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Alegria contra o baixo astral

Apenas ontem vi A alegria , de Felipe Bragança e Marina Meliande, uma profecia exibida em 2010, ano de Copa do Mundo, ano eleitoral. No filme há uma ou duas cenas marcantes pelo caráter antecipatório: uma delas é a revolta dos jovens portando cartazes e enfrentando a polícia com uma fúria exemplar três anos antes das manifestações contra o aumento da tarifa de transporte em SP e RJ, a reboque das quais sobreviriam todas as demais, pulverizadas e volatilizadas por um sentimento difuso de mudança, mas todas igualmente surpreendentes pela força que canalizavam – e carnavalizavam. A outra cena é a dos jovens mascarados reunidos na cozinha de um apartamento de classe média baixa após selarem um pacto – DILMA, os créditos, por favor! – no centro do qual está a promessa de que envelheceriam corajosos – ou, caso contrário, não envelheceriam. Um gesto de radicalidade tipicamente adolescente? Pergunta retórica? Piada? Uma preocupação genuína?   Com que idade uma pessoa se tor...

Vinagrete Sport Club

À falta de um nome adequado para o que vem ocorrendo, cada um resolve chamar como quer. Revolução ou marcha reformista, primavera ou inverno, baderna ou mudança, intifada hormonal ou radicalização democrática. A guerra em curso diz respeito menos às mudanças no sistema de transporte do que à forma de recepção da multiplicidade de mensagens endereçadas a uma audiência igualmente difusa. Todo mundo entende como quer a frase encontrada na garrafa. Quatro estações não são suficientes para classificar os atos das ruas. O espectro político não se reduz a direita ou esquerda, nem se esgota nas palavras de ordem. Os jovens irmanam-se enquanto duram as passeatas. A rejeição é a tônica dos protestos. Nas redes sociais, nas ruas, nos bares, há esse clima de clube do Bolinha. Se tiver bilhete para as manifestações e comungar valores semelhantes, ambos critérios de corte, dentro; do contrário, fora. Há os revolucionários e reformistas; e há os “reaças”, como gostam de falar,...

Projetor velho, cinema novo

Um brasileiro que retornasse de viagem após dois anos em Júpiter sem receber notícias do próprio país teria grandes chances de ser acometido por uma trombose cognitiva ao não reconhecer nas ruas tudo que aprendeu sobre esse lugar de gente cordata cujo modo de vida a empurra sempre adiante, a despeito das piores condições de trabalho. Ao menor contato com a atmosfera nacional, esse brasileiro alienígena, aclimatado às leis naturais que punham nosso povo sempre com os pés atados ao chão, enfrentaria dificuldades para entender o que se passa. Confuso, nosso cidadão recém-chegado de outro planeta ligaria imediatamente a tevê. Cenas de protestos, avenidas tomadas, carros incendiados, repressão, frases desconexas, autoridades perplexas, cartazes vocalizando bandeiras de todos e de nenhum partido. As conchas do velho cenário de Brasília servindo agora como projetores de um cinema novo, com atores livres dos cacoetes da tradicionalmente caquética escola de dramaturgia tupiniquim fo...

Acordando pro coaching

Desde que assumi o compromisso de escrever um texto todo santo dia, minha vida não mudou nadinha, exceto que acordo pensando sobre o que escrever e durmo eventualmente considerando uma besteira que falei e sentindo o travo metálico-terroso que a gente sente depois de falar bastante numa conversa e depois se calar. Nessas horas escutamos o eco da nossa própria voz dentro da cabeça, e ela nunca é aprazível. É essa sensação esquisita e incômoda que chamo agora de gostinho de terra, não é agradável, é ruim, pra falar a verdade, e tentamos evitá-la a todo custo, mas nem sempre conseguimos. Sentia isso mais forte quando era adolescente e me reunia com amigos na esquina pra jogar conversa fora e depois de muitas horas jogando conversa fora sobre os mais diversos assuntos, cada um tendo falado horrores, um dispositivo soava na mente juvenil como um apito de fábrica avisando ao proletariado que já era hora de ir pra casa.   Às vezes é exatamente assim que sinto as coisa...

Iracema desgraciosa

Ai, não cabem tantos desgostos no coração dessa indiazinha espevitada. Iracema varre extensões incríveis à procura de um pacote de miojo sabor manteiga da terra e um par de braços pra ajudar a armar a rede. Comida e dormida, é só no que pensa, mas eis que vem a perfídia e lasca o dia da morena.  Pior: espinho plantado novamente por um caucasiano sem apreço à nuance, originário duma cultura bárbara com sentido inverso, um amante malcheiroso que se passa por culto mas é apenas reflexo embaçado de uma imagem capturada em algum livro do Foucault. E Iracema não está preocupada apenas com poder ou foder. A índia é assim, têmpera de cera de carnaúba, derrete ao menor contato com o sol.  E entristecida percorre os quarteirões do bairro. Foi cruel e triste a verdade disparada a arco e flecha. Não há mocororó que faça perdoar. Fortaleza não vale a pena. Iracema suspira, chora e se enfia na mata. Dita assim, sem eufemismo, sem elogio anterior, a frase tem tudo para gru...

Animal estranho assusta vizinhança

Que divertido é ver a cidade dividida entre o pavor e a revolução da camaradagem, entre as regionais II e IV, entre o Cocó e a Praia de Iracema, entre a sandália rasteira e a Crocs, entre o multiplex e o cineclubismo, entre a macaxeira e a batata frita, entre a mão vermelha e Brecht. P or muito tempo o vermelho foi símbolo do comunismo. Designava, genericamente, movimentos de esquerda. Agendinhas vendidas nos campi dos centros de humanidades eram vermelhas. Camisas estampando o rosto de Guevara eram vermelhas. Bottons de campanhas para a direção de centros acadêmicos eram vermelhos. As ideologias mudaram, a esquerda rachou, voltou a rachar, cada pequeno pedaço se dividiu em dois ou três, mas a cor do protesto sempre foi a mesma.   Agora o vermelho é adotado também pelo PIB engajado. Com um sentido diverso, está na mão espalmada, estandarte do bloco cuja madrinha bem poderia ser a Regina Duarte da propaganda do Serra: eu tenho medo. A mensagem é falsamente direta: b...

Ri, tá verde

Uma coisa que incomoda não é a falta de união, que isso nem família tem, na minha há um bocado de desunião, mas nos amamos assim mesmo, chega sempre esse momento em que a gente se olha nos olhos e diz as coisas que vem planejando dizer havia muito tempo. Então acontece e tudo tumultua, mas em seguida volta ao lugar e agora estamos melhor, seja porque dissemos e alguma coisa mudou, seja porque dissemos e, a despeito de não ter mudado nada, não sufocamos mais as verdades que tínhamos guardado por tanto tempo nessa caixinha preta cheia de gordura e venenos e mezinhas que não curam. Dito isso, o que incomoda é a falta de três itens bem simples, honestidade pra discutir, seriedade pra respeitar, abertura pra se interrogar. Essa honestidade mais básica, elementar, uma que tenta extrair um tantinho de proveito mesmo das situações mais risíveis; um respeito ao outro, básico também; e uma abertura genuína, não alçapão, a abertura que funciona como armadilha pra fisgar o outro, q...