Pular para o conteúdo principal

(Testemunho)


O cara virou e disse pro outro cara, meio que de brincadeira mas querendo ser levado a sério –

“Pô” – disse pô mesmo -, “cansado das meninas bonitinhas, das gatas que dão RT nas paradas mais doces, passam o dia inteiro curtinho as musiquinhas bonitas, aliás bonito, belo, esses conceitos polissacarídeos todos, são uma especialidade delas.”

Do que tu tá falando, bicho?

“Dessas garotas enjoadinhas, é uma geração que tem gosto de pudim, quer dizer até me amarro num pudim, minha sobremesa predileta, mas mulher com cara de pudim e sabor de pudim, isso daí lasca a humanidade.”

O que lasca a humanidade é vinhoterapia pra cachorro...

“Sério, podia...”

O disco novo do Cícero também lasca a humanidade...

“Né? É disso que tô falando, sendo genérico e correndo o risco de parecer preconceituoso e fechado às mudanças da vida, que são dois pecados inaceitáveis agora, cara, as coisas estão num patamar que se peidar sai jujuba do cu da negrada.”

HEHE.

“Frescando, mas é fato, sem condições, parei outro dia pra falar disso com minha namorada, ela até concordou e tal, disse que eram os valores de geração, o zeit da galera, enfim, o que sei é que tem um processo aí de paumolização que afeta homens e mulheres na mesma medida.”

Como assim, ninguém mais quer ter pau, tem vergonha do pau?

“Exato, os caras têm vergonha do próprio pau e as mulheres têm de admitir que gostariam de ter um pau, daí adocica geral, o falo foi esquecido, a felação, não.”

Sei não, bicho, tô meio desconfiado de tudo, de todos, olho pros cantos e só vejo o pessoal reclamar, reclamar, reclamar. É uma ladainha, mas ninguém tira o rabinho da cadeira, confere?

“É a vergonha do pau, cara, vá por mim.”

Te mando aquele e-mail hoje ainda, beleza? Tenho que ir. Abraço.

“Beleza. Abraço.”

Postagens mais visitadas deste blog

Coisa de pobre

  Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...

Terminando o ano

  Esse foi o ano dos bebês reborn e dos labubus, dos dispositivos de substituição e transferência de afeto, da desafetação e do dar de ombros para o desfile acelerado da vida. Ano do boom da IA e da promessa de um futuro edênico no qual o virtual e o real se equivalem, ano da tiktokzação do sofrimento e da grande diáspora das redes. Ano da fuga das galinhas, dos filmes de terror e do Neymar, ano da prisão e da romantização da prisão dos famosos e do presidente em sua eterna crise de soluço. Ano do vazamento e da sorte de adivinhar os temas sobre os quais milhões sonham em escrever na hora da prova, ano do mecanismo da sorte, da estrutura secreta que produz o futuro. Ano do ostracismo do panetone e da reabilitação do ovo, ano da graça e também da desgraça, ano do recolhimento meditabundo e do desbunde, da ioga e do forró raiz. Ano das desescritas do eu, da arte do baixo ventre, da grafia do corpo sem corpo, enfim, ano de toda sorte de golpe mercadológico para vender mais no país q...

Coca normal

A moça do caixa pergunta se a Coca “é normal ou zero”. Respondo: “normal”, mas logo me assombro com a normalidade angustiante da Coca normal. Olho de repente para a lata vermelha com letras brancas, e o mundo gira em falso. Tento identificar na sua forma geométrica a qualidade que lhe conferiria um enquadramento dentro das expectativas de um padrão de consumo, o que por certo justificaria essa escolha vocabular em contraste com a anormalidade de outra Coca, esta classificada como “zero”, logo como desviante. “Normal”, repito, e por normal quero dizer o quê? Já não sei, não faço ideia. Rodopio no espaço-tempo semântico. Mas continuo a dizer normal sempre que me pedem para escolher entre esta e aquela, como alguém que gosta mais de maçã do que de uva ou banana. Estou parado na fila, ouço o farfalhar das línguas estalando de impaciência atrás de mim. Até esboço um sorriso. Um meio sorriso que se arma não ironicamente para sinalizar que os termos dessa transação linguística são outros, ou ...