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O NÃO-DOENTE

Ora, ora, querem saber de quem se trata? Y. é um estudante metade judeu, metade palestino, nascido na França mas culturalmente educado nos Estados Unidos – acertou quem pensou em Pittsburgh. Tem a pele morena, pernas cambaleantes e cabelos encaracolados, óculos de lentes e aro grossos. Veste-se quase sempre com camisas de flanela quadriculadas, calça leve, sapatos brancos, sem mais adereços além dos olhos esbugalhados. Não é exatamente um dândi – quem o conhece sabe que não. Vive em Fortaleza há pelo menos 21 anos. É ilustrador, desenhista, escritor, viciado, insone, vândalo, desocupado. Abriga uma MOLÉSTIA INOMINADA cujo tratamento é dificultado precisamente porque a MOLÉSTIA É INOMINADA. E isso quer dizer: Y. tem ataques freqüentes que o sacodem por 1h20min32segundos. Fosse epiléptico, teria alguma chance de viver por certo período de tempo. Fosse. SUA DOENÇA É INCOGNOSCÍVEL. Não está catalogada nos manuais clínicos. Pronto, falei. Espero que possam identificá-lo na rua depois desse ...

Notícias do cacto

Depois de se fingir de morto – cobriu-se de um “verde IJF” dos pés à cabeça -, o cacto revive. Eu o salvei, me felicito sempre que passo no corredor e enquanto sou acalmado pelas ondas que quebram a alguns metros da minha janela vejo suas pernas e braços esverdeando-se lenta mas firmemente, lenta mas alegremente soa bem melhor que qualquer outra coisa. Tem um broto nascendo-lhe junto aos pés. Um broto bem verde. O miolo também parece bem saudável quando noto espalhar-se numa medida convicta. Andorinha, nosso cacto vive. Se ainda tivesse celular, se ainda tivesse carteira também, faria inúmeras fotos do cacto e diria veja, ele está a salvo, sua saúde é de ferro, parecia demente, parecia incurável, parecia para sempre haver embarcado em uma nau clarineta com destino certo ao inferno dos cactos porque para cactos, alguém disse, mesmo o céu espinhoso é infernal. E agora vai viver mais tempo que você e eu.

Dias realmente assim ou o Grande Gamer

Tem dias em que a gente acorda, serve-se de café como de costume e sai para trabalhar mas de algum modo estranho, de algum modo perversamente inusitado permanece atrelado ao dormitório, e nosso corpo finge desconhecer a preguiça comportando-se como um jovem rebelde cujos pais o cobrem de presentes a cada final de ano embora ele sempre se recuse a aceitar afirmando cheio dessa novidade que é a consciência política, afirmando EU não posso, os hutus estão destruindo os tutsis, e é somente nesse ponto que seus pais entendem, como o cérebro entende os caprichos do corpo, eles entendem que o filho pode seguir em frente porque a adolescência, essa doença, um dia passará e não deixará marcas senão aquelas absolutamente necessárias, como o susto que se segue ao primeiro gozo silencioso. Tem dias assim, incrivelmente assim.

Take a cigarrete

Bom, bom. Estamos aqui para falar sério ou o quê? Ora, não sei por onde nem como começar, disse Y. Nem eu, respondi soltando nuvenzinhas de fumaça. Bom, bom. Estávamos ontem mesmo falando do que quer que seja quando de repente nos ocorreu qualquer idéia maluca. A idéia maluca logo se converteu em qualquer coisa exeqüível. Foi tudo muito rápido. Será realmente posta em prática? Prontamente, disse. Os textos são cada vez mais necessários, despistou. Contradisse-o com informação. Há menos gente interessada na leitura do que na copa do mundo. Há menos gente interessada na leitura do que na televisão. Isso há pelo menos cinco gerações. Há menos gente interessada na leitura do que na gastronomia. ISSO É - questionável. Isso é verdade. Sempre foi. Sempre será. Desisto. Quero um cigarro. ANDO ATÉ O BALCÃO DA COZINHA. ALI, EM CIMA DA NOVA EDIÇÃO DE SERROTE, UM MAÇO DE MARLBORO. A CAIXA VERMELHA BRILHA INTENSAMENTE. ANTEVEJO A CENA: ACENDEREI O CIGARRO E, EM SEGUIDA, CAMINHAREI SEM PRESSA AO LON...

O PARQUE DE DIVERSÕES

A cena do parque. Homem branco se aproxima de catador de latinhas. Catador lhe pede dinheiro. Possivelmente para comer. Homem branco, calvo, camisa de botão e calça jeans, fica ainda mais próximo. A poucos metros dali, casal assiste tudo. Parece desconfiado. Homem branco e catador cochicham. Homem explica algum procedimento. Orienta, sugere etapas para o cumprimento rigoroso de alguma tarefa. Catador está confuso. Quer as moedas, mas não sabe se está realmente entendendo o que Homem branco pretende com tudo aquilo. E essa voz? Por que tanto rigor, tanto método comprimidos numa voz rala, insidiosa? Ele não entende. Quer atacar as moedas e se danar dali. Homem branco nota chegada do casal, desconcerta-se, finge interesse na rotina nutricional do catador. Tem movimentos amolecidos. Ele logo pergunta: dá para você lanchar? O catador olha as três ou quatro moedas que passaram a suas mãos. Acha que não vai dar. Atento, o casal cruza olhares com Homem branco. Em seguida, vai embora. O Homem c...

Vem das sereias

Encaro Maria Bethânia. Ela não quer dizer nada. Tem qualquer coisa parecida com um xale envolvendo o seu pescoço. Usa batom vermelho nos lábios levemente rachados e sombra nos olhos ligeiramente fechados. Mesmo feia, tem uma boca absolutamente bonita. Mas isso de modo algum a salva da desbeleza. Maria Bethânia é sobretudo feia. Tem ares de bruxa, cabelos grisalhos espalhando-se na capa da revista. Parece um velho dinossauro. Uma deusa resgatada de alguma pirâmide. Dentro da publicação, ela posa para fotos. Usa roupas folgadas: uma calça azul marinho e um camisão branco, cujas mangas vão até os pulsos magros da cantora. Porque desposou o candomblé, ela não usa preto. Descrevo o rosto: olhos profundamente pretos – desta vez, pretos mesmo. Cabelos ondulados, pele sulcada por incontáveis linhas que, vistas de bem perto, lembra as lavouras de feijão e milho. Para a idade que tem, há poucas rugas. É comedida nos adornos: um relógio e um cordão que lhe escorre até a cintura. Enquanto penso em...

Canta, Benito, canta

Ora, ora, se não é a Krise que bate à porta e pede entrada. Eu digo entre, sim, e trate logo de se abancar, que nossa conversa consumirá ao menos dois terços de minha vida. Mas ela tem pressa, diz que veio assustar mas já tem agendada outras querelas. Eu digo não seja por isso, e me ofereço de bom grado como ajudante ou o que quer que seja. Ela se sente lisonjeada, pede tempo para medir corretamente as implicações daquela decisão, eu digo prontamente não há nada que ser decidido, aqui estamos, aqui permaneceremos. Já na esquina, ela acena. Promete deliberar e concluir tudo dali a dois dias. Aguardo. No rádio, toca Benito de Paula.