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TEFLON ASSASSINO

A espuma laranja da panela do macarrão, o novo jogo de copos, o pano de coar rasgado, a torneira de giro emperrado. Na vida doméstica, todas as torneiras deveriam ser hidráulicas. Como a direção hidráulica. É feriado, faz um sol danado, é o mesmo sol que se diverte queimando todo mundo à sombra. Mais um patamar do condomínio foi erguido da noite para o dia. Disseram que a imobiliária vendeu todos os apartamentos em 16 horas, um feito notável. Cada imóvel custaria 800 mil reais. São duas famílias por andar, o que, pelos padrões atuais, significa dizer quatro filhos, quatro carros, umas seis televisões e muitos computadores. Ligaram do banco outro dia. Em seguida, ligaram da locadora. Foram dispensados com muxoxos. A voz, um fiozinho enleado. Sugere carência energética. Trata-se da atávica tendência a comunicar nesse idioma miúdo. “Falar pra dentro.” É assim que se referem, irritados, fulano é legal, mas fala tão pra dentro que dá nos nervos. Falar pra dentro não é ser...

Questiunculinhas

Parêntese: havia tempos não dava uma boa caminhada ao longo de toda a extensão do calçadão da Beira Mar. Reparei a falta no final da noite de ontem, já amplamente dominado pelo sentimento de culpa depois de ter comido um portentoso sanduíche. E que lugar horrível, santos deus! Maltratada, nossa orla é uma confusão dos diabos, uma feira livre como as que se armam precariamente nos quatro cantos da cidade, só que pior: há essa cercadura de prédios a empatar a vista, os ventos, a vida. Uma concertina formada por megaedifícios embicando a poucos metros da faixa de areia, equivalentes dos pega-ladrões feitos de caco de vidro e pregados aos muros de antigamente. É o lugar mais opressivo da cidade. O mais feio também. Não há beleza que resista a esgoto correndo sem tampa, ocupação irregular (de ambulantes e donos de restaurantes) e poluição visual e sonora – o brinquedo cintilante atirado às alturas, a matraca que gira e produz lixo sonoro, o carro de som que troveja o próximo show de hum...

À espera

Tio, estou doente, mas só um pouco, respondeu a sobrinha, logo desfazendo o nó que lhe havia crescido na barriga ao ouvir o relato dramático da mãe, na cabeça a sobrinha estava prestes a desencarnar, mas longe disso, podia agora livrar-se apenas por algumas horas do breve incômodo que se apodera das almas sem vínculos e dos corpos flutuantes. Por enquanto, tudo era diferente. Distante da família havia semanas, afundado nos próprios termos, negócios, taras, velhacarias abundantes, uma existência particular, desprendida, a voz da sobrinha então soava plena de vigor, uma raiz de tão forte arrebenta a calçada e cresce tortuosa, a contragosto de todas as horas enfermiças. O mágico cozimento do tempo levado ao afago da avó, da troca de palavras desajeitada com a bisavó, do longo abraço no avô recém-chegado. Tio, repetiu, estou bem, estou apenas brincando, não é pintando, é brincando, ouviu mais uma vez, e sorriu.

Sonho

Sonhou as poucas razões que havia. Foi um dia de semana trabalhoso, sem café, passara a maior parte do tempo encarando o rosto das pessoas à procura de sinais, queria perguntar, a meio do caminho detinha-se, desmemoriado, esquecido. Era caso de voltar e tentar recuperar o tempo. Um início de mês complicado. Entre cada parte instalava-se essa zona cinzenta habitada por bichos e pessoas, uma fauna completa, um ecossistema, de modo que, ao imaginar-se ali, caminhando sozinho, um clarão de planície varrida por tempestades nas madrugadas, a planície até então vazia enchia-se de pequenos animais carnívoros dispostos a ferir de morte, a matar, a morder e lamber, a dar voltas em torno em busca do corpo massacrado. Era evidente, tentava decifrar o simbolismo do sonho, a morte, a competição expressa, um incômodo, embora não reconhecesse imediatamente o quadro característico de tensão exacerbada. Pensou ligar ao amigo, consultá-lo quanto à razão extraordinária da presciência onírica, rir um...

O pai ao telefone

O pai liga, falam-se o mais básico, interrogam-se o combinado, está de saída, comeu, que tem pela noite, e o fim de semana, comprou as frutas que aconselhei, logo vem o silêncio, o pai quer saber mais, o filho enerva-se, explica que a pilha de negócios não convém ao exíguo do tempo, deita falação, reclama o de sempre, muito trabalho, paga insuficiente, filhos crescem-lhe feito capim, prestações, depois respira fundo como a zangar-se, o pai tem saudade, é sempre assim quando telefona, já perto das 22, o filho é bom, tem certeza, o pai tem saudade, o filho responde após algum tempo preciso de desligar. O pai tem saudade.

Deus das formigas

Um deus piedoso, matasse apenas formigas, aos esguichos, aos jatos d’água, mortas às dezenas, acumuladas em veios que se formariam instantaneamente ao longo da pia, um deus irascível, devoto da lei implacável mercê da qual a menor falha assumisse ares de moléstia disseminada, mais esguichos, jatos, mancheias d’água arremessadas contra as fileiras de pequenas disparadas em procura da menor cavidade, cheias de querer esconder-se, tementes à falta de gozo. Deus final, único, misericordioso, sequer perdoasse as formigas transportando às costas farelos gigantescos de pão.