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A selva

 

Eu procurava o tio mesmo quando não o procurava, quando ainda não sabia que poderia encontrá-lo, quando pensava que tinha morrido ou se extraviado. O tio perdido na selva, o tio casado com uma boliviana, o tio pai de uma criança, o tio retornado ao Brasil.

O tio era figura sobre quem não se falava, de quem não havia carta, tampouco registro fotográfico. Uma imagem do tio alegre ou carrancudo, uma frase sequer, um bilhete do tio deixado sobre o tampo da mesa ou no fogão da cozinha endereçado à avó.

Nada o tio deixou, foi embora assim, como quem se despede brevemente, mas depois muda de ideia e no caminho resolve que pode ir a qualquer lugar que lhe dê vontade. Foi assim o tio, colapsou, o fio cortado da arraia que voa. O tio era uma visagem, diziam, acreditava em fantasma, de repente calava-se e conversava sozinho.

Mas digo que é mentira, inventam coisas porque ao tio faltam elementos, ninguém sabe ao certo como era, por isso têm precisão de lhe forrar com essas baboseiras e coisas de crente.

O tio era vazio mesmo, não tinha nada de fora do normal.

Viveu na Amazônia, trabalhou como seringueiro, fez tudo. Acho que morreu, disse a mãe, mas não é como se tivesse morrido. É como se vivesse solto na floresta, onde morou com a esposa e o filho da esposa por tanto tempo que se tornou mais gente de fora do que de cá, meio boliviano, meio amazonense, meio índio. Nunca mais o mesmo.

O tio se estranhou, atravessou o rio, fundou uma comunidade, declarou-se rei ou sacerdote, o credo fundado no silêncio. Pisou em falso e caiu.

Eu o imagino parecido com a mãe, logo comigo, então daí a um duplo é um pulo, uma ideia que me apavora porque não quero ser visto como o tio, embora o tio seja eu, mas perdido na mata, sem desejo ou projeto de futuro.

O tio foi mais longe. Talvez tenha pensado em voltar? Talvez. Será que foi mordido por cobra ou morto por onça na mata?

O tio voltou um tempo, disse minha avó antes de morrer. Era um dia assim de fevereiro, chovia, o barulho no beco da casa, infiltração na parede, o colchão gelado da cama. Mas avó gostava era de rede.

Ele veio e voltou, era diferente, tinha mudado, contou.

Veio com esposa, aqui arranjou-se com outra mulher e depois foi embora de novo. A boliviana ficou. O tio não prestava, falou a mãe, o tio voltou sozinho e foi pela segunda vez sem deixar rastro.

Por que veio?, eu perguntei. A mãe não sabia, apenas que o tio não tinha roupa nem dinheiro, pediu algum ao irmão que era policial e outro ao irmão que era professor e mais um ao irmão que era jogador de baralho e apanhou o ônibus de volta semanas depois.

Não sei se fugiu na madrugada, se avisou, se houve um trato, se abandonou a mulher como quem larga um traste pra trás, ela e o filho, se tiveram uma última conversa na qual o tio talvez tenha lhe falado que a amava e que voltaria à procura de trabalho. Porque o tio nunca estava parado, isso minha mãe dizia.

Ela voltou em seguida, foi com o menino pra Bolívia, parece que depois se reencontraram e viveram na mata, mas a memória da mãe é tão resvaladiça, que desconfio de confiar, quero crer nesse vaivém, a vida é assim mesmo, quero crer porque tenho 40 e sei que procede.

Agora quero recuperar o tio, não sei por onde começar, quem o sabe o Valmir tenha guardado uma foto, ele guarda tudo numa caixa.

Ligo pra ele. Tem alguma foto do tio? Não tenho. Carta, canhoto de passagem, um endereço no verso de papel de cigarro, o que seja. Nada.

Me irrito com a família, só tenho buracos na história.

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