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A arte da resenha negativa

 Não há dúvida de que a resenha negativa é uma arte da qual poucos se servem, mas cuja leitura costuma recompensar, seja pela raridade do gênero, pouco encontradiço nas páginas das revistas e dos jornais, seja pela falta de jeito que o exercício da crítica em desfavor da obra (e eventualmente de seu autor/autora) implica.

As vantagens da escrita da negatividade (chamemos a coisa assim) se contam aos montes, todavia. Desde a injeção de ânimo e oxigenação de um ambiente cultural que se compraz com as platitudes habituais (uma república de tapinhas nas costas), até a descarga elétrica que uma tal manifestação faz disparar em todo o circuito artístico.

De pronto, tão logo o texto ou o vídeo ou o podcast com a apreciação menos elogiosa se torne público, uma cadeia de pequenos acontecimentos sísmicos se transmite, indo de uma ponta a outra da planície antes pacificada, desarmonizando os jogadores desse campo (escritores, pintores, cineastas, curadores, músicos etc.).

Algo do tipo se viu agora, por exemplo, com uma avaliação desprestigiosa de uma autora muito badalada em certos circuitos de ilustrados sudestinos, uma escritora emergente com toda a pinta de emergente, uma autodeclarada trânsfuga de classe, enfim, uma hábil vendedora das próprias virtudes literárias, o que não é demérito algum.

Pelo contrário, admiro bastante quem se mostra à vontade quando se trata de fazer crer que está à altura da ideia projetada de si mesmo, que nunca é mediana. Isso é para poucos, talvez para muito poucos, havendo mais frequentemente esses escritores que se contentam apenas em tentar saber escrever. E outros, tadinhos, que não se saem bem em nenhuma das tarefas. Narram mal e performam (para usar palavra adequada) pior ainda, o que é uma tragédia em termos de subsistência no competitivo ecossistema livresco contemporâneo, que requer ao menos que o participante engajado na disputa encarniçada simule predicados olimpianos, a despeito de os ter ou não.

Voltando à vaca fria. Disse que a resenha negativa é arte ainda porque, para cultivá-la, é preciso elevado grau de inconsequência, além de desapego social corajoso. Isso sem falar na disposição suicida para fazer inimigos, gente cuja lembrança jamais apagará o fato de que sua obra maturada em barris de carvalho foi alvo de uma crítica desabonadora e deseducada (misógina?) numa magazine virtual lida por meia dúzia de pessoas num país de milhões.

Toda essa controvérsia dá muito o que pensar, claro, e nisso a resenha negativa também se revela como uma ferramenta pedagogicamente eficaz – ou “potente”, para ficar numa terminologia de gosto duvidoso, mas “super” na moda.

Onde a riqueza? De repente, mal se deu de cara com a crítica desancando o romance/conto/ensaio, um fluxo de curiosos acorre ao produto como moscas no leite azedo, interessado menos em suas qualidades do que em seus defeitos (o que, para efeito de venda, pouco importa), a ver se se trata realmente de tudo aquilo que se falou dele (eu mesmo fiz isso recentemente, e estou descobrindo que o crítico talvez tenha exagerado nas tintas).

Incomoda, no entanto, essa exigência da licença para criticar, o receio de melindrar o gênio criador por trás das frases ou dos filmes ou do disco, a taquicardia que se segue quando uma ressalva a este ou àquele aspecto acaba por se replicar nas redes sociais, ganhando repercussão.

Pior, esse lugar-comum equivocado segundo o qual não se deveria perder tempo com as criações malfadadas, a narrativa canhestra, a poesia falhada, o enredo sofrível, a estrutura desafortunada, a cena postiça, isto é, com tudo que, pretendendo ser uma coisa (boa), findou por ser outra (ruim).

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