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Lugar de gente feliz

Dez cigarros depois, o texto fica pronto, não era o que pretendia, nunca é, parece saído de alguma oficina mecânica forjada de última hora no canto mais escurinho do cérebro, uma nota informativa do quanto nos afastamos do que cremos ser quando as engrenagens da criação – expressão ridiculamente desgastada, eu sei – se põem em movimento. Trata-se da crônica da crônica da morte anunciada, desde o início da semana tinha essa certeza difusa de que as coisas não seriam fáceis nos próximos sete dias, de modo que tratei imediatamente de assumir a causa. Escrevo para tentar compensar algo, não essa bobagem da mãe ou qualquer outra, mas uma que só vou descobrindo à medida que escrevo. É um pedido de desculpas, caro leitor, desculpa, eu devo desculpas, estou aqui ouvindo música e pensando que talvez fosse tudo diferente em outra cidade, em outra época, em outra vida, a gente começa a escrever e acha que o ponto de partida fatalmente conduzirá ao de chegada, que é o mesmo que esbo...

Drama reptiliano

Toda semana um calango cai na pia da lavanderia, daí fico observando o calango tranquilo esperar que algo aconteça, uma mão amiga quem sabe resgatá-lo da superfície lisa, escorregadia, mas nada, o animal continua lá parado, à espera, a mão não chega, o gavião não chega e é impensável supor que a própria ideia de salvação seja algo presente na mente reptiliana dessa criatura, imagino que repudie profundamente o descuido ao atravessar uma fresta da parede, um desvão no telhado, o instante da troca de pernas que redundou na queda, o que significa em bom português filosófico um calango cair da parede?, sempre me pergunto, um bicho tão adaptado às escaladas de repente vem abaixo, tão próprio para trepar nos locais mais altos, mais difíceis, um montanhista de sangue frio, esperto, então lá estava esse calango estúpido de sangue frio, não transpirava, a vida para ele agora é feita de espera, momentos de angústia, indefinição, ali cercado pela brancura do falso mármore da pia da lavan...

Mãos vs. Fenômenos

Há duas semanas li nos jornais da cidade que uma mulher vestida de azul, de aspecto ossudo, com ares de bruxa, uma mulher que poderia facilmente ser minha tia, os olhos igualmente azuis, mas um azul esmaecido, já perto de se apagar por inteiro, essa mulher veio do interior do estado, uma distância imensa, portanto, e, de frente para o mar, mexeu mãos e braços e sacudiu cabelos na tentativa de impedir que fôssemos todos varridos do mapa por uma onda gigante. Somos gratos a essa mulher que não foi paga para nos livrar da morte, do desterro, da abundância nociva da água, mas, pensando bem, por que essa mulher, que mora tão longe, quase noutro estado, por que razão ela resolveu, muito intimamente, que valeria a pena impedir essa onda gigante que chegaria à costa da capital do Ceará apenas em 2013, daqui a bons três meses, em dia, hora e data imprecisos? Não é uma pergunta retórica, apenas gostaria de entender as bobinas que movimentam a cabeça dessa mulher de natureza apar...

A onda vem vindo

Tinha essa ideia, que era mergulhar, tomar distância, saltar num pé, mergulhar e nadar para longe, para perto, nadar em muitas direções, era ótimo exercício movimentar braços e pernas em rápidas evoluções, a cabeça virando para respirar no momento preciso, a água salgada talvez não incomodasse tanto quanto o sol, certamente não incomodaria tanto quanto a falta de um incômodo autêntico, desses que dão vida a uma existência, um incômodo suficientemente doloroso, a dor enfim irremediada tem lá suas vantagens. Depois de nadar, a ideia seguinte era parar, como se pudesse, ondulante, puxar uma cadeira, uma mesa, ocupar um assento em alto mar e então esperar que o tempo passasse lento, enquanto no calçadão as pessoas se exercitavam de todas as maneiras, caminhando, correndo, fazendo flexão, patinando etc., uma mulher metida no short, nas costas a marca do suor, há sempre tantos modos de colocar o corpo em movimento e o calçadão é uma diversão democrática, imensa, ótimo para ficar...

A ideia que temos de diversão

Enquanto não vinha, enquanto esperava, pedi que piscasse, vamos, quero vê-la piscar, não uma nem duas, mas três ou seis ou nove vezes, regime de progressão assimétrica, era um desafio, era bonito vê-la enrugar o cenho, meninice evidente, “tô tentando, tô tentando”, tenha calma, fingia aperrear-se e ria, ria, é pra já, era noite, era frio, era quente, o tempo de setembro provando ser mais que um triângulo das bermudas perdido no calendário, um instantinho de felicidade dura para sempre, um instantinho de felicidade – olhos piscando – é maior que qualquer felicidade.

Vó, tô estourado

É inexpressiva a fatia da população cearense que percebeu, até agora, que o refrão “Vó, tô estourado e meu avô é o culpado” evidencia uma troca inusual de papéis familiares. Por trás da métrica livre dos versos do forró, há a sugestão de mudança nos costumes: sai a figura da avó permissiva, cuja proposta pedagógica, fundada no anarquismo e no princípio do laissez faire, laissez passer , tem o condão de mimar em excesso os (as) filhos (as) dos filhos (as), estragando-os (as). No lugar, entra o avô galhardo, desmantelado, raparigueiro, irrecuperável biriteiro. Esse avô hipotético de que fala a música não teve grande problema em se desincumbir da responsabilidade de ser o mantenedor de certa reserva ortodoxa no trato com os assuntos da casa. É o que é: agente da profanação dos hábitos, e se ressente de não ter podido aproveitar mais a vida. Propagandeada em outdoors da cidade, a canção Vó, tô estourado , da banda Forró Movimento, tira proveito dessa situação-limite. Murmurada ...