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Comer é uma oração*

Comida é ritual, tanto no preparo quanto na alimentação em si, passando por modos de servir e estar à mesa, sozinho ou acompanhado, homem ou mulher. Experimentem, olhem pros lados discretamente. Imaginem um casal à espera, se se sentam um de frente pro outro ou lado a lado. Se conversam ou cada um batuca na tela de celular, se comem alegremente ou se são personagens de um desses quadros de Edward Hopper no qual o humano é irrevogavelmente sozinho.

Comer é o contrário de solidão, sobretudo no Brasil, especialmente se falamos de um comer familiar, de mesa grande e farta, típico do nordeste de tradição senhorial, quando evocamos o gesto doméstico da mãe ou da avó ou do pai e do avô ocupando-se numa cozinha repleta de suas gentes, reunidas em festa.

Mas comer também é estar só, festejar a si anonimamente, como numa oração que sopramos em rumorejos vagarosos, num movimento de coisas que só dizemos a nós mesmos quando em conversa particular. E tudo se entrega diante da refeição.

Em postura de aguardo, cada um inventa suas maneiras de comer: em rápida deglutição ou lento mastigar, em goles de comedimento ou aos borbotões, com sofreguidão ou manso ir e vir de língua.

Comer é erotismo, momento no qual se revelam os apetites mais insuspeitos, as fomes e os desejos, as vontades irrefreáveis e os furores. Come-se a quente ou a frio. Nada mais delicioso que adivinhar no outro uma gula ainda pouco tateada.

Comida é finalmente uma lembrança, uma saudade até. Como a “madeleine” proustiana, cada prato, sabor e gosto, cada toque de um alimento, a pele do caju, a textura da carne ou o aroma do vinho, tudo faz movimentar a memória, que dança em compasso com o que escolhemos levar até a boca. Um gesto que, de tão ativamente ligado ao rememorar, até se interrompe.

E não são poucas as vezes em que flagramos um garfo suspenso no ar, em trabalho de relembrança, trazendo de novo à vida sabe-se lá que sensações, sabe-se lá que rostos e sabores, que agora se misturam aos da comida que experimentamos. E revivemos tudo com sabor de primeira vez.

* Crônica publicada no caderno especial da Casa Cor, no O POVO. 

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