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A selva

  Eu procurava o tio mesmo quando não o procurava, quando ainda não sabia que poderia encontrá-lo, quando pensava que tinha morrido ou se extraviado. O tio perdido na selva, o tio casado com uma boliviana, o tio pai de uma criança, o tio retornado ao Brasil. O tio era figura sobre quem não se falava, de quem não havia carta, tampouco registro fotográfico. Uma imagem do tio alegre ou carrancudo, uma frase sequer, um bilhete do tio deixado sobre o tampo da mesa ou no fogão da cozinha endereçado à avó. Nada o tio deixou, foi embora assim, como quem se despede brevemente, mas depois muda de ideia e no caminho resolve que pode ir a qualquer lugar que lhe dê vontade. Foi assim o tio, colapsou, o fio cortado da arraia que voa. O tio era uma visagem, diziam, acreditava em fantasma, de repente calava-se e conversava sozinho. Mas digo que é mentira, inventam coisas porque ao tio faltam elementos, ninguém sabe ao certo como era, por isso têm precisão de lhe forrar com essas baboseiras e coisa...

Papai Noel nas alturas

  A multidão de crianças no estacionamento era febril, quase selvagem. Um grupo de pequenos Hooligans batendo o pé no chão. Menino sujo de sorvete, menina descabelada, pais sobraçando roupas, pingando suor debaixo daquele calor e agradecendo de tempos em tempos as lufadas de ar gelado que saíam de dentro do shopping. Tudo pra quê? Pra ver o Papai Noel chegando, conforme anunciava o jornal, em letras garrafais, uma promessa na qual eu quis acreditar mais do que minha filha, que me perguntou com franqueza se deveria ficar alegre com isso. Menina, não estraga a magia, eu pensei em lhe dizer, mas percebi que se fizesse isso era porque a magia já estava na casa do sem jeito. Fingi desatenção, e deixamos o assunto morrer. No meu tempo Papai Noel não chegava, tampouco era anunciado com dois meses de antecedência. No dia marcado, a gente queria acreditar e acreditava, de modo que o Papai Noel ia embora antes de chegar de fato, sem essa entrada pomposa de cantor popstar. De seu rastro, na m...

Sofrência

  Foi só depois da terceira festa no já distante 31 de dezembro de 2016 que me convenci de que havia algo ali que não apenas o frisson habitual em torno de um hit de fim de ano. Pela milésima vez, ouvia a voz esganiçada da dupla mato-grossense Maiara e Maraísa esgrimindo versos indecorosos como "E na hora em que eu te beijei/ Foi melhor do que eu imaginei", da canção "Medo bobo", ou os da prematuramente clássica "10%", cuja letra narra em tom realista a derrocada física e psicológica de uma mulher apaixonada: "Tô escorada na mesa/ Confesso que eu quase caí da cadeira/ E esse garçom não me ajuda, já trouxe a 20ª saideira". Uma mulher. Bêbada. Apelando ao esteio de uma mesa de bar a fim de evitar a queda definitiva. Amparando-se na cumplicidade do garçom, esse personagem que habita o imaginário etílico masculino, de modo a não degringolar de vez ("Garçom, troca o DVD/ Que essa moda me faz sofrer/ E o coração não 'guenta"). Houve um te...

Tudo que existe

  Às vezes fico besta que tudo já exista, mesmo o inexistente, que o indigitado ou o “desdigitado” de pronto se anunciem se por acaso a gente erre o dedo no teclado e nele se escreva sozinha uma palavra qualquer, que julgávamos até então apenas erro. Experimente vadiar nas letras, deitar a gosto a mão nas palavras soltas e depois esperar que o buscador encontre a referência. Estará lá, ainda que o tema pesquisado tenha sido obra de um objeto que caiu sem querer, um gato que passeou sobre a mesa de trabalho, um cotovelo que esbarrou. Tudo já existe nesse lugar do desencontro. Para cada erro, há um significado correto, uma noção que lemos, entre susto e fastio, porque esse excesso, longe de satisfação ou curiosidade, nos dá preguiça, tanto que não sigo adiante, resolvo ignorar o que não sei porque só assim preservo esse âmbito inexplorado. Resolvo continuar não sabendo. Mas tenho sempre ganas de fazer um teste mais científico, anotando resultados e cotejando experimentos, compartilha...

Duras, Escrever

"Encontrar-se em um buraco, no fundo de um buraco, numa solidão quase total, e descobrir que só a escrita vai te salvar. Não ter um tema para o livro, não ter ideia alguma para o livro é se encontrar ou se reencontrar diante de um livro. Uma imensidão vazia. Um livro eventual. Diante de nada. Diante de uma espécie de escrita viva e nua, terrível, terrível de superar. Acho que a pessoa que escreve não tem a ideia de um livro, tem as mãos vazias, a mente vazia, e dessa aventura do livro só conhece a escrita seca e nua, sem futuro, sem eco, distante, com suas regras de ouro, elementares: a ortografia, o sentido."

Fim da livraria

  A livraria fechou, e sobre isso não disse nada, não sei se porque desejei ignorar a notícia ou porque de fato a loja já havia se fechado para mim, de modo que, quando efetivamente cerrou as portas, não sentia mais falta, não era mais um frequentador desde muito. Estive no lugar com assiduidade nos anos de 2010, às vezes pela tarde, noutras pela noite, quando ia em procura de sossego, sem ter motivo aparente ou qualquer objetivo de compra. Chegava às cegas, procurava um canto mais escondido no café, sentava por um tempo e ficava à toa. Cumpria um roteiro que fui construindo a cada visita. Começava no primeiro pavimento, dava uma volta nas estantes de romances, circundava a pilha na entrada e espiava os mais vendidos, sempre disfarçando a curiosidade, com medo de que me confundissem com o tipo de leitor que escolhe um livro porque está em destaque. Depois disso, eu subia as escadas, parava na seção de ciências, de onde saltava para a de quadrinhos e, em seguida, para a de cinema, d...

O pequeno chato

  Será preciso ainda um bom tempo para entender o tamanho do estrago que “O pequeno príncipe” causou ao mundo ao oferecer uma cartilha com falsas lições que se aplicam a qualquer situação, em qualquer tempo, para qualquer pessoa, de modo praticamente inesgotável, prestando-se a todo tipo de aconselhamento. Do fiasco amoroso ao financeiro, da morte de um bicho de estimação a uma catástrofe global, do fim do relacionamento ao vácuo de sentido no mundo virtual, tudo encontra eco no livrinho de Antoine de Saint-Exupéry, que não tem culpa por nada disso. O autor simplesmente escreveu-o e o jogou ao léu, ou seja, fez o que qualquer escritor faz, não sendo responsável pela maneira como cada leitor em cada época irá se apropriar e dar sentido ao que lê. O problema é que, tão logo foi publicado, “O pequeno príncipe” se tornou uma máquina de converter adultos em crianças, não num sentido positivo, como gostaria de ter visto o personagem do livro, mas no negativo mesmo, com a infantilização...