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Postagens

(Testemunho)

O cara virou e disse pro outro cara, meio que de brincadeira mas querendo ser levado a sério – “Pô” – disse pô mesmo -, “cansado das meninas bonitinhas, das gatas que dão RT nas paradas mais doces, passam o dia inteiro curtinho as musiquinhas bonitas, aliás bonito, belo, esses conceitos polissacarídeos todos, são uma especialidade delas.” Do que tu tá falando, bicho? “Dessas garotas enjoadinhas, é uma geração que tem gosto de pudim, quer dizer até me amarro num pudim, minha sobremesa predileta, mas mulher com cara de pudim e sabor de pudim, isso daí lasca a humanidade.” O que lasca a humanidade é vinhoterapia pra cachorro... “Sério, podia...” O disco novo do Cícero também lasca a humanidade... “Né? É disso que tô falando, sendo genérico e correndo o risco de parecer preconceituoso e fechado às mudanças da vida, que são dois pecados inaceitáveis agora, cara, as coisas estão num patamar que se peidar sai jujuba do cu da negrada.” HEHE. “Frescando, m...

Tudo que podemos aprender com os zumbis

Texto publicado no jornal O Povo em 25/10.  De antemão, é preciso advertir: não se enganem. Zumbis são mortos-vivos e nesse fato não reside qualquer ambiguidade semântica ou contorção teorética que nos faça acreditar no contrário. Numa ligeira revisão de literatura feita na Wikipédia, descobre-se que os zumbis são criaturas que, a despeito da inevitabilidade do fim, arremetem contra a lei mais básica da vida – a morte, seu reverso incontornável -, animando-se a prorrogar a estadia na comunidade vivente. Agora, porém, com um propósito distinto: dotados da lucidez além-túmulo, buscam subverter a dinâmica dos processos sociais. Deliberadamente escamoteada pela indústria do entretenimento, é dessa ainda inexplorada pulsão transformadora dos zumbis que trataremos agora. Qual a imagem que temos dessas criaturas? Graças ao cinema, a pior possível. Em termos genéricos, são representados, ainda que protagonistas, como nada além de uma porção ambulante de matéria decomposta,...

O que há para conhecer na porta da geladeira

Escritor DFW olhando melancolica/triste/fixa/insistente/longamente pra câmera.   Nem um único momento individual é em si próprio e por si próprio insuportável. Uma frase pra se colocar na porta da geladeira ao lado do ímã do gás e da farmácia ou em cima, perto do pinguim e da fruteira, que em algumas casas com menos de 50 metros quadrados, a exemplo da minha, é substituída por um copo repleto de trecos do tipo alfinete, caixa de fósforos, uma cartela desfalcada de Dorflex, pregador, isqueiro reserva, caneta, abridor etc., já que não há espaço para ambos (fruteira e copo). Como visto, trata-se de copo bem grande. Nele surge um dos robôs do filme Transformers e esse robô dá a impressão de se movimentar quando olhamos de ângulos diferentes, é algo legal de fazer durante o café, mas não depois de beber. A esse efeito enganoso de movimento damos o nome de “torpor tridimensional” ou coisa parecida.   Voltando ao assunto, uma frase traiçoeira, porém, ess...

Eloquência narrativa vs. Zumbis doidões

Zumbis sabem assobiar?

Falar de zumbis é a coisa mais vã. Vã também teria sido a tentativa de escrever sobre qualquer outro assunto diferente desse. Uma manhã talhada para falar de zumbis, como nenhuma outra, a desta quarta-feira conduziu-me por caminhos inesperados, vi-me de repente como walker , alguém cuja vida foi solapada de tal forma e, agora, por obra do acaso, do destino, por obra de outras obras, retorna à luz do dia, nesse passo lento, mais visceral que nunca, à procura de tão somente manter doméstica a fome primeira de qualquer ser humano. Ser um zumbi não deve ser nada fácil na mesma medida em que não ser um zumbi não é, entendem isso? É a chave para compreender essa verdade, toda a verdade, entender igualmente a impossibilidade do assunto quando o assunto querido não assume contornos, e não há arma, ferramenta, não há força capaz de mudar nada disso. Falar de zumbis é também não falar de qualquer outra coisa, não por vontade, mas por incapacidade. 

Sendo A igual a B e diferente de C

Um texto, como qualquer coisa na vida, assume caminhos diferentes do pretendido pelo autor. Agora mesmo alimentava uma intenção primeira, que logo transformei em parágrafo, que aos poucos foi tomando novo rumo, e esse novo rumo conduziu a outra ideia, que, se desdobrada, diverge da anterior e quem sabe até a confronta, de modo que é melhor manter tudo como está, a ideia inicial virginalmente intacta, e na sequência o germe da contradição. Trata-se menos do velho pacto da cordialidade do que de preguiça.  Sendo assim, fica fácil concluir que o que parecia caminhar para um lado dirigiu-se inconscientemente ao outro, e aqui percebo o quanto o inconsciente é uma faca de dois gumes, até de três. Olhando pra trás e vendo tudo que era ideia convertido em tentativa não saída do papel, tudo que era planejamento metamorfoseado em diferença, cotejando o antes e o depois e enxergando nesse exercício o “salto quântico” (oportunidade para usar quântico em qualquer contexto não deve ser de...

Baile animal

No que diz respeito ao retorno, à volta, ao regresso a essa etapa da vida anterior à de agora, mais que etapa, que embute a ideia de processo, um ponto isolado, considerado vagamente ideal, faísca que incendeia o momento suspenso para o qual se volta o olhar imperceptivelmente nostálgico. Sobre isso há menos que dizer do que sugere a numerosa quantidade de cartas, apelos, mensagens, postagens nas redes agrupadas sob a mesma rubrica sentimental, reincidentes tentativas de apanhar o tempo pelo calcanhar. Colhe-se muita frustração e tão pouco de felicidade. Quando a aventura caminha no sentido contrário do ritmo da vida, os frutos, quando vêm, vêm podres de beleza. E essa busca, se entende bem o que tem para falar a uma plateia difusa, é válida, obtém-se qualquer nada e qualquer nada às vezes é. Ontem, recorda já tarde, teve essa mesmíssima conversa consigo, é possível?, não é possível?, respondeu prontamente, nunca é, de modo que, à maneira sobrenatural, saiu...