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Grafia

J voltou finalmente de viagem, trouxe um livro e me entregou. Um presente, falou. É um livro seu, assinado por ele, com data e letra caprichosa no canto superior. Penso em minha própria letra cursiva, hoje desfigurada, uma confusão de traços que tenho dificuldade de desatar quando preciso ler anotações que fiz durante a aula ou no meio da rua, para o trabalho. Sou jornalista, vivo de escrever e, por enquanto, não temos à disposição  o expediente   de registrar tudo maquinalmente. Ainda precisamos das mãos e dos blocos de papéis. Não há charme nenhum nisso, eu mesmo cuidaria em largar tudo e apenas ouvir, estar inteiramente concentrado no que o outro me diz, não escrever mas escutar o que me contam. E depois voltar pra casa repleto de histórias que guardaria pra mim. Sem essa intromissão da letra, da minha própria grafia misturando-se ao que é alheio. Por isso não escrevo mais o nome nos livros que compro ou ganho. Se ponho as letras lá, então é meu e o que sou at...

A dúvida de K

K está do outro lado do país, num lugar mais frio, cinza, essas temperaturas que deixam o céu amuado e o humor oscilando junto com os termômetros. Ora feliz, ora triste, pensa em voltar, mas quando volta imediatamente se coloca numa posição de cansaço, sem disfarçar o desgosto, uma sensação de que perde tempo e vida, duas coisas que não se perdem mais, sobretudo agora, sobretudo hoje. Falo que em Fortaleza choveu pela manhã, uma chuva fina, triste principalmente porque na véspera do feriado, triste também porque agora e não ontem ou antes de ontem, quando os seus efeitos teriam sido atenuados por notícias alegres, o irmão que estuda, a irmã que está grávida, o livro que avança, sabe-se deus pra onde, mas o fato é que avança e ganha esses contornos próprios que as histórias resolvem assumir quando já não estão mais sozinhas. K festeja a chuva, fala que sente saudade, diz que quer ler mais sobre a água na sua cidade. Depois admite que gosta do que faço. E se cala. Eu ma...

Transparência e obstáculo

Por razões que são como dunas móveis, ou seja, nunca entendemos direito por que começam nem aonde vão parar, um livro do Starobinski caiu nas minhas mãos. Precisava falar sobre melancolia não apenas porque me sentisse melancólico, como tenho de fato me sentido. Motivos pessoais e acadêmicos, nunca apenas uma coisa, nunca só interesse em pesquisar, mas também a raiz primitiva de algum sentimento mal resolvido alargando as fronteiras. Daí até a melancolia e ao autor, de quem fui pescando títulos e espiando as palavras. Agora também outro livro do mesmo Starobinski chega por vias tortas, um no qual trata de Rousseau. Logo ele, Rousseau, e logo agora, Rousseau. Uma ediçãozinha de bolso, na capa um homem sozinho com uma bengala e umas flores. Para quem as flores? Para onde vai o homem? De partida, está escancarada a solidão como condição na qual precisamos estar para contar o que seja, mas da qual fugimos em busca do que seja. O movimento sanfonado: ir e voltar, num quebra-mar s...

Um encontro com L

Agora foi diferente, eu procurei L e propus que retomássemos de onde havíamos parado, ou seja, do ponto inexato em que as coisas perderam o eixo e no qual já não sabíamos mais o que éramos, se amigos ou confidentes ou pessoas interessadas remotamente um no outro mas que permaneciam ali a despeito de tudo. Permanecer quando tudo o mais aponta pra longe, ficar quando tudo sugere ir embora, insistir porque nenhum outro movimento é desejável. É um desses mistérios que eu achava que só encontraria nos livros e nos filmes, mas o fato é que ele pode suceder a qualquer um de nós, que acordamos cedo e levantamos da cama com ressaca e vamos ao supermercado e esperamos na fila do consultório ou machucamos o mindinho na quina da parede. Foi o que disse a L quando a conversa parecia encerrada e nós dois já não tínhamos mais nada a oferecer um ao outro. Foi só nesse momento que pude expressar claramente que algo me impedia de ir. Algo sem rosto, sem forma, um sentimento talvez, um apego a ...

Mutilados

Disse que morderia e de fato mordeu. Restou essa marca com a qual ela não saberia bem como lidar no dia seguinte. Disfarçou com pó e um lenço ao pescoço, mas em casa, sozinha, orgulhava-se diante do espelho. Uma marca, finalmente. Não abriria mão. Uma primeira marca que não era de nascença, tampouco de acidente como a que levava no dorso da mão esquerda.  Mordeu mais vez uma vez, agora sem avisar. No braço e depois na bunda, duas arcadas afundando na carne branca com precisão. Podia adivinhar o desenho irregular dos dentes apenas olhando pra elas. Os caninos mais pontiagudos que o normal porque desde criança os de cima não encaixavam nos de baixo. Como não havia fricção, tinham ficado assim, amolados, perfurantes, dentes como de cachorro e não como os de gente. Um dia foi a vez dela. Machucou o lóbulo da orelha, ele protestou. Então pediu que parasse, mas logo foi o peito. Deixou uma área roxa que depois esverdeou até se perder, uma vaga mancha cinza que poderia ser qualq...

Comer corações

Tente. É um exercício. Separe corações, um de cada lado da mesa. Em seguida olhe e escolha, revolva, corte em fatias bem finas ou grossas, tanto faz. Comer corações aos bocados ou de uma vez só.  O mais vermelho talvez seja suculento, o mais seco nem sempre é o mais duro. Há corações de todo tipo e tamanhos, gostos e texturas. Corações amargos e doces como os clichês dos romances água com açúcar. Corações salgados, corações gordurosos e apenas músculo. Escolher é talvez a parte mais divertida. Percorrer as prateleiras dos supermercados à procura, passar a vista por rótulos, procurar nas entrelinhas de cada coração os materiais de que é feito, se têm excesso de fibras, se causam câncer, se podem levar à morte por asfixia. Corações indigestos.  Uma variedade impressionante de corações dispostos em fileira ao lado da banquinha de doces, pouco depois do setor de frios. A gente acha que nunca vai encontrar mas encontra. Aquele, por exemplo, afundado no peito magro, p...

Fuga

Há um mês fiz como Dante e mergulhei no inferno de onde não saí rumo ao paraíso pelas mãos de nenhuma Beatriz. Fui e voltei por minha conta, mas o fato é que gostei do inferno. É o que se pode chamar de lugar bacana. Sua circularidade, suas almas eternamente condenadas, as figuras de proa da cultura atiradas mais por vaidade e crimes de menor potencial danoso que por qualquer outra coisa, o aspecto geométrico, as animadas conversações, os grupos, sua geografia montanhosa, os lagos, os barqueiros, as almas diariamente mergulhadas em agonia. Por tudo isso acreditei que o inferno é uma festa, as mentes mais brilhantes estão lá, seus dias não se parecem, ao contrário do paraíso, um festival de carolices retroalimentando-se continuamente, umas horas que se passam como gato preguiçoso estirando-se no parapeito da janela, uns domingos assim sem gosto, uns sábados em celebrações harmoniosas no curso dos quais o único sobressalto é descobrir que horas as crianças poderão dormir. A...