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Já visto



Qual é a função social do dejà vu? Com que frequência você é atravessado por cenas que parecem arrancadas do passado? Revivê-las tem algum efeito terapêutico ou, exato oposto, abala a crença no livre-arbítrio, sugerindo uma circularidade não apenas de temas, mas também de personagens? 

A ínfima duração do sentimento é suficiente para revogar a certeza de que tudo está firmemente repousado num tempo passado? Ou o passado, essa invenção que nos tranquiliza, é uma zona ainda mais movediça que o presente ou o futuro? Esses respingos de pretérito nos reconectam com a repetição ou são apenas hiatos no loading contínuo das nossas vidas?

É uma sensação experimentada praticamente por qualquer pessoa. De repente, sente-se apanhado no contrapé. O desconcerto do dejà vu é resultado da reencenação aparentemente fidedigna de uma cena ou conjunto de cenas, agora em outra temporalidade, em outro contexto, com pessoas diferentes, em momento distinto, motivada por alguma ferramenta do circuito interno cujo emaranhado somos incapazes de decifrar. 

As sensações carreadas, porém, são arrebatadoras por ir de encontro à lógica de que o tempo é um estirão na estrada vista por meio do retrovisor. É da ciência do banal: a história não se repete. Cada dia será fatalmente diferente do anterior. Tudo isso é, quando nada, de se desconfiar.   

O “já visto” fantasmático surge como assombração e breve ruptura na planície das certezas cotidianas da qual emergimos intimamente convencidos de que estamos no controle de tudo. Sua função, se é que existe, está em nos fazer lembrar que o novo ergue-se em bases antigas, que talvez haja mais repetição que rupturas. 

As pequenas ações domésticas, como discar o número da distribuidora de gás e fornecer o endereço, em seguida pagar o entregador e preparar uma garrafa de café, são apenas a parte minúscula de um movimento subterrâneo, muitos metros abaixo das pernadas e braçadas que damos na superfície. 

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