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E todos viram as estrelas

Acabamos de ver o lugar, parece bem bom, dois quartos, uma sala, cozinha ampla, uma janela, duas janelas, armário, pia, três lances de escada, jarros, boa vizinhança, três homens sentados na calçada bebendo refrigerante ou vinho ou suco de uva, um rapaz tatuado moreno bermudão de tactel passando com a prancha debaixo do braço, 13h30 de uma sexta-feira, uma varanda, duas varandas, vento, muito vento, bastante vento se querem saber, a sala iluminada, branca, desejo imediato de armar a rede, a um passo do parque, a dois do supermercado, a três da avenida, a quatro da escolinha do bairro, a cinco de outra avenida, a seis da parada de ônibus e por aí vai, a proprietária do prédio, por sua vez também dos apartamentos, o que inclui o nosso, tomando por nosso a posse alheia agora locada para terceiros, no caso, a gente, a proprietária e locatária e síndica, depois de vencer com dificuldades as escadas ("preciso me exercitar urgente"), deixou logo bem claro escolho todo mundo ...

Ira índia

Iracema lê mas não assusta, bebe mas não embriaga, trepa e não apaixona, fuma e não arreganha, escreve e não tem ressaca, briga e não reata, flerta e não beija.  Iracema compensa tudo que erra com sorriso, xinga e finge desconcerto, falha pensando no bem de todos.  Escorregadia, soneto sem a quarta parte, alçapão, gambiarra, geringonça, trapaça, arranjo, fortuna. É a mulher de toda vida beijar a lona, Iracema, ergue o rosto exatamente quando a câmera aproxima e fita o brilho triste da luz coada nessa dorzinha nem muito forte nem fraca, na medida.  Quer o quê, criatura? Deitar e rolar na BR, a índia responde.   O esquilo tem peste bubônica, o trem descarrila, o jogador bate na trave, o papa pede sol na cristandade sem saber que o sol ilumina e aquece o corpo e o corpo aquecido quer logo de imediato, e Iracema continua sem saber o que quer, quer o quê, mulher?  Fica com a cabeça assim, balança que nem calango em cima do muro, tomando quentu...

A letra

A letra degenera? A minha, sim, a manuscrita, a que sai do encontro da ponta da caneta ou do lápis com a superfície do papel ou de outra qualquer, a que resulta do movimento repetitivo do pulso, que inclina a cada nova curva do alfabeto. Falo dessa letra miúda, dançante, longilínea ou cartesiana: a letra muda. A minha foi degenerando, degenerando, até chegar ao estado atual de garrancho, de coisa única, emaranhado de fios que apenas remotamente guardam alguma semelhança com a letra bonita, quase feminina, da 7ª série. A dúvida é se a falência da letra corresponde a outra, pessoal, moral, estética, ou se uma não tem que ver com a outra, se são domínios separados da experiência, sendo a letra uma ferramenta que se deforma gradualmente sem que possamos fazer nada a respeito.  Será assim? É a letra um instrumento de corte que se desgasta naturalmente ao limite da cegueira? É a letra reflexo de uma modalidade de pensamento retilíneo, contínuo, compassado, de palavras que s...

Janela

Como é difícil se desapegar de uma janela, uma simples janela, quadradinho aberto na dureza da alvenaria, um suspiro na treliça dos circuitos da argamassa, breve passagem comunicante do externo ao interno, dentro para fora, alheio ao íntimo, um Suez das brisas, Panamá das emoções, duto através do qual nos chega sempre essa chuvinha inclinada, nunca vertical, mas inclinada, oblíqua, a vertical é uma chuva avessa ao familiar das janelas, cai no lugar sabido, previsível, e é nisso que as janelas realmente são boas, permitir o imprevisto, o entrevisto, o nunca visto, quantas vezes nos assustamos olhando além da janela, quantas nos tornamos pensativos à beira da janela, quantas nos desolamos ao surpreender a paisagem da janela, quantas nos angustiamos ao esperar alguém de cotovelos fincados no parapeito da janela, quantas nos emocionamos ao admirar o jarro deixado na janela? A janela é um buraco negro caseiro, doméstico, barato, com trânsito de mão dupla, não custando muito mais...

Herói sem nome ataca novamente

Tinha desistido de falar sobre O lugar onde tudo termina depois de alinhavar três parágrafos e perder tudo para uma pane no Word, mas consegui recuperar alguma coisa nos escaninhos do córtex cerebral. Vamos lá.   Pensem em Como nossos pais , a canção, com menos poesia e uma dose extrema de vício. No filme, uma certeza: a de que a corrupção e a ambição fertilizam as relações sociais. É pessimista, sim, mas de um pessimismo que serve mais como contraste à descoberta do amor. Num cenário degradante em que as coisas não dão certo e os dias se consomem num globo da morte nada metafórico, o herói busca sossego, alento, e o encontra na paternidade. Para tanto, terá de ocupar um lugar já ocupado. O herói fez a escolha errada? É uma boa pergunta.  Coisa chata no filme: Ryan Gosling interpreta o personagem sem nome de Drive . Mesmos cacoetes, profissão (piloto e mecânico), desvios de comportamento, mesma carga de drama que se espera de uma vida desajustada que tenta...

Já visto

Qual é a função social do dejà vu? Com que frequência você é atravessado por cenas que parecem arrancadas do passado? Revivê-las tem algum efeito terapêutico ou, exato oposto, abala a crença no livre-arbítrio, sugerindo uma circularidade não apenas de temas, mas também de personagens?  A ínfima duração do sentimento é suficiente para revogar a certeza de que tudo está firmemente repousado num tempo passado? Ou o passado, essa invenção que nos tranquiliza, é uma zona ainda mais movediça que o presente ou o futuro? Esses respingos de pretérito nos reconectam com a repetição ou são apenas hiatos no loading contínuo das nossas vidas? É uma sensação experimentada praticamente por qualquer pessoa. De repente, sente-se apanhado no contrapé. O desconcerto do dejà vu é resultado da reencenação aparentemente fidedigna de uma cena ou conjunto de cenas, agora em outra temporalidade, em outro contexto, com pessoas diferentes, em momento distinto, motivada por alguma ferramenta do ...

The last of us: o fim da jornada, o começo de outra

O jogo terminou; a história, porém, continua. Não há um prêmio para quem sobrevive à passagem do tempo. Há fiapos de duas vidas que se enovelaram em algum ponto e agora simplesmente não conseguem mais desatar. A narrativa segue em frente, e não se trata de um desses clichês de filmes de super herói cujo desfecho abre ganchos para sequências caça-níqueis que ficam piscando em néon. O fim de The last of us cria uma extensão natural. É como o exercício de completar mentalmente a palavra com letras suprimidas.  O desenvolvimento dessa história depende menos da produtora Naughty Dog que da marca deixada em quem enfrentou a jornada na pele de Joel e Ellie e, ao cabo de muitas horas, sentiu um frio atravessar a espinha numa das cenas de maior arrebatamento e explosão. Falei sobre as transformações por que passam as personagens . Disse que respondiam de maneira diferente em fases distintas, o que demonstra que as ações e escolhas morais repercutiam no caráter de ambas,...