Pular para o conteúdo principal

Postagens

Os olhos

Eu tinha a pretensão de escrever sobre o papel dos olhos no meio dessa pandemia, mas isso foi antes de descobrir que o Verissimo já havia feito isso, e feito ao modo do Verissimo, o que significa dizer que eu posso até tentar, desde que esteja certo de que fracassarei. É esse fracasso antecipado que me conforta e dá segurança para continuar. Mas, agora que comecei, vejo que não foi uma boa ideia. Porque, uma vez que a palavra instaura a imagem, e o texto do Verissimo faz isso, é impossível dissociá-la dessa ideia de que pertence a alguém. É como querer se livrar de um cheiro marcante. Simplesmente não dá. Com essa história dos olhos é a mesma coisa. Um dia, estava no supermercado parado. Olhava a caixa, que me olhava de volta. Ambos esperávamos por algo que não sabíamos o que era. Nesse ponto eu me afastei e levantei a máscara, pronunciando rapidamente as palavras, quase como um delinquente que anuncia um assalto: como eu posso ajudar? Ela aguardava que eu dissesse apenas se era débito...

Mulher aos pedaços

Não sei se por obra da quarentena ou da proximidade da virada de página de um calendário pessoal, estive à toa nas últimas horas, comovido com a história da “Mulher rendeira”. Aos pedaços, encontrada no lixo em vias de se transformar em entulho para reciclagem. A cabeça entre as pernas longas, tudo sem dar com nada, os membros desconexos atravessados depois de terem sido arrancados a golpes de martelo por operários de construção que cumpriam ordens do banco. Erro de projeto, disseram. Mas ninguém o corrigiu a tempo, de modo que a mulher possuía destino final: o aterro. Tinha com a rendeira uma relação que é talvez a de muitos cearenses: a de passar e olhar, habituado que estava em vê-la sempre vergada sobre o rolo de bilro, o cabelo preso em coque e no rosto essa expressão severa de quem se acha interrompida nos afazeres por uma criança que reina pela casa. Não a achava simpática, mas gostava que estivesse ali. Era assim que a via, quase como uma tia, que é aparentada dessa rendeira po...

Apagar mensagens

Apagar mensagens é uma tarefa para a qual não estou preparado, sobretudo mensagens antigas, de 2009 ou 2011, textos recebidos e enviados quando o mundo era outro e os remetentes, gente cujo paradeiro eu desconheço. Por onde andará o Luciano? E o Valdeci? E a Bárbara? Mas a falta de espaço impõe esse exercício, e então tenho de encarnar Marie Kondo, colocando as coisas no lugar e separando peças pela importância que têm. Incapaz, resolvo tudo excluindo em lotes. Um bloco inteiro de mensagens de novembro de 2010, mais um entre 25 e 28 de junho de 2007, um terceiro sem olhar a que mês se referia – vejo apenas o ano. Aquele é de 2013. Ocorre que nunca é suficiente, e preciso voltar sempre ao ponto de onde havia partido, acionando os botões e selecionando em conjunto ou grupos genéricos as mensagens candidatas ao esquecimento total. E aí, nesse instante, vem essa fisgada, essa pergunta que belisca o juízo: isso me fará falta? E se eu quiser lê-la algum dia, quem sabe? Na dúvida, apago. Proc...

Ritual

Era 29 de dezembro de 2018 quando escreveu: “No mar há um instante em que nenhum vento sopra, nenhuma onda quebra, nenhum mergulho se ouve. É essa a paisagem que vejo daqui”. Daqui era o lugar de então, um espaço movediço do qual falava naquele finalzinho de ano em que me recusei a fazer essa custosa operação de olhar em torno e tentar apreender num só movimento o derredor. Foi quando essa imagem se impôs, a do corpo flutuante, suspenso como se sem peso, parado em meio ao cenário de esgotamento numa travessia temporal, a passagem ritualística do calendário se desfolhando na última volta do ponteiro. Atravessei o ano, cruzei-o inteiro e cheguei à outra margem, de onde segui andando até agora, um lugar cheio de falhas e acidentes, mas ainda um lugar. As paredes frias da noite ou o chão amadeirado onde tento adivinhar sinais aleatórios, num esoterismo doméstico. O mar agora é outro, as toneladas de areia e sedimentos jogadas mecanicamente por braços de tratores às vésperas da fes...

O novo anormal

Novidade da paisagem pandêmica, as transmissões ao vivo inauguraram uma nova maneira de se estar nu sem estar. Diluem fronteiras entre privado e público, instaurando essa zona cinzenta pela qual transitamos sem saber ao certo se vamos à paisana ou em modos de trabalho, se nos vestimos bem apenas da cintura para cima ou se nos metemos inteiramente em trajes de passeio, ainda que reconheçamos que os pés não hão de cruzar a soleira da porta. Essa confusão de registros tem criado embaraços de toda sorte. Disso resulta uma comunicação híbrida, sob chave doméstica e mais intimista? Cedo para dizer. Conversando com uma amiga jornalista habituada ao rádio, eis que me confidenciou que a audiência gosta de vê-la trabalhando, e não somente ouvi-la, e até vibra quando leva uma xícara de café à boca. Então é isso: como estamos afastados uns dos outros e qualquer contato físico é, desde agora, uma infração legal passível de detenção e um ato de desafio às autoridades sanitárias, o banal no...

Diário da quarentena (parte 5)

Em que momento a gente se acostumou com as sirenes? Não lembro agora, mas acho que, no final de abril, enquanto a paisagem sonora era atravessada por essa estridência, entendi que a audição havia normalizado o sinal de alerta. Não era mais como um grito desesperado proferido por uma agonia secreta da qual eu sabia pouco. Era como o esguicho de um corpo na rua cuja morte talvez fosse comunicada dali a horas, em escalada no jornal, somando-se aos demais números que são atualizados todos os dias, nessa contabilidade mórbida e banal ao mesmo tempo. Essa é uma das marcas da peste: a intangibilidade. Tudo é longe e perto. O amigo de um amigo, a avó de um colega de trabalho, o pai de uma pessoa a quem cumprimentei dois meses atrás. As distâncias se encurtam. Nenhum fosso é tão fundo que não possa ser transposto. Ando até a janela, me escoro com os cotovelos fincados no parapeito. Choveu pouco, o asfalto molhado. A rua vazia. Cheiro de planta. Ainda não é meia-noite. Foi a quinta ...

Sonhos de quarentena

Não tem sido fácil sonhar. Digo, sonhar com coisas que não pareçam angustiantes. Há dias tenho o mesmo sonho, um gato me ataca enquanto tento alimentá-lo. Acordo sobressaltado. Quando volto a dormir, sonho com uma tia já morta e um tio eletricista dançando lambada na sala ao som de Beto Barbosa. Não faz sentido, eu sei. No fundo, queria mesmo era sonhar jogando baralho com a vó enquanto a gente come cuscuz na mesa da cozinha, mas os sonhos têm essa parte chata: são ingovernáveis. Assumem um ritmo e conteúdo próprios, aleatórios, aparentemente desconectados das horas cotidianas. Desde o início da quarentena, os meus sonhos pioraram. Não sei se posso usar essa palavra para me referir a meus próprios sonhos: piorar, como se houvesse bons sonhos e maus sonhos, e estes fossem de inteira responsabilidade de quem os tem. Quando entro naquele estágio profundo do sono, não sou mais eu. E ainda sou. Por isso acordo de ressaca, cheio dessa matéria estranha que gruda no corpo. Volt...