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Iracema desgraciosa



Ai, não cabem tantos desgostos no coração dessa indiazinha espevitada. Iracema varre extensões incríveis à procura de um pacote de miojo sabor manteiga da terra e um par de braços pra ajudar a armar a rede. Comida e dormida, é só no que pensa, mas eis que vem a perfídia e lasca o dia da morena. 

Pior: espinho plantado novamente por um caucasiano sem apreço à nuance, originário duma cultura bárbara com sentido inverso, um amante malcheiroso que se passa por culto mas é apenas reflexo embaçado de uma imagem capturada em algum livro do Foucault. E Iracema não está preocupada apenas com poder ou foder. A índia é assim, têmpera de cera de carnaúba, derrete ao menor contato com o sol. 

E entristecida percorre os quarteirões do bairro. Foi cruel e triste a verdade disparada a arco e flecha. Não há mocororó que faça perdoar. Fortaleza não vale a pena. Iracema suspira, chora e se enfia na mata.

Dita assim, sem eufemismo, sem elogio anterior, a frase tem tudo para grudar feito óleo de castanha de caju e perseguir a silvícola por três gerações. Enquanto o aracati bisbilhotava as saias num finalzinho de tarde, coube a um francês a tarefa de reconhecer a inviabilidade da capital cearense e lançar a desdita. Da Messejana à Parangaba, do Mucuripe à Sabiaguaba, do Antônio Bezerra à Barra, Iracema não vale a pena. 

Engulam o choro. C’est la vie.  

Índia quer vingança. Tragam o estrangeiro à barra da saia do cacique. A condenação sumária exige punição severa. O que viu esse homem, afinal? A involução do metrô? O hotdog a preço de Big Mac? O trânsito disfuncional? O morticínio? Ou, em matéria de desgraça, limitou-se à praia de areia suja? Não correu a periferia? Conheceu algum chafariz do Henrique Jorge? Foi pedinte na praça dos Leões? Faltou água em sua casa? Viu ambulantes formarem uma massa compacta de luzinhas piscando arremessadas para o alto no calçadão do cartão-postal? Caiu no boa noite, Cinderela? 

Viu lixo, garrafas PET, sacos de arroz, cerveja, plástico, restos de preservativos, latas de refri, todo esse subproduto de qualquer metrópole, fluido seminal que iguala as cidades, o denominador comum, traço etnográfico salomonicamente distribuído entre as nações?

Iracema agora guarda essa moela estragada no baixo ventre. Não vale a pena esse ajuntamento de coisas sem nome que chamamos, mais por costume que por amor, de Fortaleza de nossa senhora da Assunção?

E as praias a dia e meio de viagem? A comida do jangadeiro e do vaqueiro? A festa? Os fogos? O forró? O funk? A modernice tomada de empréstimo? A presunção de inteligência embutida no batismo amaneirado da enfiada de condomínios de classe média alta? O novo voo Fortaleza/Orlando a cada 72 horas? A cota de cearenses nas melhores instituições de ensino no sul/sudeste, tipo ITA, IME e quejandos, não é suficiente? Querem mais do alencarino? Querem também o sublime?

Terra desgraciosa. Iracema olha em torno. Quer enxergar beleza onde o francês preferiu encontrar feiúra. As edificações espichadas, o aeroporto, as placas da Fifa, a bodega, a farmácia, o alpendre, o cabaré. Tudo de que precisa uma cidade, exceto beleza, tudo de que a felicidade é feita, exceto o bastante.

A índia vê uma obra, atrás dela um estádio, homens se esfalfam no calor, a areia vermelhíssima espalhada por canteiros que mais parecem arte, carrinhos de mão cheios de cimento, nasce uma estrada, abre-se novo canteiro, mais homens trabalham, há um esforço gigantesco presente em cada músculo repuxado, tudo pra quê? Pra reiterar o que não vale a pena, sublinhar o que não tem serventia, destacar o que é melhor que estivesse no mato, feito índio amuado?

Canteiro, por si só, vale a pena, palavra bonita, sonora, rima fácil, traz felicidade ao coração, enche de saudade sem ser saudade de fato, mais vontade de saudade que coisa genuína, desconversa Iracema, uma nativa corajosa e chorona, cantando baixo os versinhos do Fagner.

O seio da filha de Araquém arfou. Francês de merda, maldizer a taba, reconhecer o óbvio, esfregar verdades, ver com uma visada diferente o chão de cada dia, não se perscruta o batente com a vista nova, o batente da coisa é tão particular e íntimo quanto o baixo ventre. Não vale a pena, Iracema?

A índia desiste do canteiro, engenho do homem, e olha pro céu, azul que dói na vista, aqui e ali um chumaço de nuvem alvíssima se deslocando preguiçoso, a tarde já antecipando o abraço. Céu bonito, pensa Iracema. Diz do engenho que não é seu, mas também é.  

Aposto que esse caucasiano não empinou a vista em busca do nosso céu, alegrou-se a índia besta. 

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