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O Batman

Faz tempo, fui ao cinema pela primeira vez. Era 1989, tinha portanto nove anos. Estava acompanhado ao pai, que me levava pelo braço, se me lembro, enquanto caminhávamos por uma rua sem asfalto. Eu vestindo a camisa do Batman e à espera da estreia do filme do Batman, o meu primeiro filme no cinema, talvez o segundo. Confirmo agora; o segundo, o primeiro mesmo havia sido “Mestres do Universo”, nome do filme do He-Man. O terceiro foi “Lua de Cristal”, com a Xuxa.  Mas quero me concentrar no Batman. Não propriamente no filme, de que me recordo quase tudo, o espanto em ver pela primeira o batsinal iluminando uma sala escura, mas na expectativa para o filme, os passos que dei antes de chegar lá. A rua, a caminhada, o modo como acompanhava sem reclamar ao pai e ele a mim, cada qual desempenhando muito bem seu papel. Uma espera interminável, aquela. A mão suada grudada à dele, o conforto, porém, de saber-me a caminho do cinema, onde iria assistir ao Batman, que não era meu herói predileto ...

A redenção de agosto

  Devoto do desgosto, como lhe pespegam as más línguas, agosto redimiu-se em 2020. Porque todo o ano é uma enfiada de desgraças do início até agora, sem tempo para respiro, quase não se notou que esse mês tradicionalmente desafortunado e infeliz passou sem tanto estardalhaço, numa temporada de quase amenidades. De sua já conhecida nebulosa de más notícias e chorume a escorrer pelas calçadas país afora, soube-se tão somente do habitual: queimadas, vômitos presidenciais, peripécias do “Anjo”, escaramuças filiais e o que de mais sortido se produz neste governo, como as mortes em cascata e as reiteradas demonstrações de incivilidade e burrice, marcas em alto relevo como as que se imprimem na pelagem do gado para distingui-lo em meio à boiada. Feito isso, porém, agosto dirigiu-se à porta de saída, atravessou o Rubicão e cá está a despedir-se, muito distante da fama que o consagrou como quadra cuja especialidade era o infortúnio. Deixa o tablado a bem dizer envergonhado. Como o atleta de...

Uma nova pandemia

  Não tão grave quanto a pandemia de Covid mas igualmente contagiosa, alastra-se a peste dos relatos epidêmicos sobre a doença; fartas descrições do nada, perorações sobre a cadeira, deambulações sobre a posição do guarda-roupa, enfim, uma maçaroca de impressões ora líricas ora secas, mas sempre tendendo ao pessoal, que têm em comum o fastio, já que é seguramente além das capacidades humanas a esta altura dos acontecimentos oferecer qualquer coisa de nova em meio a tantas vozes assemelhadas, limitações de que este cronista é prova contundente, visto que tentou ele mesmo fazer-se audível passando em revista as veleidades que lhe ocorressem durante esses meses de reclusão durante os quais alimentou-se de leite de soja, pequenas porções de cuscuz com manteiga e jogos de videogame, tudo intercalado por leituras saltadas de trechos de romances, velhos e novos, de modo que jamais se detinha, demonstrando mais uma vez que a fartura de tempo livre, como costumava imaginar, não produz neces...

Levadas pelo vento

Não sei se vocês sabem, mas o número de pessoas arrastadas pelo vento no último mês mais que dobrou em relação ao mesmo período do ano passado, indo de X para 2,3.X. O valor, bom que se diga, representa um aumento expressivo mesmo considerando-se o ano de 1994, quando as rajadas abduziram ao menos três pessoas a cada dois dias entre agosto e outubro, totalizando não lembro quantas, mas muita gente. Uma gente, acrescento, cujo paradeiro em parte foi descoberto dali a semanas, em parte permanece até hoje incógnito, o que sugere que ou esses “levados pelo vento” ainda agora se mantêm em suspenso, planando como folhas secas que jamais encontram pouso ou sacos plásticos largados do 18º andar, ou aterrissaram noutro lugar, noutra terra, noutro tempo, aos quais, suponho, preferiram aos que experimentavam antes de se converterem em pipas humanas. Há pelo menos dois casos no Ceará. Em Itarema, uma moça de não mais que 30 anos foi abraçada por uma língua insidiosa de vento ao estender no varal u...

Desconfinados

  Passados seis meses de confinamento autoimposto e apenas quebrado ocasionalmente, como quando faltava goma de tapioca ou areia para as necessidades do gato, entendi que era hora de sair e gozar novamente do espaço púbico. Quem sabe ir até a praia e caminhar pela calçada, recebendo no rosto aquele ar salgado de fim de tarde temperado pelo cheiro de milho cozido e urina. Mas qual o quê. A praia já estava repleta, as barracas apinhadas de pessoas às voltas com mancheias de batata frita e cascos de cerveja, numa celebração que supus como o rompimento de um dique de barragem após anos de contenção. Mas qual o quê, me surpreendi novamente quando o garçom, instado a explicar se aquele fenômeno se repetira nos finais de semana anteriores ou se registrava somente naquele em que eu havia escolhido deixar o recolhimento e aceitar o risco de estar lá fora, disse que esse estado de coisas era o mesmo havia pelo menos um mês. Por aqui a pandemia é uma guerra perdida, arriscou, num falso abatim...

Um exercício

  Comecei a ler sobre Óbidos e terminei em algum ponto entre dois autores de que gosto, um artigo em inglês sobre Munch e outro cujo tema agora não vem ao caso. É noite de agosto de um ano interrompido, uma noite de ventos fortes como há muito não via, um assobio persistente atravessando as janelas por suas frestas enquanto o gato se encolhe no meio da sala, os pelos movendo-se como um campo de trigo varrido pela brisa. Rapidamente, cada página levou a outra e a mais outra, criando conexões que ora não existiam, ora estavam ali, subliminares, como os vínculos que estabelecemos entre coisas díspares. Nesse intervalo, anotei dois bons nomes para algo que não sei o que é mas que talvez venham a se tornar outra coisa igualmente desconhecida. De modo que proceder assim, aos saltos, me ajuda quando preciso baixar a guarda depois de passar a semana esgrimindo palavras de uso gasto para descrever cenas e motivações de pessoas de quem sei apenas nome e sobrenome, mas com quem converso mais ...

Uma imagem

  Às vezes é apenas uma imagem, noutras uma sucessão de quadros. O cômodo desarrumado, a mulher apenas de sutiã com o rosto contorcido, o homem sobre o seu corpo miúdo, a cama desfeita, os gritos. O que fazia ali? Eu não lembro. Tinha cinco anos, talvez seis. Passara a tarde na casa da vizinha quando o marido chegara e a vira comigo. Encheu-se de fúria, bateu na mulher, ou julgo ter batido, não posso ter certeza. Não porque eu estivesse lá, por outro motivo – qual? Fiquei encolhido no canto à espera do desfecho, mas posso também ter saído antes, enquanto discutiam e a mulher lhe atirava objetos ao alcance da mão. Cigarro, sapato, um vidro de perfume que se espatifou contra a parede e deixou a casa com esse cheiro por muito tempo e que agora subitamente recordo, sem entender por quê.