Pular para o conteúdo principal

Postagens

A mancha

Vista de longe, em seu desenho irregular e mortiço, a mancha parecia extravagante, extraterrestre, transplantada, algo que houvesse pousado na calada da noite ou se infiltrado nas águas caídas das nuvens, como chuva ou criatura semelhante à de um filme de ficção científica. Mas não era. Subproduto do que é secretado por meio das ligações oficiais e clandestinas que conectam banheiros ao litoral, tudo formando uma rede subterrânea por onde o que não queremos nem podemos ver, aquilo que agride os códigos de civilidade e que é vertido bueiro adentro – o rejeito dos trabalhos do corpo –, ganha em nossos encanamentos urbanos uma destinação quase mágica, no fluxo em busca de um sumidouro dentro do qual se esvaia. A matéria orgânica canalizada e despejada a céu aberto, lançada ao mar feito embarcação mal-cheirosa, ganhando forma escura no cartão-postal recém-requalificado e novamente aterrado e aterrador para banhistas, tanto pela desformosura quanto pelos riscos à saúde. Não me detenho na es...

Cansaço novo

Há entre nós um cansaço novo, presente na paisagem mental e cultural remodelada e na aparente renovação de estruturas de mando. Tal como o fenômeno da violência, sempre refém desse atavismo e que toma de empréstimo a alcunha de antigamente, esse cansaço se dá pela falsa noção da coisa estudadamente ilustrada, remoçada, mas cuja natureza é a mesma de sempre. Não sei se sou claro ou se dou voltas em torno do assunto, adotando como de praxe esse vezo que obscurece mais que elucida. Mas é que tenho certo desapreço a essas coisas ditas de maneira muito grosseira, objetivas, que acabam por ferir as suscetibilidades. E elas são tantas e tão expostas, redes delicadas de gostos e desgostos que se enraízam feito juazeiro, enlaçando protegidos e protetores num quintal tão miúdo quanto o nosso, esse Siará Grande onde Iracema se banhava em Ipu de manhã e se refestelava na limpidez da lagoa de Messejana à tarde. Num salto o território da província percorrido, a pequenez de suas dimensões varridas ...

O último raio de sol

  De repente, o elevador para, mais ou menos como uma SUV que morresse no sinal de um desses cruzamentos da cidade nobre. É sábado. Ou talvez quinta-feira, dia de caranguejo na praia, de sucção de delicadas patinhas e carapaças se desmanchando num satisfatório crac-crac. O sol cai indolente, filtrado por fachadas de vidro temperado naquele arrondissement fortalezense de boas casas e apartamentos avarandados de cara para o mar de verdes águas. Alguém suspira, soprando o ar enquanto checa o sinal do celular dentro do elevador estancado já havia quase meia hora, na metade do percurso até a cobertura. Não há desespero nem aflição, apenas a tediosa certeza de que, mais cedo ou mais tarde, o aparelho enguiçado será recuperado e todos sairão dali para degustar uma vista privilegiada. Ao menos era isso que prometia o folheto enviado por mensagem dias antes a um grupo selecionado de pessoas, entre influenciadores e até possíveis compradores de unidades avaliadas em muitos milhões. “O último...

Da ponte se vê a cidade

  Deixo de lado essas metáforas até cafonas sobre a ponte como elemento arquitetônico que conduz de um lugar a outro, estabelecendo nexos entre regiões separadas de um mesmo território geográfico e político, ligando porções de terra de repente abreviadas por um abismo físico. Me concentro na ponte como essa plataforma de contemplação e laboratório visual de uma cidade cuja história se deu de costas para o mar, enquanto seus canhões, instalados na entrada do forte que a resguardava, apontavam para os de casa. Os poderosos sempre desconfiados de que o risco maior estava representado no âmbito doméstico, e não em quem chegava para pilhar, como ainda fazem hoje no mesmo litoral da capitania, numa recolonização do espaço movida a energia eólica e a resorts de luxo. Nessa história, o nativo assusta mais que o forasteiro. A vista da ponte está vendada sabe-se Deus há quanto tempo, eu mesmo não lembro quando estive pela última vez pisando as tábuas em falso do lugar, que se mantém de pé a ...

Monstros do ar

  Talvez fosse o caso de descrever a paisagem, falar com calma sobre as pedras, os coqueiros, o movimento hipnótico das hélices girando ao longe, guardiãs de algum segredo escondido por trás das dunas. Como grandes monstros, titãs de prontidão, as pás mecânicas de um ventilador como asas de uma criatura cujo corpo se enterra sob a brancura da areia. Vislumbro as hélices e penso em caminhar até elas, mas é tarde ou cedo ainda, não sei. O sol esquenta as costas, o mato crescido arranha as pernas, vejo uma cerca e me aproximo, mas desisto de continuar. Agora que estou mais perto, ouço o vento cortado, um sulco no ar aberto com essa força fantasmática. Cataventos monstruosos, desses de sonhos intranquilos. Como as hélices chegaram até ali, quem as colocou, o que fazem quando para de ventar? Quem as plantou, de que semente vieram? Parecem ter vida própria, prestes a sair andando num passo longo com o qual me alcançariam ainda que eu corresse em direção à água e mergulhasse de cabeça no ...

Areia nos bolsos

  Demoro a voltar, estou longe ainda, no corpo um ritmo de férias que se instalou e do qual custo a sair, uma incapacidade para qualquer coisa que não seja estar à solta, sem as balizas das horas regradas de todo o tempo. As horas da semana, dos dias, do calendário. Horas impróprias, maçantes, de uso comum, feitas para funcionar. Decido então que escrever assim talvez me faça reemergir aos poucos, reavendo certo domínio do gesto físico de encadeamento, gesto cumprido mais facilmente quando no correr dos meses de janeiro a junho, antes dessa parada que faço agora em julho. Na retomada se escancara a dimensão não natural de tudo isso, o caráter forçado mediante o qual tenho de me valer do exercício diário para que esteja de prontidão, como um goleiro cujo olhar não desgruda da linha do campo, a tensão sempre em riste. Volto aos bocados, esvaziando sem pressa os bolsos da areia que trouxe de longe, depois misturada às roupas que reviram na máquina. Areia caída pelos cômodos da casa, v...

Viagem ao fundo do mar

Parece roteiro de uma série nova. Nela, super-ricos embarcam num submarino exclusivo para vistoriar as ruínas de outro portento da engenhosidade humana, o Titanic, afundado há mais de século e agora tornado peça de uma excursão para a qual é necessário investimento prévio na casa dos milhões. Certos de que alargam as fronteiras da ciência e desafiam os limites da humanidade, os bilionários – um punhado de quatro ou cinco, não lembro – se acomodam no espaço diminuto dessa sonda ultramarina, um construto naval hipertecnológico cuja aura de onipotência deve ombrear com a do finado navio ao qual se dirigiam naquele momento e do qual resta uma ossada ferruginosa. Eis, então, que o submarino desaparece misteriosamente. Importante dizer que o fato de que ele eventualmente seja encontrado hoje ainda ou amanhã não modifica o roteiro da história, que consiste, grosso modo, em mais uma dessas produções cinematográficas fabricadas tendo por ambiência e protagonistas o febril universo do luxo e seu...