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A cidade é um ovo

A cidade é um ovo, escuto com frequência desmedida, ao que os mais exagerados acrescentam, em tom ainda mais incisivo: um ovo de codorna, o dedo em riste a advertir o interlocutor ingênuo. Um ovo pelo que tem de diminuta, claro, e isso sempre me pega, pra usar uma gíria de fabricação mais recente (já sem muito uso, tanto ela quanto a palavra gíria em si), porque no fundo se trata de uma metrópole, a quarta maior do país. Uma cidade com três milhões de pessoas e mais de uma centena de bairros. Espalhada como um ovo na frigideira, quente como ovo cozido, abafada como ovo na cuscuzeira, mas não exatamente um ovo, no seu sentido figurado, se é que consigo me explicar. Mas há quem insista: a cidade é um ovo. O que quer dizer, afinal de contas? É coisa para se investigar, apurar bem antes de falar e repetir, até para encompridar aquela conversa na mesa de bar ou na fila do pão, no cinema ou na praça, quando duas pessoas desconhecidas descobrem amigos comuns e intuem, como numa epifania, que ...

A língua do “p”

 Pensei em riscar algumas palavras do léxico de 2025, a começar por “mentoria” e seus derivados (mentor, mentorado e por aí vai), mas não sei se conseguiria concluir o ano que nem se iniciou sem fazer alusão ao vocábulo, onipresente e versátil sob sua manta de tecnicidade descolada e luminosa, acessível e mistificadora ao mesmo tempo. Desisti, afinal, porque a economia das trocas cumpre o trabalho por si, ou seja, o próprio uso (ou desuso) cotidiano se encarrega de pendurar toda terminologia aparentemente sem finalidade, senão a de parecer sumamente moderna e inteligente sem sê-lo. Resolvido o impasse da mentoria, que pus de lado para evitar aborrecimento em demasia, passei então ao “hiperfoco”, outro termo que tenho ganas de atirar longe sempre que o ouço. Foi só pronunciá-lo, contudo, que desenvolvi eu mesmo um hiperfoco no hiperfoco (atenção excessiva e injustificadamente concentrada num objeto qualquer, de preferência irrelevante e sem qualquer efeito prático no dia a dia, mas ...

O resto é memória

Encontrei fotos da família que considerava perdidas, estavam sob a guarda de alguém. Cenas do dia a dia, uma sala, um sofá, um aniversário. Entre elas, minha avó e meu avô paternos, cujo rosto não conhecia. Era um estranho até então, seus olhos rasgados, o cabelo cortado rente e a testa alongada, o pescoço largo e os braços esticados ao lado da esposa, ainda muito jovens. Minha avó era bonita, os mesmos traços que vi se repetirem noutras mulheres de casa, uma tia, uma sobrinha, a irmã, todas participantes de um jogo secreto. Vê-la foi como remontar um quadro de peças faltantes, contornos cuja frequência se devia a essa espécie de molde não datado e jamais encontrado. Estranho que tenha aparecido apenas agora depois de tanto tempo, sem que eu a procurasse, tampouco sem que tenha pedido nem suposto que ainda restassem essas imagens, dadas como extraviadas já havia tanto. Eis que surgem de repente, os troncos antigos subitamente à mostra, como diria a outra vó, revelando esse desejo mal d...

Luta de classes na janela do avião

Jamais supus que a janela do avião fosse esse triângulo das bermudas da moralidade nacional, o lugar onde se perdem os referenciais e os códigos de civilidade se dissolvem entre bifurcações e outros dualismos. Afinal, ceder ou não o assento tornou-se questão que mobiliza a audiência a tal ponto que tudo o mais – da violência policial ao fracasso do time do coração – é apenas nota de rodapé ante a enormidade abismal do impasse que se coloca. Você trocaria de lugar com a criança cujos apelos audíveis fariam qualquer um de coração mole assentir de pronto, sem auscultar os batimentos de suas próprias lições de formação, ignorando o impulso de ficar apenas para sentir o prazer de contrariar esse pequeno Godzilla? Posta assim, talvez a questão acabe por perder complexidade, reduzindo-se a mera polarização. Mas é preciso ir além. Primeiro, convém entender o que significa um aeroporto para a classe média brasileira. Melhor: o que significa estar no avião ocupando uma cadeira pela qual se pagou...

A coisa da coisa

Há dias me pergunto se coisar é uma coisa nossa, tipicamente cearense, como a vaia, a sandália do Espedito Seleiro ou a mania de calça jeans no shopping aos domingos. Se, nessa coisa de coisar, há mais coisas do que supõe nossa vã filosofia alencarina. E, sendo ou não uma coisa da terra, se há algo por trás desse cacoete de empregar uma coisa sem rosto nem contorno para dizer outra coisa que não sabemos, mas que todo mundo entende de cara. É uma coisa absurda.  Lembro do palhaço Tiririca, que não sabia coisa com coisa antes de se eleger deputado e que, durante a campanha, prometia explicar como funcionava essa coisa da política no Brasil. Embora estivesse claro que Tiririca estava coisando com a nossa cara, ele foi eleito com milhões de votos. Uma coisa nunca antes vista. Quatro anos depois, entretanto, o palhaço continua coisando as suas coisas sem que ninguém se dê conta de como a coisa toda chegou a esse ponto.  Mas Tiririca, um ardoroso defensor da coisa, não está sozinho....

Dias e horas

Escrevo durante o intervalo de sono de minha filha, um cochilo intermitente repleto de movimentos bruscos de pernas e braços e pequenos grunhidos de contrariedade disparados como flechas e só amenizados com leite e braço. Tudo em redor se regula por sua respiração. Mesmo os ritmos da casa, normalmente mais barulhenta, se alternam conforme as ondulações de seu corpo recém-nascido. Os gatos mais quietos, as cortinas pousadas em leveza, as portas em mansidão, os aparelhos em dormência. Quando dorme, dormimos. Quando desperta, é sobressalto. De repente, noto os seus cabelos muito pretos e a pele mais para o café. Lembro de minha avó, os olhos como duas esferas escuras agora cravados em mim, inquiridores, certos de que tenho alguma resposta, seja qual for sua pergunta. Levei esse novo do Zambra comigo pra maternidade como um objeto ao qual pudesse me apegar, reduzindo a ansiedade. Foi uma coincidência que o livro se destinasse ao filho, um romance epistolar que percorre o caminho de volta n...

Desconfie do senhor Miyagi

Não sei quantas vezes os médicos erram por dia no diagnóstico do sexo dos bebês, mas suponho que não sejam tantas. Imagino que, entre fluidos placentários e outras substâncias misteriosas que orbitam o fiapo de gente em formação, haja mil razões para errar e nenhuma para acertar. Que os fetos, encaracolados na bolsa uterina como caramujos nas conchas, não colaborem, cruzando as pernas como charmosas modelos posando para revistas de moda. Imagino também que a escuridão primordial dentro da barriga da mãe seja um fator impeditivo da acuidade visual da genitália. Na minha cabeça, determinar o sexo dos bebês é mais ou menos como determinar o dos anjos: uma atividade esotérica, mais para o jogo de azar do que para o rigor da medicina, regida por leis que contrariam o bom-senso, a racionalidade e, eventualmente, a paciência de pais e mães. Acontece que, munidos da alta tecnologia, equipados do saber acadêmico, vacinados com as doses necessárias de desconfiança que a ciência lhes aplicou e a...