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Sofrência

 

Foi só depois da terceira festa no já distante 31 de dezembro de 2016 que me convenci de que havia algo ali que não apenas o frisson habitual em torno de um hit de fim de ano. Pela milésima vez, ouvia a voz esganiçada da dupla mato-grossense Maiara e Maraísa esgrimindo versos indecorosos como "E na hora em que eu te beijei/ Foi melhor do que eu imaginei", da canção "Medo bobo", ou os da prematuramente clássica "10%", cuja letra narra em tom realista a derrocada física e psicológica de uma mulher apaixonada: "Tô escorada na mesa/ Confesso que eu quase caí da cadeira/ E esse garçom não me ajuda, já trouxe a 20ª saideira".

Uma mulher. Bêbada. Apelando ao esteio de uma mesa de bar a fim de evitar a queda definitiva. Amparando-se na cumplicidade do garçom, esse personagem que habita o imaginário etílico masculino, de modo a não degringolar de vez ("Garçom, troca o DVD/ Que essa moda me faz sofrer/ E o coração não 'guenta").

Houve um tempo em que apenas homens se permitiam a embriaguez total na tarefa hercúlea de superar um desamor, diluindo as mágoas acumuladas em duas dezenas de saideiras, que, em linguagem de boemia, são essas cervejas que se destinam a encerrar uma bebedeira sem jamais concluí-la de fato, adiando o desfecho e também a dolorosa volta para casa.

Ora, ao homem era o dado o privilégio do excesso, da ruptura de normas de conduta em situações excepcionais. Confrontada com a desilusão amorosa, à mulher cumpria o rito sóbrio de uma agonia silenciosa, sublimada na lida doméstica ou na árida confecção de uma lista de compras no supermercado. Bom, esse tempo definitivamente está morto e sepultado - ou afogado na bebida, como canta a dupla de 29 anos.

Maiara e Maraísa quebraram o monopólio da sofrência. Antes restrito ou mais comumente associado aos machos, cujas dores ganhavam relevo em letras igualmente destituídas de poeticidade e cheias desse romantismo glicosado que nunca sai de moda (alguém se lembra do Pablo?), agora chegou a vez de as mulheres cantarem suas aflições passionais num estilo desbragado, quase gongórico.

Daí o estouro de "10%", música-chiclete que pode ser ouvida de norte a sul do país e na qual o eu lírico feminino arroga-se o direito de chorar as pitangas como quiser, sem precisar prestar contas de sua fossa.

Mas não apenas. Esse novo cancioneiro é, sobretudo, revanchista, mas de uma forma irônica. Vinga-se, mas sem a amargura da mulher traída. Chora, mas também espicaça o coração do homem-vilão, tal como visto na onipresente "50 reais", de Naiara Azevedo.

Na música, depois de flagrar o marido/namorado num motel com outra, a personagem repisa brevemente o rosário de sofrimentos pelo qual já passou. E, apesar do choque inicial que a cena lhe causa, oferece-se para ajudar a pagar a "dama". Como uma gorjeta, deixa uma nota de R$ 50 antes de ir embora.

O mesmo tipo de desprendimento é a marca do sucesso “Infiel”, de Marília Mendonça, outro hit ambientado em motel cujo desfecho aponta para o desmascaramento de uma farsa amorosa, com toda a dramaticidade de novela mexicana que isso envolve.

A mulher nessas músicas descobriu que pode sofrer como qualquer homem e decidiu encarar essa frustração recorrendo aos mesmos expedientes (bebida, música, sexo etc.).

Publicado em 4 de janeiro de 2017 no jornal O POVO

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