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Todas as horas do dia

Dificilmente temos planos pra cada dia, a segunda e a terça, a quarta e a quinta. Planejamos o fim: sábado e domingo. E esperamos que os demais dias da semana encontrem sua dinâmica, como se dependessem mais da sorte. Entregamos a quinta ao jogo de azar. As segundas, então, padecem do mal que é o receio de todo começo, de algo que se inicia depois do clímax do fim de semana. Os dias depois do que acabou são sempre muito estéreis, é o que se costuma dizer a propósito desse intervalo de 72 horas que se estende da segunda até a quarta, quando se recobra algum ânimo e a vida parece novamente possível. Na quinta, a felicidade finalmente empina no horizonte. Na sexta somos alegres. No sábado, eufóricos. No domingo lamentamos que tudo tenha sido tão rápido. E assim voltamos a habitar uma circularidade do tempo e dos espaços. Como se marcássemos um assento na roda-gigante e o esperássamos passar sempre. Como se a felicidade dependesse de estarmos naquele lugar, naquele instante.  ...

Experimento sobre ondas

Hoje descobri que ondas passam, às vezes em duplas, quebrando ao mesmo tempo, dificultando o salto. Quando pulamos, outra vem e nos apanha, e por segundos a sensação é de que o chão faltou e temos certeza da morte. A morte é tatear e não encontrar.   Dura pouco tempo, uma fração de segundo. Uma onda que se segue a outra, o corpo suspenso, flutuando, a visão da areia, o sol. E então o susto. Afundamos. O sentido de que uma onda passa não é tão evidente assim. Parece, mas não é. Pra tudo na vida usamos a metáfora desgastada do mar e da onda como algo que vem e vai, num movimento de continuidade. Recorremos a isso pra falar de dificuldades, mas também de oportunidades. Uma grande massa de água salgada diante da qual os problemas se dissovem.  Mas essa noção de que as coisas se repetem é ilusória. Não há repetição, tampouco diluição. Há coisa melhor.  Quando saltamos, esperamos sempre cair no mesmo lugar onde estávamos poucos segundos antes. Mas isso também é ...

A palavra funda

Voltei a escrever numa brochura, caneta e papel. Letra e tempo. Preciso esperar que minha mão alcance o pensamento, que está à frente, penso ligeiro e me demoro a dar comigo mesmo. Quando nos encontramos, estamos em ritmos diferentes, modos diferentes de sentir o sentido. É aí quando paro e penso no tempo de que precisamos para que algo aconteça. A escrita se efetive. O traço se firme na mão e a mão guie com segurança, e não aos atropelos. Mas agora tudo vai em compasso, espero, a mão espera. Vamos andando ora acelerado, ora mais lentamente, como numa dança, uma coreografia. É um exercício de respiração pela palavra. Escrevo e leio e escrevo. Deixo pra trás, levo adiante. Tinha perdido esse costume, como se diz. Era apenas digitação, a mão desacostumada a batucar as palavras sozinha, a mão direita sobrecarregada. Dividia tudo entre duas mãos que escrevem, todos os dedos empenhados na tarefa difícil de dizer. E dizer tem sido cada vez mais custoso, cada vez mais necess...

Sobre Dante

Ontem finalmente descemos ao purgatório, Dante ainda maravilhado, Virgílio menos falante, as almas de sempre empenhadas em diálogos que se referem ao mundo dos vivos, mil e uma ninharias familiares, questiúnculas de uma Itália dividida em caquinhos de aristocracias em ruína, aleivosias, pequenas epifanias. E eu achando que Dante descia até o mundo fundo para encontrar a si mesmo. Eu crendo que a viagem de Dante seria como a do Coronel Kurtz, que entra no mais longe da "selva selvagem", para usar uma expressão dantesca que considero linda, ou uma espécie de caça à baleia branca promovida por um Capitão Ahab.  Noutras palavras: um empreendimento essencialmente humano porque não leva à redenção. E não esse vaivém por lagos ou montes ou outras partes de uma geografia falsamente sinuosa para chegar até o cume de qualquer lugar e lá encontrar Beatriz emanando beatífica toda a sua bondade e fé. Atravessar o inferno para encontrar a fé.   Nunca imaginei que almas al...

Agora

Descubro que a palavra que me deu era outra. Não uma vaga, não qualquer uma, mas agora. Disse “agora”, tratou de explicar enfatizando sempre o caráter de urgência, pondo mais acento numa sílaba e arregalando os olhos. É agora. Agora entendia, falou como se dissesse: cuide disto, cuide deste tempo, pense neste momento.  Perdi tantas coisas na vida, falou, a voz de repente mais baixa, mas sem perder serenidade. Perdemos todos, repeti. Era um cortejo de derrotas, perdas, poucas conquistas, mas havia sempre esse agora. Esteja preocupado, não tenso, mas de olho neste instante que passa. O agora que escapulia. Tinha dificuldade de pensar no momento, de plantar sementes e esperar que brotassem de imediato. Ou talvez o agora fosse o contrário de plantar, apenas semear sem a necessidade da espera, só atirar às lavouras e depois ir sem olhar pra trás. Quem sabe não fosse como andar de bicicleta numa ladeira, a facilidade de mover-se adiante, o impulso de cortar o excesso de rea...

Comer é uma oração*

Comida é ritual, tanto no preparo quanto na alimentação em si, passando por modos de servir e estar à mesa, sozinho ou acompanhado, homem ou mulher. Experimentem, olhem pros lados discretamente. Imaginem um casal à espera, se se sentam um de frente pro outro ou lado a lado. Se conversam ou cada um batuca na tela de celular, se comem alegremente ou se são personagens de um desses quadros de Edward Hopper no qual o humano é irrevogavelmente sozinho. Comer  é o contrário de solidão, sobretudo no Brasil, especialmente se falamos de um  comer  familiar, de mesa grande e farta, típico do nordeste de tradição senhorial, quando evocamos o gesto doméstico da mãe ou da avó ou do pai e do avô ocupando-se numa cozinha repleta de suas gentes, reunidas em festa. Mas  comer  também é estar só, festejar a si anonimamente, como numa oração que sopramos em rumorejos vagarosos, num movimento de coisas que só dizemos a nós mesmos quando em conversa particular. E tudo se e...

O vestido*

O vestido é uma peça vulnerável, disse uma amiga, melhor colocar um short, uma calça, hoje quero beber, quero encontrá-lo no fim da linha, da noite, naquela mesa marcada e pedir uma cerveja, melhor duas, depois uma caipirinha, antes uns pastéis, que não bebo de barriga vazia. O vestido, de fato, pensando bem, considerados os prós e também os contras, subtraídos os riscos, levando-se em conta as possibilidades, medidas as circunstâncias, tendo em vista o propósito, conforme a designação espiritual de cada um, sob pena de parecer ridiculamente insistente, o vestido, reparem, é uma peça essencialmente vulnerável, o vento, a mão, a farpa solta na cadeira, o homem tarado, a criança, a amiga. É bem possível que uma infinidade muito grande – redundante - de pessoas conseguisse erguê-lo facilmente, mas nem todos dançariam ao arrepio. * Postagem original em novembro de 2012.