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Recado na porta

Tinha poucos minutos, não mais que dez. Usou de dois a três para fumar enquanto pensava numa ideia boa o bastante para estar no papel, depois sentou na cadeira e começou a dizer o que diria se dissesse algo, o que também não era lá tão novo assim. Pensou nos últimos acontecimentos: tinha parado de fumar, mas voltara. Tinha voltado a beber, mas parara. Tinha interrompido as idas ao cinema e as voltas de bicicleta e tudo que costumava fazer antes e também depois. Em suspenso mesmo os mergulhos no mar, as horas na areia da praia olhando os outros entrarem aos pares, mãos dadas. Um cachorro que passa etc.   Agora sofria no quarto, era dezembro e o calor matava. Olha o próprio corpo, em seguida passa a vista na lombada de um livro em cuja capa há pernas e braços entrelaçados contra um fundo branco no qual não se lê o nome do autor. Erotismo. Sente vontade de descrever tudo entre a porta de casa e a faixa de mar, tudo que encontrar no caminho, cada pequena lembrança...

Cinco coisas sobre as quais é difícil escrever

1. A sensação de estupidez quando sem querer esbarramos numa xícara de café sobre a mesa mesmo quando antecipamos esse gesto em alguns bons segundos. O que nos leva a pensar que, a despeito de estarmos cientes dos riscos de virar uma xícara sobre livros e computador, coisa que acaba de acontecer comigo, acabamos por fazer exatamente isso, seja porque não acreditamos em intuição, seja porque não estamos muito preocupados com o que quer que seja quando o único desejo é fazer o que queremos fazer. Seja porque o destino existe. 2. Calor. Falar sobre calor, como de resto sobre qualquer outra coisa, não apenas acentua a impressão de que estamos com calor, como também é um gasto de energia extra que, diga o que dissermos, jamais resultará na redução ou mesmo na supressão do calor propriamente dito. Sequer metaforicamente funciona. Das atividades humanas, é talvez a mais gratuita.   3. Amor. Coisa fugidia, esse sentimento nunca é o que é, e, quando finalmente parece ser o qu...

Monstro

Monstro olhou-se no espelho, a barba maior do que de costume. Aparou com tesoura, errou novamente e fez um buraco onde deveria haver uma curva suave. Monstro contrariou-se, mas, como ainda eram nove horas da manhã, deixou pra lá. Era cedo para pequenas chateações, sobretudo uma que não teria importância ao longo do dia, salvo se se considerasse que o aborrecimento causado por uma incisão desastrada nos pelos do rosto provocaria uma cadeia de reações infinitesimais que, ao final do dia, redundariam numa tsunami de mau humor, o que certamente influiria no modo como Monstro acabaria revisitando os últimos acontecimentos.   Era bem possível, Monstro sabia, todos a sua volta sabiam. Os meses tinham sido exatamente assim, difíceis de entender.   Naquele dia, Monstro havia se demorado na cama, não queria levantar. Reconstituíra os eventos do dia anterior, uma sucessão de pequenos acidentes cujo sentido geral não compreendia. Apelara a fios soltos, costurara umas pontas ...

Dark (parte 3)

E aqui finalmente chegamos a Noah, a grafia hebraica para Noé, outra personagem com referências bíblicas no universo da série Dark , nova aposta da Netflix. Não sabemos muito sobre Noah, apenas que se veste de padre, mas estranhamente não carrega uma bíblia, tampouco usa um crucifixo ou qualquer outro artefato da liturgia católica. Noah exerce um poder sobrenatural sobre outras pessoas. Ele está por trás, por exemplo, do quarto com uma cadeira e beliche por onde passam os garotos que depois serão mortos e descartados, ao que tudo indica não apenas em 1986, mas também em 1953, como os meninos encontrados no terreno ao lado da usina, à época ainda em obras. A pergunta é: quanto de Noé há em Noah? Na bíblia, Noé constrói uma arca para salvar espécies animais e repovoar a Terra após o dilúvio que dura 40 dias e 40 noites, resultado da insatisfação divina com sua própria criação. A rigor, Deus mata todos os seus filhos porque acha que eles não estão se saindo muito bem. Escapa...

Dark (parte 2)

Dark passa-se numa pequena cidade alemã cujos pontos referenciais são uma floresta e uma usina nuclear, que se conectam de modo decisivo ao longo de dez episódios de cerca de 50 minutos. Seus habitantes estão às voltas com o desaparecimento de duas crianças, o que acaba levando a um clima de desconfiança e, por sua vez, ao rompimento de elos estabelecidos muitos anos atrás. O sumiço dos meninos também dá início a uma montagem de quebra-cabeças no qual cada peça não refaz a figura original, mas leva a nova peça, talvez perdida no tempo. É preciso encontrá-la noutro lugar, que não é um aqui , mas um quando . É essa procura, detetivesca mas também filosófica, que o espectador acompanha. Cito um único personagem, Jonas, por entender que se trata de fato do mais importante, embora a série, do início ao fim, faça desfilar mais de uma dezena de rostos, todos com papéis cruciais na cadeia de eventos narrados. Um parêntese: em Dark , é fácil perder o fio da meada. Não se sinta bur...

Dark (parte 1)

Por onde começar? Dark é dual desde o princípio, a gente sabe. Os diretores sabem, os atores e a Netflix também. De modo pouco sutil, a abertura produz essa leitura, com paisagens e personagens dividindo-se e espelhando-se, num efeito de fractal. Tudo se bifurca, e cada divisão conduz a uma narrativa diferente.  Em algum momento, esses caminhos se cruzam, como nas melhores histórias de Italo Calvino. O tempo é um castelo com múltiplos corredores.  Na literatura e no cinema, esse é um tema explorado exaustivamente: o da multiplicidade de veredas. Culpas, passado, tudo esconde uma porta que leva a outro universo, num efeito de mergulho em abismo. Os caminhos percorridos, entretanto, nem sempre são os melhores e mais seguros. A tentação de consertar tudo e colocar as coisas de volta no lugar pode ser nada menos que desastrosa. Uma parte considerável da nossa vida simplesmente resiste a ocupar o seu devido lugar, ora porque não sabemos que lugar é esse, ora porque os...

Variações sobre o mesmo tema

Fico com isso na cabeça de ir me servindo do próprio corpo, de ir afundando as unhas na carne e retirando camadas como se cortasse cebola, de ir mesmo até o sumo e lá deparar com nada, de voltar de mãos abanando porque sempre estive procurando, de estar como o menino a quem a mãe pedia que fosse até a mercearia e trouxesse isso e aquilo e de lá voltava só com a metade dos itens porque a outra metade tinha esquecido no caminho. Por trás disso está toda uma ideia enganosa de essência. Que levamos algo a algum lugar, que passeamos um punhado de noções muito charmosas e decentes a respeito da existência e do amor e de como as coisas se dão nesse intervalo entre vida e morte. Que temos  muita coisa própria, que cada parte de nós fala uma verdade pessoal que expressa exatamente quem somos.  Verdade: não temos nada. Não somos nada. Não testemunhamos nadica de nada, exceto o passar dos dias e a progressiva falência de tudo. Há quem veja nisso certo pessimismo, um gosto e...