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Desejo iii

Desejo o cigarro que não fumo há dois dias, a corrida que não fiz, o banho que não tomei, os livros que não li, os filmes que interrompi e as séries que larguei pausadas entre o grito e o crime. Desejo o tempo que levei atravessando o hall do condomínio, todos os segundos digitando nos botões na máquina de lavar, as horas perdidas entre abrir e fechar a geladeira. Desejo o perfume que sobe do apartamento de baixo, a luz de uma hora intervalar, o jeito de atravessar a rua daquele homem que carrega uma sacola a tiracolo, a fala de um amigo que engole certas letras, os pés flexionados sob as pernas da mulher que pede uma sopa na padaria, a tranquilidade de esperar o caixa emitir a nota. Desejo a coragem de telefonar para a mãe, de perguntar ao pai se está tudo bem, de ir até o cemitério e dizer bom dia ou boa tarde, a depender da hora. Desejo força para abrir a gaveta e arrumar os fios soltos, carregadores de celular, baterias e canetas que fui acumulando durante décadas...

Desejo ii

Digo desejo, e tudo se move num segundo. Afetos parados na porta de repente andam pra lá e pra cá, gostos de saber na boca a distância. Suores acumulados e fluidos contidos, dedos descasados procurando uma casa onde possam revirar baús de carne e pelos quentes que se molham quando tocados. Digo desejo, e nada se move, tudo em redor se paralisa, como se alguém gritasse no meio da rua num sábado à tarde: incêndio, crime, roubo, assalto. Uma onda elétrica de imobilidade. Desejo, e a palavra vai sulcando no ar um caminho que leva a outro desejo, como rotas aéreas, boeings que se encontram e não se batem. Bicos que se chocam. Desejo, e os muros da cidade pintados com a palavra de repente sorriem no anonimato das coisas que acontecem sem ter de acontecer. Desejo, e nenhuma criança para de saltar no pula-pula, soltas de qualquer perspectiva de sofrimento, passado, presente ou futuro. Desejo, e me pergunto finalmente se o vendedor de churrasquinho ainda ama a mulher que o a...

Desejo

Tudo que quer, uma invenção. Filme para dois, um mergulho, pudim de leite às quatro da manhã porque ainda acordado. Tudo que quer, um segredo bem guardado. Coisas de soprar ao ouvido, umas carambolas de cumplicidade. Tudo que quer, uma cidade-estado. Estado de querer, estado de amar, estado de não se importar senão com estar sempre em casa, sempre presente, um estado natural de preguiça. Um estado de beijo amanhecido. Tudo que quer, uma festa que atravesse a rua, o tempo, a casa, a madrugada e chegue ao mais distante de onde está agora. Tudo que quer é que tudo saiba a desejo e algum sossego e talvez a ter a felicidade de encontrar um pouco de amor grudado nos dentes. 

Dissonância

A impressão de que tudo se liga por um fio, de que por pouco não perdemos, que temos de correr e segurar e reter antes que se desfaça, que tudo escorre e escapa, que andamos e os esforços redobrados ainda são insuficientes pra alcançar. Que estamos sempre dois passos atrás, dez casas atrasados, uma nota abaixo ou acima, umas léguas de distância, um mar inteiro de través impedindo a nossa passagem até o outro lado, que jamais chega.   Tudo uma liquidez, tudo fugidio, tudo um lampejo, uma coisa que passa sem rastro, um som emitido ao longe, uma fumaça entrevista na floresta cuja origem procuramos e nunca encontramos. Tudo demandando zelo e energia, tudo tão meticulosamente construído, fortificação à mercê de intempérie tão banal, uma ninharia que não faria tremer um cajueiro-anão.  Mas que, ali, naquele momento, por contingências que não dominamos, sobreleva-se feito tsunami. Um fio que ameaça se romper, mas não se rompe. E nessa ameaça consome. Nesse furor de col...

Férias

A filha dorme no colchão na sala. Sinto que está em paz quando, de repente, vira-se e sorri sem abrir os olhos. Às vezes faz isso quando chego do trabalho tarde da noite e lhe digo baixinho no ouvido: eu te amo. É noite de sexta-feira, quase sábado, as fotos e atualizações dos amigos dão conta de uma vida que acontece fora daqui, fora do mundo, noutro tempo que não este, mesas repletas, comida e bebida. Pela primeira vez não quero nada. Estou plenamente aqui.   Termino uma leitura, pauso antes de começar outra. Penso no dia, um acumulado de horas que resultaram em três ou quatro páginas escritas sobre uma escritora de que gosto muito. Passaria todo o tempo discutindo sua obra, suas personagens, suas criações. Detalhes, pormenores. Mas canso. Repasso em vista os livros sobre a mesa, as rotas, as dores e também as alegrias, mesmo as refeições começo a inspecionar mentalmente. Me esforço para lembrar do almoço de ontem. Então tenho esse ímpeto que nunca tive: anotar cada...

Entre a ruína e a saudade*

O que é uma cidade? É o que vemos? É onde moramos? Eu me faço essas perguntas quase todos os dias, antes ou depois de sair de bicicleta para uma volta rápida. Meu caminho é uma reta com poucas digressões. Pedalo e espero que a inércia cumpra sua parte. Aqui e ali, aperto bruscamente o freio. Quase caio. Um carro parado na faixa. Um ambulante. Um pedestre que atravessa sem olhar para os lados. Entulho. Podas de árvore. Desvios de rota. Extraio uma moral. Mesmo a reta é tortuosa. Penso na ruína da cidade e na cidade-ruína. Lembro das fotos que vi no dia anterior. São imagens de jovens perdidos num passado que era a promessa de outro tempo. Esse tempo chegou. Leio em algum lugar: “A nostalgia é uma utopia às avessas”. Continuo pedalando. Outra série de perguntas vem a cada esquina: do que tenho saudade? De quem? Por quê? Um carro avança sobre a faixa e recua. Cede passagem. Cruzo lentamente, gozando o momento – alguém interrompeu o seu trajeto para que o meu se realizasse. A cidade é u...

Uma ignorância

Então porque considerou que era tudo muito metalinguístico, achou que deveria falar do mercado lá fora, a rua, o leite e a reforma na bodega, que agora tinha prateleiras limpas para as frutas e verduras, não mais o arranjo de arame enferrujado, mas gavetas em madeira escura que pareciam mais higiênicas. Tinha de sair pra procurar um lugar. Levou meia hora assistindo TV, outra para decidir levantar da cama, mais alguns minutos calculando se preparava o café em casa ou comia na padaria. Pequenas decisões que incidem sobre o andamento do dia como gotas de chuva num balde d ’ água. Livros empilhados na mesa, James Wood e Milton Hatoum, os dois que agora precisava ler com urgência, um porque falava tão perto de tudo que queria dizer, a coisa mais próxima da vida, e o outro porque o fazia prender a respiração ao imaginar a criança fora do abraço da mãe. Doía, um relato triste e cheio de força. E logo um pensamento estúpido que se intromete: tinha a impressão de que engordara no...