do contrário, fora. Há os revolucionários e reformistas; e há os “reaças”, como gostam de falar,...