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Postagens

Esperar

E antes da sexta-feira propriamente dita, essa que começa em algum momento entre o fim do expediente e a nona cerveja, essa que vai passando devagarzinho enquanto a gente despeja água num copo de vidro antes de dormir e depois dorme, às vezes sonhando, às vezes não sonhando. Antes, um aviso. Mas um aviso tranquilão, desses que ninguém segue à risca, seja porque não ouviu direito, seja porque foi realmente dito bem baixinho de modo que ninguém a mais de um metro de distância tivesse condições mínimas de entender. Porque às vezes a gente não quer a compreensão de ninguém. Quer tudo, menos compreensão. Então estejam avisados, que é a melhor maneira de avisar tudo sem avisar nada. Estejam avisados. Não esperem nada. Exceto, é claro, tudo que já se sabia de antemão que uma hora ou outra iria acontecer. Toda sexta de noite tem chovido. Na praia de Iracema, enquanto a gente atravessa a avenida ou estaciona o carro e caminha depois uns bons três quarteirões até o bar mais...

Barbante

Tem ainda esse assunto das máscaras sociais, pesquei ali enquanto procurava assunto pra escrever antes de ir trabalhar. De fato foi assim, uma olhadela pro lado: máscaras. A frase do Catatau continua válida: toda máscara arrebenta no elástico. Sendo o elástico, por si mesmo, essa estrutura de durabilidade precária, hoje estica, amanhã não estica mais, hoje une, amanhã desata e por aí vai. Quem quer sustentar uma máscara por muito tempo não pode depender desse conjunto de fios que se juntam a propósito de qualquer coisa que se queira ver junta. O elástico, a máscara, a leitura clandestina de uma palavra solta ao lado e o tempo suficiente para fazer cada coisa que desejamos fazer. É difícil juntar tudo que nos interessa e começar então a falar e escrever. É mais ou menos como atar um pacote feito com várias caixas. Prendê-las umas às outras com o barbante – ou elástico? O que segurar por mais tempo. Embora, na prática, a força de oxidação seja mais presente ...

Trinômio doméstico

Bom, mas, pensando bem ou não tão bem assim, empregar o tempo ou otimizar o tempo ou ainda extrair do tempo a melhor parte, como se se procurasse sempre o sumo das coisas, nunca se satisfazendo com casquinhas ou lasquinhas. Aproveitando cada momento com atividades proveitosas, numa continuidade de prazer que se segue à busca. Isso tem algo da ética protestante do capitalismo.  Segundo essa lógica, desperdiçar o tempo com um livro a fim de entender melhor a vida dos outros seres humanos, o que inclui a sua própria – isso é uma coisa bacana? Talvez não. Melhor seria aprender outro idioma ou melhorar o desempenho em algum jogo no celular ou mesmo amar e brincar ainda mais com os filhos ou alugar uma casa de praia no fim de semana. A vida é curta. Tenho minhas dúvidas em relação às dúvidas das pessoas que não têm dúvidas quanto a essa dimensão pragmática da vida.  Academia, família, trabalho, lazer e, se possível, um pouco de espiritualidade (mandalas ou ...

Empregando o tempo

De modo que, enquanto não chega o mês, e mesmo depois de junho, recomendo três livros. “A ilha da infância”, do norueguês maluco que tornou literatura tudo que viu e viveu ao longo da vida inteira. “Meus documentos”, novo livro de contos do Zambra, o chileno fumante autor de “Bonsai” e outras pequenas joias.   “Restinga”, livro de contos do Miguel Del Castilho – estreia incrível, um dos melhores que li neste ano.    E, pra quem quiser e puder e aceitar operar o tempo noutra lógica, indico também “Brasil: uma biografia”. São quatro livros bem diferentes, o último uma alentada obra cujo propósito é, segundo o título mesmo antecipa, biografar um país inteiro e seus habitantes ao longo desses cinco séculos de patrimonialismo, escravidão, guerras e assaltos ao estado. Não é moleza. Li o prefácio e o primeiro capítulo e, bom, o livro é uma novela que se vai devorando, aqui e ali, com um gostinho de aula de história profundamente realista, com os escra...

Ainda o tempo

Ainda o mesmo assunto, que não é exatamente o mesmo, mas o mesmo visto com outros olhos, uns olhos assim já meio desconfiados de tudo porque enfim tenho cá meus 34 anos e um pouco de cada fase da vida permanece e cada pessoa que conheci também, de maneira que até o que parece igual soa diferente e o diferente, igual, e digo isso bem sério, sem rir, mas escondendo um sorriso canhoto no canto direito da boca. Tão difícil a vida quando é séria.  Interrompi tudo que estava fazendo, quer dizer, tudo que estava lendo, e sobre isso quero escrever depois, a fragmentação da escrita, da atenção, da leitura, tudo na vida servido em caquinhos, pequenas porções de coisas, prazeres em miniaturas e por aí vai, como se ninguém mais tolerasse a longa espera de 500 páginas e a demorada ausência da desconexão. Parar pra ler soa tão aberrante. Um mês. Inteiro. Dedicado. A um livro. Por vez. Sem pressa. Esse tempo passou. O tempo de agora é outro. Interrompi o que estava faz...

Conversa

Então o ritmo sossega um pouco e a até a luz se aplaca, como que desfeita ou atrasada. Lenta. Diminuir a velocidade do mundo, convidou. Não é fácil. Não é fácil, repetiam-se, a cerveja parada na mesa e a música ambiente chegando aos solavancos, a mesma música de barzinho cafona acompanhada de teclado e risos e de repente alguém levanta e rodopia e o cantor também entra na dança e  uma ciranda então canta parabéns pra você. Mas o aniversariante não quer festa, está ali porque não tinha alternativa. Os dois continuam a conversar sobre a respiração, o ritmo, a velocidade. Provocam-se de quando em vez. Tocam-se de raspão numa troca de garfos. É um diálogo sem pressa o que ninguém vê. 

A bolha

A dúvida é descobrir se a gente vive numa bolha, não na vida de verdade, essa vida real de compras, farmácia e beijo de dormir. Falo da vida virtual, a das fotos estudadas, postagens e coisa e tal. Se, dentre as coisas que lemos ou vemos, há uma seta indicando exatamente que o caminho é aquele e não outro, um propósito ou mão invisível. Eis a bolha: a linha mestra de uma vontade externa.   A bolha consiste na empatia ou na consonância? É a repetição dos gostos? A homogeneidade das falas? Falta assimetria? Sobram encaixes? Os algoritmos estão chegando. Eu gostaria de entender a bolha. O que faz, como atua, de que modo seleciona os amigos e escolhe as postagens mais bacanas para exibir na minha timeline durante um dia inteiro de conversas. Acho que a bolha, por ser uma bolha, não tem feito um bom trabalho. Me mostra coisas que não quero ver e mensagens que não quero ler. A bolha tem falhado. Se falha, é humana? Não sei responder. Apenas descon...