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Abraço

Agora é minha vez de falar: estranho mesmo, se quer saber, é voltar no tempo, como tenho voltado com tanta frequência, e reencontrar tudo que foi dito e de lá não extrair uma vírgula de sinceridade. Nada. Um farelo de sentença honesta, uma porção miúda do que pensei seria a paisagem natural. Então descubro: não há paisagem natural. Cada volta é uma viagem diferente. Comparei fotografias, medi sorrisos, esquadrinhei abraços, cruzei as mesmas ruas, avaliei declarações de teor semelhante – acredite, nada é como antes. O clichê venceu. Acabo de retornar de uma dessas viagens estranhas em que temos a opção de descer do carro e caminhar horas a fio por uma cidade exclusivamente imaginada por nós. Sabe o que encontrei? O nada. Pra onde virava, dava com a cara na parede. O pior: eu gargalhava. Gargalhava na encruzilhada. Gargalhava nas esquinas. Gargalhava nos balcões dos bares que ainda guardavam marcas de cigarros.   Nessa cidade tão vazia deparei, no entanto, com alg...

Javalis não transpiram

Javalis não transpiram, foi o que ouvi quando a jornalista encarou o javali como se precisasse dizer algo realmente importante. Então soltou essa: javalis não transpiram.  Estava comendo, melhor, esperando comer. Pedira o de sempre, filé à parmegiana, o prato mais rápido do restaurante. A jornalista, melhor, a Glória Maria, vestida com roupas de repórter aventureiro em visita a algum país exótico, celebrava a diversidade da fauna desse país exótico etc. Foi aí que disse: javalis não transpiram.  Tive pena ao imaginar cada um dos poros daquele animal tão bonito a sua maneira. Cada orifício obstruído pelo arbítrio da natureza. Suando pra dentro. A temperatura do corpo à mercê de um mecanismo de compreensão ainda mais estranha que o nosso.    Javalis não transpiram, repetiu Glória Maria. Era como se dissesse: vejam como cada segundo de vida pode ser uma doce confusão entre o que queremos e o que podemos ter.  E t udo isso só fez aumentar a solidariedad...

Toda a água

Antes de sair de casa, tomou outra xícara de café. Apanhou uma caneta e prometeu guardar silêncio ao longo das próximas horas, fizesse chuva ou sol, morressem pandas ou não. Os pensamentos assim, empurrando-se uns aos outros, como refugiados a desembarcar de um navio à beira do naufrágio. Saiu. Voltou. Tinha esquecido o mp3, que pôs na mochila. Abriu a geladeira mais uma vez. A garrafa cheia, tudo guardado, faltavam cervejas, poucas frutas, nenhum chocolate, azeitonas vencidas, escassez de iogurte, hambúrguer congelado, uma panela destampada. A água sempre com esse gosto estranho, um sabor metálico, cheia de temperos. Considerou tomar outro banho, colocar outra roupa, embarcar noutro ônibus e descer noutro ponto. Devolveu o mp3 à mesa. Tampou a panela. Comeu uma azeitona. Gostou do sabor. Abriu a janela. Esperaria que a chuva molhasse tudo. 

Desencontros

Coincidentemente, revi Encontros e desencontros há dois dias. A obra é de outubro de 2003. Tem 10 anos, portanto. De lá para cá, o que ficou? Tudo. Principalmente a cena final. Nela, Bill Murray cochicha algo no ouvido de Scarlet Johansson. O quê? Ninguém sabe. O desfecho do filme de Sofia Coppola está para o cinema como o mistério de Caverna do Dragão para os desenhos animados. Um segredo de Fátima. Uma incógnita. Diferentemente de Caverna, porém, Encontros não é uma obra inconclusa. É aberta. Esconde essa lacuna maior, que pinica no juízo de quem assiste. Contrafeitos, vemos as letrinhas subirem e a tela escurecer. Acabou. Nenhuma cena extra. É aquela história e pronto. Cada um que a desenvolva do jeito que acreditar melhor. Tudo por causa daquele derradeiro fiapo de conversa. Uma despedida? Um novo encontro? Um convite? Uma promessa? Queremos saber. Suspeitamos. Não há maneira de ter certeza. Queremos ter. Queremos o seguro, o certo, o completo. O que temos é perigo...

Atualização importante

Tinha uma porção de coisinhas desimportantes pra falar. Um incômodo em relação a outra porção de coisinhas desimportantes que li e ouvi, principalmente que li, já que tenho escutado tão pouco e cada vez pior. Escuto pior por entender que já não faz tanta diferença, mas também por problemas de saúde. O que me leva a perguntar: é verdade que chegamos a esse estágio pré-larval em que cada um fala o que pensa e todo mundo entende o que quer?   No estado geral das coisas (importantes e desimportantes), insistir no que não tem importância pode ser, mais que um desvario, um ato de afirmação. E tudo seria perfeito se abraçar esse ato de afirmação não exigisse tanta energia, se não levasse ao quase esgotamento, se não terminasse por nos obrigar a gastar mais tempo explicando razões do que efetivamente gozando o processo.     Caga-regras (nota cômica: o corretor ortográfico sugeriu, indiretamente, “defeca-regras”) e otimista que sou, queria um decálogo. Isso ...

Paula Fernandes in concert

Acima, uma típica banda de garagem dos anos oitenta posa para fotografia  A novidade é que os funcionários da garagem da empresa São Benedito compraram um rádio. É um modelo barato, a pilha, fácil de encontrar nos camelôs do centro. Tem entrada USB. É azul fluorescente. Armazena uma milhão de canções, falem de amor ou sexo.   Ocorre que os funcionários da garagem da empresa São Benedito passam a madrugada sintonizados numa FM. Escutam principalmente forró e música romântica. O volume é aceitável, ninguém reclama. De vez em quando o vento sopra uma nota mais estridente. Está tudo bem, digo pra eles. Continuamos assim por um bom tempo: os três homens movendo-se entre baldes e escovões e eu, fumando na janela. Avisto ao longe um gato. Será um gato?, pergunto a ninguém. Sim, é um gato, ninguém responde.    Por volta das 3h30 da manhã, quando a garagem volta a ganhar movimento, decidimos parar. Estamos cansados. Gastamos o corpo no exercício da banali...

Super

Acumulava por não saber operar de outra maneira. Uma máquina cujo funcionamento obedecia a uma única e simples regra: sorva. Depois entorne. Assim era com ele. Ia vendo a linha subir centímetro a centímetro no copo estreito. Esperava o momento certo, que era sempre o último.  Depois não havia mais nada. Era a regra de ouro, o momento certo corresponde ao último e depois dele, nada.   À espera desse instante de enxurrada é que ia assistindo tudo acontecer. Daí as imagens recorrentes de tempestades e outros fenômenos da natureza que causam destruição em escala massiva. Arrasam com tudo, não deixando rastro, apenas casas amontoadas e árvores de raiz pra cima. Via-se irmanado a essa natureza destrutiva, à ação que, mesmo imprevista, pode ser mapeada, remontada. Os primeiros passos visíveis. A lenta formação da tormenta. A onda menor avolumando-se à maior, correntes marítimas de temperaturas diferentes encontrando-se de repente no meio do oceano. Um tectonismo que...