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Quem se importa

É possível viver sem tudo isso? Por “tudo isso” entendam “tudo isso”, expressão de abrangência relativa que designa posses diferentes para cada pessoa e para cada pessoa uma ideia diferente de posse. Basicamente, pergunto se é possível viver sem o que está ao alcance da mão, um pouco mais distante, a cinco metros, por exemplo, ou um tantinho mais longe, mas não o suficiente para nos fazer pensar duas vezes se vale a pena o esforço de caminhar até lá e simplesmente pegar essa coisa se essa coisa é mesmo a coisa que estamos procurando e não outra coisa, uma que, embora não quiséssemos em princípio, agora nos parece inexplicavelmente curiosa. Uma coisa não muito longe da razoabilidade, portanto.  Essas perguntas embutem uma outra, mais prioritária, se é possível matizar a ordem de prioridades na vida de uma pessoa. Vamos a ela: o que de fato tem importância? O que importa? A nossa crise - se há uma – é a crise da importância? É a crise de não saber o que é impo...

O sinônimo de agonia

Há dias penso naquele dicionário elaborado pelas crianças. Os verbetes fizeram sucesso na internet por dizerem as coisas de um jeito diferente do nosso, o jeito dos adultos. É uma brincadeira aparentemente simples. Um professor pediu aos meninos e meninas que definissem alguns conceitos. Igreja, paz, sexo, solidão, tempo, universo, mar, doença, escuridão, lua, mãe etc. Fui uma criança desesperadoramente tímida, do tipo que enfiava a cabeça na mochila para não falar em pé, responder a chamada ou apresentar algum trabalho na frente, encarando a turma enquanto explicava o que eram mitocôndrias e o citoplasma. Uma criança distraída e arredia pode imaginar a dificuldade, para não falar em terror, que uma atividade como essa desperta em parte da turma. Defina qualquer coisa. Pasmo geral; horror inaudito.           Os adultos podem ter esquecido, mas é um desafio e tanto encontrar o nome certo para sentimentos, objetos e pessoas. Muita gente de...

Habitante do bloco K

Embora guarde lembranças boas (porque nele nos debulhamos ao recordar parentes e amigos) e ruins (porque lamentamos a perda irreparável), um cemitério não deixa de ser um lugar interessante, se não pela carga emocional de que se reveste, ao menos pela forte presença de traços da conduta humana só encontrados em logradouros assim. Mais interessante que isso, porém, é a arena física, a disposição, a geometria, as subdivisções e classificações, o senso de aproveitamento do espaço, as regras, a paleta de cores e demais atributos que o caracterizam. Apesar de dar a acolhida final aos que amamos, o cemitério foi feito para quem está vivo – supondo, claro, que os mortos não confraternizem nem se prestem homenagens póstumas. Um cemitério abriga não apenas homens dedicados a regar flores ou a preparar a argamassa que vedará túmulos. Enquanto trabalhadores fazem pequenos consertos, podam árvores e caiam muros, deixando tudo o mais agradável possível para que as pessoas vivas visi...

Pedagogia do possível

A morte terá realmente algo a nos ensinar além do fato de que algumas coisas são irreversíveis e outras não? Que algumas coisas ficam e outras vão embora? Que já não há meios de fazer o tempo voltar? Os cometas passam duas vezes ou mais, os aniversários, os casamentos, os eclipses lunares e solares    se sucedem. E rupções vulcânicas e tremores de terra e tempestades se registram aos montes. O próprio planeta talvez já tenha existido em outras dimensões. E o amor vai morrer numa esquina para se repetir em outra, dizia o cronista. A morte, entretanto, é única. Se deixa recado, se guarda lições, se tem significâncias ou o que quer que compreendamos como supremo ensinamento, tudo isso pertence mais à fé e ao desejo que à certeza. O que queremos é que tudo padeça de sentido. Nem sempre é assim. Garimpar sentido é uma graça.  Enxergar na morte uma lição torna tudo menos doloroso? Encará-la como uma derradeira aula ministrada por alguém cujo rosto não teremos mais o p...

Régua e granada

Qualquer cretino pode ser espontâneo. Então eu acho que a literatura vem desse conflito entre a ordem que você quer e a desordem que você tem.  HH, Fico besta quando me entendem . Essa Hilda entendia bastante do Fla x Flu de cada um.  E eu, que tento parecer espontâneo sempre que possível, o que não pode se confundir com genuína espontaneidade, me vejo apenas cretino, mas um cretino ressabiado, incapaz de dar dois passos sem se perguntar se o terceiro realmente precisa existir e, em caso afirmativo, se é esse que estou dando e não outro. O que também não pode ser tomado por medo ou covardia. É antes um apreço desmedido por transformar toda estranheza do contato com as ranhuras da superfície sobre a qual se caminha em uma informação familiar, segura, deliberadamente cultivada. Verter o desconhecido em degrau.   Dizendo assim, tudo explicadinho, até parece mesmo covardia, mas insisto que não é. Ou é? Não, não. É só um jeito de andar diferente, confe...

Supernormal sentir o que sentimos

Nossa primeira super lua (embora prefira falar supermoon, que me faz pensar no mugido prolongado de uma vaca triste, vou usar aqui super lua)  foi há dois anos.  Me engano fácil, foi no finalzinho do ano passado, portanto dois mil e doze. E mesmo assim parece que já tem tanto tempo, quase noutra vida, como reza o clichê.   Estávamos sentados no que chamamos A Ponte Velha, uma pata de cimento pousada tranquila na borda do mar, braço quebradiço, ruína arquitetônica, superfície perfurocortante que vai aos pouquinhos se desfazendo: p rimeiro uma lasquinha, em seguida outra, até que os pedaços faltantes sejam tantos que haja mais da ponte dentro d'água que fora.  A isso damos o nome pouco simpático de morte, que julgo valer também pras coisas inanimadas, o que forçosamente me leva a admitir a existência desta anomalia conceitual, a "coisa animada".  A alguns metros dali, na Ponte Metálica, lá onde os meninos ainda tocam Legião Urbana e as meninas ainda...

Passinho

É bastante comum se sentir meio estúpido depois que se entra numa discussão, seja ela qual for. É um sentimento que irmana negros e índios, pardos e brancos, amarelos e encardidos, assalariados e dependentes do Bolsa Família. Sobretudo quando o assunto é da ordem do genérico, do fluido, do subjetivíssimo, calcado em lugares-comuns de uma retórica consuetudinária que, mesmo sem saber direito, vai passando de língua a língua, fazendo pequenos estragos não porque seja necessariamente daninho, mas porque elimina a hipótese de colocar em discussão essa verdade prefigurada, retórica que já vem embalada, pré-cozida, um ponto de vista empacotado: vamos por aqui, é assim, a cidade comporta-se desse modo e não daquele, o fortalezense é estanque, os hábitos estacionaram nos anos 80, é o que vemos repetir-se toda hora, vindo de bocas as mais diversas, cheias dessa certeza que iguala sociologia a alquimia, ciência a carteado, análise e boliche.  Até que uma hora a gente sai um pouco do ...