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O ovo e suas circunstâncias

Aquele ovo na frente da porta do elevador me encarava, desafiador. Alguém o deixara cair, talvez sobraçando as compras, e lá o ovo tinha estado por todo esse tempo. Um único ovo, estirado no hall do prédio, à espera sabe-se lá do quê, perfeitamente redondo, guarnecido por uma lixeira que fora deslocada do canto para sinalizar. Pensem no seguinte: alguém tivera a preocupação de demarcar o obstáculo à passagem dos moradores arrastando um item para um local inadequado. De longe, portanto, via-se a lixeira no meio da área, espectral na sua posição antinatural, uma torre plástica à sombra da qual se encontrava o ovo – que não era apunhalado, tampouco misterioso, enigmático, clariceano. Era um ovo ordinário, típico de supermercado, branco e grande, desses cuja bandeja hoje é vinte e cinco reais. Um ovo já aclimatado à rotina da classe média de um residencial onde era mais simples (mais cômodo?) erguer barricada com um depósito de lixo do que descer com uma toalha ou pano de chão e desinfetan...

Excesso

Há dias ensaio uma entrada no Substack, o que dizer, como dizer, quando e para quem, mas falar de "entrada" com essa solenidade pode soar como se tivesse grandes pretensões na plataforma, pretensões estéticas e políticas, isso sem falar nas acadêmicas, já que neste momento me vejo às voltas com a escrita de uma tese e isso fatalmente vazaria para o texto, seria ingenuidade imaginar que não. No entanto, dizer que não tinha ambições seria enganoso ou não totalmente verdadeiro. Talvez porque no fundo pense que sim, eu deveria começar a escrever seja o que fosse, sobre mudanças de casa, leituras em andamento, exercícios físicos, métodos de limpeza de piscinas ou patologias arquitetônicas num edifício de área nobre de Fortaleza. Ou não, talvez não, eu me convenceria de que está tudo bem assim, está tudo bem aqui, ninguém precisa de mais uma newsletter avulsa, tendendo ao pessoal, egoica sem parecer umbiguista, com um retrogosto persistente de eruditismo mal cultivado e repertori...

Eufemisticamente falando

  Há em andamento uma eufemização das relações de trabalho que mais parece uma brincadeira de roda, infantil, um esconde-esconde com crianças que se põem atrás das cortinas e permanecem com os pés à mostra dos adultos, que as encontram sem dificuldades. Assim é com essa gramática que se presta ao papel de escamotear regras simples, transações costumeiras e contratos habituais. De repente, soa abusivo e cafona falar de empregado e patrão, mas não de colaborador e líder, um par ordenado cuja única vantagem é dar a entender que se trata de uma parceria o que, de verdade, é exatamente o seu avesso. Como se em essência a natureza dos vínculos houvesse se alterado, e todos sabemos que não, tudo segue mais ou menos do mesmo jeito, tal como já previra a canção premonitória “Xibom bombom”, do grupo As meninas. Lá pelas tantas, a letra diz: “Analisando essa cadeia hereditária / quero me livrar dessa situação precária / onde o rico (cada vez fica mais rico) / E o pobre (cada vez fica mais pob...

Costumes de aldeia

Há dias me vi enfastiado com os hábitos da aldeia, ou seja, o traço passivo-agressivo mal dissimulado de conversas privadas que não se tornam públicas, as entrelinhas do palavreado que jamais ousa dizer o seu nome, os malabarismos retóricos para fazer prevalecer certa acomodação política buarquiana na qual os interesses, por conflitantes que seja, mantêm-se festivamente. Nessa república cabocla de “nebobabys”, tudo se passa como se reinasse a sensaboria, nada de novo acontece, as tensões apaziguadas e as nervuras, contidas. Mesmo os ímpetos e os jogos concorrenciais de poder se dissimulam no quadrante cearense. É coisa de época, da cultura ou do contexto? O intelectual se expressa, por exemplo, lançando mão do verbo e do repertório, mas a gramática recobre tudo de uma penumbra arestosa, não se sabe do que fala – mais ou menos como faço agora, quando se pode supor que ou se trata disso ou daquilo, deste ou daquele, desta ou daquela. Um professor mais antigo costumava dizer que é uma mar...

Autoria "fantasmática" na tetralogia de Elena Ferrante (trecho)

  A tetralogia de Elena Ferrante é assinada por um nome postiço, um artifício que não desvela um rosto, encerrando-se em si mesmo e instaurando uma interrogação: quem está por trás da história? Quem sustenta a sua linguagem? Quem a escreve? Trata-se de autobiografia, no sentido que lhe atribui Lejeune (2014), ou inteira fabulação, e nisso o pacto mesmo se recombina? Sem conhecê-la, sem haver de sua escritora nada mais que pegadas biográficas que a autora distribui no curso de entrevistas e artigos publicados, que protocolos de leitura são acionados pelo leitor no ato mesmo de fruição da narrativa? E que regime de autoria é mobilizado por esse processo de mascaramento de uma identidade de cuja existência sabe-se quase nada, exceto que se trata de mulher que tem filhos e já morou em Nápoles, cidade ao sul da Itália, um perfil comum a outros tantos? Por fim, cabe interrogar, à maneira de Foucault: importa quem fala? Longe de escamotear subjetividades, a operação de disfarce sob pseudô...

Segunda temporada de “The Last of us” chega ao fim – ainda bem

  A título de introdução, quero deixar claro que este não é um texto de “fã”, ou seja, alguém cujo evangelho íntimo prescreve absoluta reverência a obras e personagens consagrados, para os quais passa a exigir fidelidade caninamente devocional. Dito isso, a segunda temporada da série “The Last of us” , adaptação de um jogo de videogame produzida pelo HBO Max (ou apenas Max, ou só HBO), me fez querer voltar ao game imediatamente. Não por saudosismo ou qualquer outro ímpeto consumista, entenda-se, mas porque não queria que o retrogosto amargo deixado pela produção audiovisual se mantivesse por muito mais tempo. Isto é, eu queria apagar rapidamente grandes porções da nova temporada, a cargo de Craig Mazin e de Neil Druckmann , notadamente aquelas responsáveis pela metamorfose de Ellie, vivida na TV por Bella Ramsey , uma atriz fenomenal que esteve boa parte do tempo à mercê dos maneirismos de um diretor que olhou para o produto original e pensou: eu posso estragar isso aqui com u...

A arte da resenha negativa

 Não há dúvida de que a resenha negativa é uma arte da qual poucos se servem, mas cuja leitura costuma recompensar, seja pela raridade do gênero, pouco encontradiço nas páginas das revistas e dos jornais, seja pela falta de jeito que o exercício da crítica em desfavor da obra (e eventualmente de seu autor/autora) implica. As vantagens da escrita da negatividade (chamemos a coisa assim) se contam aos montes, todavia. Desde a injeção de ânimo e oxigenação de um ambiente cultural que se compraz com as platitudes habituais (uma república de tapinhas nas costas), até a descarga elétrica que uma tal manifestação faz disparar em todo o circuito artístico. De pronto, tão logo o texto ou o vídeo ou o podcast com a apreciação menos elogiosa se torne público, uma cadeia de pequenos acontecimentos sísmicos se transmite, indo de uma ponta a outra da planície antes pacificada, desarmonizando os jogadores desse campo (escritores, pintores, cineastas, curadores, músicos etc.). Algo do tipo se viu ...