Pular para o conteúdo principal

Comer corações

Tente. É um exercício. Separe corações, um de cada lado da mesa. Em seguida olhe e escolha, revolva, corte em fatias bem finas ou grossas, tanto faz. Comer corações aos bocados ou de uma vez só. 

O mais vermelho talvez seja suculento, o mais seco nem sempre é o mais duro. Há corações de todo tipo e tamanhos, gostos e texturas. Corações amargos e doces como os clichês dos romances água com açúcar. Corações salgados, corações gordurosos e apenas músculo.

Escolher é talvez a parte mais divertida. Percorrer as prateleiras dos supermercados à procura, passar a vista por rótulos, procurar nas entrelinhas de cada coração os materiais de que é feito, se têm excesso de fibras, se causam câncer, se podem levar à morte por asfixia. Corações indigestos. 

Uma variedade impressionante de corações dispostos em fileira ao lado da banquinha de doces, pouco depois do setor de frios. A gente acha que nunca vai encontrar mas encontra.

Aquele, por exemplo, afundado no peito magro, por baixo da pele escura, um coração acelerado quando lado a lado nos olhamos e deixamos soltar não sei que sorte de palavras que atravessam as paredes e chegam ao outro lado da rua.

Outro mais corpulento, coração imenso, repleto de energia escura acumulada por anos de amores cuja validade passou sem que ninguém percebesse. 

Um livro de receitas para corações. Outro de bons modos. Mais um sobre como evitar corações depois dos trinta anos.

Comer, mastigar bem, dançar com a língua até sentir que a carne virou pasta e agora está pronta pra ingestão. Engolir. Excretar.

Tudo de volta outra vez. 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Trocas e trocas

  Tenho ouvido cada vez mais “troca” como sinônimo de diálogo, ou seja, o ato de ter com um interlocutor qualquer fluxo de conversa, amistosa ou não, casual ou não, proveitosa ou não. No caso de troca, porém, trata-se sempre de uma coisa positiva, ao menos em princípio. Trocar é desde logo entender-se com alguém, compreender seu ponto de vista, colocar-se em seu lugar, mas não apenas. É também estar a par das razões pelas quais alguém faz o que faz, pensa o que pensa e diz o que diz. Didatizando ainda mais, é começar uma amizade. Na nomenclatura mercantil/militar de hoje, em que concluir uma tarefa é “entrega”, malhar é “treinar”, pensar na vida é “reconfigurar o mindset” e praticar é “aprimorar competências”, naturalmente a conversa passa à condição de troca. Mas o que se troca na troca de fato? Que produto ou substância, que valores e capitais se intercambiam quando duas ou mais pessoas se põem nessa condição de portadores de algo que se transmite? Fiquei pensando nisso mais te...

“Romerobritização” de Fortaleza

  Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...

Coisa de pobre

  Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...