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Visagem

  A visão da avó saindo da igreja em passos lentos, o vestido azul de que gostava, o impróprio do horário, às cinco da tarde, o pipoqueiro ao lado que não atinava para nada, tudo isso me fez desejar que a imagem fosse tão somente o que era: a projeção do corpo que não existia, o vestígio da existência, a poeira. A avó tinha morrido, eu sabia, todos sabiam, e aquela era a sua missa de corpo presente, a cerimônia da qual eu tinha saído porque não aguentava o cheiro de velas e os quadros da via-crúcis na parede, tampouco o perfume forte da tia Ofélia, que se aprontava mesmo para ir à esquina porque o amor podia bater à porta a qualquer instante, mesmo numa igreja de um bairro na periferia numa quinta-feira de janeiro de um ano qualquer. A avó não acenava, não olhava para nada fixamente, era mais como se estivesse esperando ou tentasse se fixar num ponto muito além do seu horizonte. Ela não me via, embora lançasse olhares em minha direção, eu não a via, ainda que eu estivesse lá e não ...

Memória

  Tenho medo de estar perdendo memória, não fatos ou coisas importantes, mas miudezas, o banal: um nome, uma historinha boba, uma trivialidade que antes vinha fácil e agora se esconde em algum lugar da cabeça. Essa é a impressão que tenho, a de que brinco de pega-pega com palavras ou tempos, tento encontrá-los, ora consigo, ora não, e quando ocorre de sair à procura e voltar de mãos vazias, fico preocupado. Mas uma preocupação leve, que encaro como uma quase travessura, como se um diabrete qualquer estivesse pregando peças enquanto eu me permito enganar. Outro dia, a caminho da aula de natação, esbarrei com um amigo da faculdade, a quem não via havia uns dez anos e chamei estupidamente de “amigo”, como quem cumprimenta um estranho numa parada de ônibus. Enquanto conversávamos, uma parte do meu cérebro promovia uma varredura nas memórias recentes enquanto outra parte se concentrava na conversa em si, respondendo o mais lentamente possível, de maneira a ganhar tempo, sem, contudo,...

Na academia

  Estar numa academia depois de tanto tempo é um choque que eu tento disfarçar simulando naturalidade com equipamentos diante dos quais eu paro e franzo o cenho, braços e pernas metálicos cujo funcionamento eu intuo, mas quase sempre erro. Porque ou a altura está desregulada, ou a quantidade de peso, ou o desenho do movimento que devo fazer, então de vez em quando tenho de checar novamente o número do exercício e assistir ao vídeo com um cara musculoso ensinando tudo como se fosse fácil. Ou chamar o instrutor e perguntar de novo como se faz aquilo. Isso apenas nos primeiros dois dias, claro, depois segue-se imediatamente esse período de euforia que a gente conhece bem. A gente: pessoas que começam a fazer academia depois de um período relativo de décadas de sedentarismo. Nele o novato (eu) se sente irracional e subitamente mais confiante, de modo que passa a não somente fazer mais séries, incrementando as aulas do dia, como também a acrescentar mais peso nos movimentos mais exigent...

Notas sobre o abismo

  Pouco mais de dez dias de férias. Distante das redes, sem contato com o noticiário, escuto sons de panela no prédio ao lado. Pauso a série, salto do colchão estirado na sala e corro à varanda. Não preciso estar a par do que acontece para saber que se trata de um protesto contra o presidente, aquele cujo nome já escrevi inúmeras vezes em páginas de jornal e nas redes sociais, um nome que me cansa, exaure. Uma família ocupa a varanda. De longe, adivinho o cômodo sob a luz amarela, duas crianças e dois adultos, o fim da noite. São como uma banda desafinada que ensaia para uma apresentação na gincana da escola. No dia anterior, havia visto rapidamente algo na TV sobre Manaus. Uma tragédia da qual eu passara ao largo até então. A culpa logo vem: enquanto gente morre naquele estado onde um dia um ramo extraviado da família da minha mãe escolheu como lugar para viver, eu deliberadamente tento me desligar do fato de que afundamos cada dia um pouco mais. Tenho me esquivado de tudo desde...

Um ponto

  Convém esboçar uma ideia de futuro, mas estou farto de tudo que não seja o hoje e o amanhã, no máximo o depois do amanhã, que já considero um estirão muito além do alcance dos dedos e da boca, com os quais vamos buscando sempre o de que mais precisamos. O ano passou-se como de costume. Sem queima, a contagem da TV demarcando a virada, na sacada de um apartamento alguém soprava um instrumento melodioso e nele esse tipo de música cuja maior serventia é inspirar um estado falsamente reflexivo no qual nos pomos diante do que não sabemos. Uma reza em tudo muito apoucada para o menor desafio. Depois fomos à rua, andamos à toa, e em tudo na cidade o tempo não se refletia. Era rito sem rito, fogos pipocando de quando em quando, mas, fora isso, nada. Sorrio para essa falta, tenho com ela uma ligação qualquer. No dia seguinte acordei perto do meio-dia, desorientado e sem muita cabeça para as pilhas de livros na mesa, os lápis, os blocos, os tantos projetos, os compromissos que fui rabisc...

Crônica só pra você

 Amanhã o ano se encerra, então esta é uma crônica destinada a você, que se sente um abestado porque não vai a uma festa. Porque passará a virada do ano em casa sozinho ou acompanhado de poucas pessoas, e não na praia ou num cercadinho VIP no qual o coronavírus se sente intimidado e socialmente excluído.  Afinal, não temos vacina, mas temos pulseirinha fosforescente, que é um acessório muito eficiente para manter distantes os indesejados e aqueles em desacordo com certos padrões de beleza e de dinheiro, embora tenha minhas dúvidas se isso funcionaria com um microrganismo que se transmite pelo ar e obstrui a respiração, levando à morte. Por isso eu gostaria de lhe dedicar umas poucas palavras de conforto. Por esse gesto sacrificial, de entrega e também de autopreservação. Gostaria de lhe dar um abraço e dizer que tudo isso há de ser recompensado em algum momento. Que o papel de trouxa que você se sente desempenhando agora terá uma alteração intempestiva antes do final dessa his...

É massa, mas é paia

O cearense é um bicho massa e paia ao mesmo tempo. Vaia o sol num dia de chuva. É massa. Ri de tudo e na hora errada. É paia. Faz da gambiarra um passaporte para a felicidade. É massa. Prefere o remendo à solução. É paia. Adora história de menino pobre que passou no vestibular mais difícil da cidade. É massa. Gosta de se ufanar dos gênios que produz em escala industrial nos colégios particulares. É paia. Divide a sombra do poste com outra pessoa. É massa. Corta as árvores. É paia. Segura a porta do elevador pra quem está chegando. É massa. Estaciona na vaga do idoso. Paia. É banhado (a) e cheiroso (a). Massa. Joga lixo pelo vidro do carro. Paia. Faz chuva de gliter no Carnaval. Massa. Atira um punhado de maisena no olho. Paia. O cearense vive orbitando nesse universo binário do massa/paia. A gente é massa porque é vocacionado à galhofa. Mas é paia porque odeia quando tem de segurar o riso, que, entre nós, é uma espécie de frieira atávica passada de geração para geração e perpetuada nos...