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Dentro da noite

Memória é o redesenho do possível. Mudam-se as frases, as fotos, as distâncias. O trajeto e a até a latitude. Do pouco que permanece, inventa-se a refeição do dia. Faltam duas.   Um telefonema, e a porta se abre: trocaram cacos do que tinha restado. Não era muito, não era pouco. Serviram-se café e cigarros. Logo amanheceria. Assim começa: a chave é o tempo, que, para ambos, corre de modo diferente, ora apressado, ora compassado. Um todo feito de entrega e reverência, outro de susto e circularidade.  Marcou de ver um filme, acabou atrasando. Ficou em casa. Assistiu desenho animado, fumou, abriu uma lata de refrigerante e admirou-se com a intermitência das luzes. Era fim de tarde, quase noite, e ninguém esperava que nada realmente fosse acontecer.  Até que, quando nada realmente aconteceu, pôs-se de pé e abriu um livrinho ao acaso, balbuciou qualquer coisa ao telefone e repetiu que amanhã seria diferente não porque quisesse, mas porque haveria de ser mes...

Finisterra

Talvez no finisterra, o cabo que se estende mais ao ocidente, ou como finisterra de Fortaleza, uma quina continental, encontro de cabos ultramarinos que aqui se enovelam para depois serem distribuídos a cada parte do globo, levando informações, emails extraviados, fotos, mensagens de amor e uma ou outra canção de arrependimento. E disso falo mais: o finisterráqueo, ou seja, o habitante do cabo que se prolonga mar adentro, a falha projetada, não é mais nem menos alegre, mais nem menos preocupado com as coisas do mundo, mais nem menos melancólico quando a noite de sexta se aproxima e as luzinhas na fachadas dos prédios piscam natalinamente.  O finisterráqueo é, por assim dizer, uma rasura, trecho onde já se escreveu bastante e aqui e ali se veem pedaços de outras épocas atravessados, cada qual reclamando atenção, cada ums saindo-se numa direção, impedindo qualquer possível soma vetorial. 

Assim começa

Assim começa, não saberia dizer se o mal, o fim ou o começo, mas que começa, disso não tinha dúvidas. Assim começa, e, surpreendendo-se ainda no início, quer de uma coisa ou de outra, levantou-se da cadeira e foi até a varanda, onde acendeu um cigarro, o primeiro de três após uma semana inteira sem fumar. Eram 17 horas e um quebrado, e do lado esquerdo do céu da cidade uma mancha de fogo se espalhava lentamente. Assim começa: visto de longe, o sol caindo aos poucos, uma falta de brisa que é o cartão de visitas de dezembro, já anunciado antes de realmente chegar. Assim pensava que fossem as coisas de agora em diante: um começo, mas do quê?

Livros, livrinhos e livrões

Dicas rápidas para quem está procurando um livro desesperadamente e não encontra. E há quem procure assim mesmo, catando não estante. Eu faço assim: gasto todo o meu tempo procurando. Vale a pena. Ficar ali, à mercê das lombadas. Mas é aflitivo também, sabe? Olhar e olhar e olhar. Os vendedores começam a desconfiar, os seguranças passam a dar rasantes perto da gente, principalmente se você anda de mochila, tem barba e calção folgado com muitos bolsos. Imagine cada bolso com dois livros pequenos. É assim que um segurança olha pra você.  Gosto de listas e gosto de procurar. Gosto de perder a noção quando procuro. Era assim na biblioteca do Sesc, no Centro. Também lá ficava desse jeito, com cara de abestado, sem saber ao certo o que levar – até encontrar "O lobo da estepe".  Enfim, procurar e encontrar. Outro livro que achei foi "O caso Morel", do Rubem Fonseca. Mais um: “Água Viva”. Se alguém quer se perder e sofrer um pouco, leia esse livro.  Sobre novid...

Grafia às costas

Brincaram então que as costas seriam o quadro negro onde se registravam itinerários diversos, a caminhada na praia, a corrida de bicicleta, o tombo, as manchas do corpo recém-adquiridas de algum modo estranho que agora não lembra. Quando olha pra elas, é como se reconhecesse um rosto ao mesmo tempo familiar e estranho.  Abertas, lisas ao longe mas imperfeitas se vistas de pertinho, com as pontas dos dedos, as costas serviriam a anotações, rascunhos e livro de presença, cartão de Natal e boletim da viagem que fariam para bem longe, ali perto. Guardadas e expostas, as costas reagiam ao toque ampliando-se, ao contrário da folha que se encolhe. Como o movimento de afastamento das placas que empurrou continentes para extremos do planeta quando a terra convulsionou e os bichos na superfície sequer tiveram tempo de escolher onde fincariam os pés, se do lado de lá ou de cá. As costas como um órgão ao alcance, uma ponte entre, zona erógena liberta, chão onde pisava e fazia cas...

Equilibrista

Inflação de superlua e asteroides que vão passar raspando na terra no próximo fim de semana e excesso de eventos atípicos que se tornam corriqueiros de uma hora para outra sem aviso prévio nem explicação. Uma falta ampliada que salta e engole tudo. Opacidade. Fiquei de responder e deixei pra lá. E agora esqueci o que tinha ensaiado como resposta. De modo que tenho apenas as palavras do dia, nada rebuscado nem refletido. Impressões de agora. Dois caminhos se bifurcam e não se encontram. Velocidades são assim mesmo: as pessoas se ultrapassam no tempo. Umas correm mais que outras. Outras olham para os lados ou pra frente. Eu olho pros pés e pra cima. Procuro ajuda no teto do bar onde agora peço mais uma cerveja. Eu não deveria. O deserto está florido. Cheio de um rosa atapetado e ao fundo as montanhas numa coloração indefinida entre cinza e verde claro. Lembro quando o deserto costumava ser árido e infértil. Duas pessoas caminham na mesma direção mas em sentidos opos...

Notas animálicas iii

E a terceira parte, como a terceira parte de qualquer coisa, não encerra nem elucida, mas amplia a falta. Na literatura e no cinema, a falta é o leitmotiv. Está em tudo e em todo lugar. A falta empurra protagonistas para outra geografia, para outro mundo, para outra dimensão, para outro corpo etc. A falta de amor, natureza, amizade, dinheiro e sexo, a falta de braços, a falta de dentes, a falta de pau e de buceta, a falta de cabelos, a falta de sentido e a falta de falta. A falta de falta é das piores: olha-se ao redor, e nada está faltando. Está tudo no lugar: eu estou aqui, ela ou ele está ali, a casa está arrumada e os lençóis, lavados, as passagens para a viagem compradas e o cachorro banhado. As contas pagas e a pia, sequinha. Pesco uma conversa de ouvido: tudo que eu tenho é tão valioso e importante. E cita como exemplos a casa e o carro, mas também casamento e filhos e a sensação de finalmente haver encontrado paz. Segue-se uma breve discussão sobre felicidade ...