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Acordando pro coaching

Desde que assumi o compromisso de escrever um texto todo santo dia, minha vida não mudou nadinha, exceto que acordo pensando sobre o que escrever e durmo eventualmente considerando uma besteira que falei e sentindo o travo metálico-terroso que a gente sente depois de falar bastante numa conversa e depois se calar. Nessas horas escutamos o eco da nossa própria voz dentro da cabeça, e ela nunca é aprazível. É essa sensação esquisita e incômoda que chamo agora de gostinho de terra, não é agradável, é ruim, pra falar a verdade, e tentamos evitá-la a todo custo, mas nem sempre conseguimos. Sentia isso mais forte quando era adolescente e me reunia com amigos na esquina pra jogar conversa fora e depois de muitas horas jogando conversa fora sobre os mais diversos assuntos, cada um tendo falado horrores, um dispositivo soava na mente juvenil como um apito de fábrica avisando ao proletariado que já era hora de ir pra casa.   Às vezes é exatamente assim que sinto as coisa...

Iracema desgraciosa

Ai, não cabem tantos desgostos no coração dessa indiazinha espevitada. Iracema varre extensões incríveis à procura de um pacote de miojo sabor manteiga da terra e um par de braços pra ajudar a armar a rede. Comida e dormida, é só no que pensa, mas eis que vem a perfídia e lasca o dia da morena.  Pior: espinho plantado novamente por um caucasiano sem apreço à nuance, originário duma cultura bárbara com sentido inverso, um amante malcheiroso que se passa por culto mas é apenas reflexo embaçado de uma imagem capturada em algum livro do Foucault. E Iracema não está preocupada apenas com poder ou foder. A índia é assim, têmpera de cera de carnaúba, derrete ao menor contato com o sol.  E entristecida percorre os quarteirões do bairro. Foi cruel e triste a verdade disparada a arco e flecha. Não há mocororó que faça perdoar. Fortaleza não vale a pena. Iracema suspira, chora e se enfia na mata. Dita assim, sem eufemismo, sem elogio anterior, a frase tem tudo para gru...

Animal estranho assusta vizinhança

Que divertido é ver a cidade dividida entre o pavor e a revolução da camaradagem, entre as regionais II e IV, entre o Cocó e a Praia de Iracema, entre a sandália rasteira e a Crocs, entre o multiplex e o cineclubismo, entre a macaxeira e a batata frita, entre a mão vermelha e Brecht. P or muito tempo o vermelho foi símbolo do comunismo. Designava, genericamente, movimentos de esquerda. Agendinhas vendidas nos campi dos centros de humanidades eram vermelhas. Camisas estampando o rosto de Guevara eram vermelhas. Bottons de campanhas para a direção de centros acadêmicos eram vermelhos. As ideologias mudaram, a esquerda rachou, voltou a rachar, cada pequeno pedaço se dividiu em dois ou três, mas a cor do protesto sempre foi a mesma.   Agora o vermelho é adotado também pelo PIB engajado. Com um sentido diverso, está na mão espalmada, estandarte do bloco cuja madrinha bem poderia ser a Regina Duarte da propaganda do Serra: eu tenho medo. A mensagem é falsamente direta: b...

Ri, tá verde

Uma coisa que incomoda não é a falta de união, que isso nem família tem, na minha há um bocado de desunião, mas nos amamos assim mesmo, chega sempre esse momento em que a gente se olha nos olhos e diz as coisas que vem planejando dizer havia muito tempo. Então acontece e tudo tumultua, mas em seguida volta ao lugar e agora estamos melhor, seja porque dissemos e alguma coisa mudou, seja porque dissemos e, a despeito de não ter mudado nada, não sufocamos mais as verdades que tínhamos guardado por tanto tempo nessa caixinha preta cheia de gordura e venenos e mezinhas que não curam. Dito isso, o que incomoda é a falta de três itens bem simples, honestidade pra discutir, seriedade pra respeitar, abertura pra se interrogar. Essa honestidade mais básica, elementar, uma que tenta extrair um tantinho de proveito mesmo das situações mais risíveis; um respeito ao outro, básico também; e uma abertura genuína, não alçapão, a abertura que funciona como armadilha pra fisgar o outro, q...

Avança, corta, recua

O que interessa não tem pressa.  Os apressados comem cru, comer cru equivale a comer antes do tempo, uma das características dos que têm pressa é precisamente desejar sempre que algo aconteça antes da hora, a foto do Instagram, por exemplo, envelhecida por artifício e refém de um falso acúmulo da vivência, ou a fotografia da viagem, tomada por qualquer um como datada de trinta ou quarenta anos atrás, mas feita antes de ontem, ou ainda o vestuário, com peças resgatadas dos anos 60/70 vestindo corpos das gerações x, y, z e w.  Por contato, por usucapião, por similaridade, por proximidade, o que queremos é que as coisas tenham uma profundidade disposta em muitas camadas que apenas o tempo transcorrido confere. E essa é a mágica de agora: avançar e recuar a tabuleta cronológica. Os tempos são de pressa, de experiência simulada, simulacro do beijo, simulacro do abraço, da festa, da saudade, a gente quer pular algumas etapas e chegar num salto ao que interessa, mas...

Aquele ano tão sujo

Não lembro quando foi a última festa de aniversário. Talvez vinte anos atrás, talvez mais que isso. Vivíamos essa época em que as mães, sumo-pontífices do lar, invocavam o L'État c'est moi para cada pequeno ato despótico na regência do cotidiano da prole. E não adiantava espalhar panfletos trombeteando que o absolutismo era uma ferramenta pedagogicamente démodé ou que essa Bastilha doméstica tinha os dias contados. A instituição materna, responsável por prender, julgar e açoitar, não se importava. Lá em casa não era diferente. A mãe ordenava: filho, hoje é dia de celebrar a Páscoa usando orelhas de coelho. Eu usava as orelhas e ia pra escola desfilar a nova aparência. A mãe dizia: circule os números primos. Eu circulava. Responda com suas próprias palavras: eu respondia. Sublinhe os adjetivos. Mãe, o que é sublinhar? É traçar uma reta embaixo da coisa que você quer destacar das outras. Por que tenho que destacar uma coisa da outra? Destacar é separar, e separando a gente...

Sobre a nudez

Depois do falso salmão, polêmica que ainda não tive tempo de entender direito, do veganismo infantil, resultado da exposição frenética de um vídeo no Youtube mostrando uma criança que se pergunta se é realmente necessário matar, vem aí o nu orgânico, forma de arte-vida-performance que se apresenta como resposta para as muitas angústias do homem e da mulher modernos, resposta essa que também não tive condições objetivamente materiais de compreender. Reparem que o nu orgânico é a contraparte de um nu presumivelmente inorgânico, ou seja, nudez composta de matéria nem vegetal nem animal, onde se conclui que mineral, ou, finalmente, que se enquadra na categoria do inanimado, no que ficamos a ver navios, como pode haver nu orgânico se não há propriamente nu inorgânico? Seria o nu plasmático? O nu espectral, fantasmagórico, ou a expressão diz respeito somente à inexistência de substâncias naturais no emprego desse nu? Ora, por mais silicone que uma mulher abrigue em si, ela ai...