Pular para o conteúdo principal

Postagens

Cenas de carnaval III

O vizinho grita alto, outro conversa com a empregada doméstica, é aposentado, branco, ela é negra, jovem e fumante, usa short bem curto, o vizinho tem o braço na tipoia, quer perguntar o que houve mas recua, não seria uma boa ideia parecer excessivamente condescendente, anda devagar no corredor sempre checando as moitas no terreno baldio cujo muro banguela não impede que os assaltantes da área saltem e dividam ali, debaixo das barbas de todo mundo, os despojos do roubo,  na última vez em que isso aconteceu ficou apenas olhando, fumando e olhando, acendeu dois cigarros em sequência, intimamente cogitou que tal ato pudesse endereçar aos contraventores uma mensagem subliminar explícita de intimidação, suspeitou até que os cinco rapazes correriam quando finalmente percebessem, “vejam, ali há um homem que não teme”,  ledo engano, escolheram o canto mais escuro do terreno e lá, obedecendo a critérios que não pode entender, agachados feito bichos, ratearam os objetos amealhados em a...

Cenas de carnaval II

Está numa caverna quando a primeira de uma série de criaturas estranhas aparece, ela carrega uma arma, de longe não vê qual arma, se revólver ou faca, à medida que se aproxima, porém, descobre tratar-se de uma lança, a criatura, um hominídeo horripilante, mostra os dentes num esgar cruel, num golpe de machado, então, decepa-lhe a cabeça, fazendo jorrar sangue por todos os lados. Acorda, vê que tinha dormido além das cinco horas programadas, prepara café, passa geleia numa bolacha salgada, liga o computador, checa mensagens, a primeira avaliação do dia, franze o cenho, abre cinco abas no navegador, duas de redes sociais e as outras três de jornais, começa a maratona que realiza todos os dias para se manter sempre informado, afinal é o seu trabalho, vive disso, depende de saber mais que as outras pessoas sobre muitos assuntos, mas nada tão aprofundado quanto fazem crer as postagens no Twitter, por exemplo, ou as conversas nas mesas de bar, quando aproveita para impressionar a platei...

Cenas de carnaval

Com ar pesaroso, o garçom aponta a televisão e diz que a outra também foi mutilada, e por mutilada quer dizer que alguém ia passando na rua e resolveu apedrejar os dois aparelhos, aparentemente sem razão para tal, de maneira que agora o homem de cabelo cortado bem rente ao couro me encara como se buscasse investigar na minha incipiente reação facial o quão fundo aquela informação parecia ter batido, e qual não é a sua surpresa quando sorrio e digo sem medo de ser feliz “as pessoas ficam realmente possuídas na festa de Momo”, antecipando-me, portanto, à tentativa do garçom de talvez não procurar culpados, mas de checar as consequências da narrativa que acabara de contar, e foi nessa hora que, preferindo encurtar a conversa a continuar naquele jogo de gato e rato, pedi um prato executivo de filé à parmegiana, que é o que sempre peço naquele restaurante. 

E la nave va

Parabéns, nenhuma ameaça foi encontrada. Nós o mantivemos seguro eliminando 11 ameaças nos últimos 30 dias. Há dois meses, desde que instalei o anti-vírus no computador, tem sido assim. Sempre o mesmo número: 11. E a mesma mensagem de felicitação por supostamente haver eliminado algo que, presume-se, equivalia a uma espécie de terror inominável. Onze ameaças sem rosto. Nós o mantivemos a salvo de um time inteiro de futebol de pequenos problemas. Quando tinha 16 anos e meu número na chamada da sala era 11, jamais passou pela minha cabeça que um dia seria sistematicamente resguardado da mão carcomida do indizível por um programa de computador.  

Matthew Rohrer ii

Um velório para o telefone  Um telefone desconectado queda morto na mesa. O plástico frio. Os furos no receptor como estrelas colapsadas negras. O bocal, incapaz de gemer, de recitar novos poemas, de pedir que alguém traga uma garrafa de vinho. O casal idoso, que jantava, ficou chocado quando o telefone se jogou no chão em vez de tocar novamente, o fio espiral como o rasto de cabelo molhado numa piscina natural, a maneira como que se deita amontoado na mesa, o discador preso entre números. Jamais ligará para o presidente. Jamais ajudará o reencontro de antigos colegas. Não sofrerá o silêncio incômodo de um convite romântico. N unca mais alguém ofegante.  Em muitos sentidos o telefone está aliviado.

Matthew Rohrer

Algum cara disse que Wittgenstein provou que não há pensamento sem linguagem. Wittgenstein nunca viu um passarinho ou um urso. Árvores balançavam no parque e suas copas se encostavam com ternura. Mesmo sendo o mais novo, eu sou o professor! Corvos gritam para mim no telhado e não conseguem pousar. Acordo indistinguível da manhã deslavada. Tudo que sou é pensamento sem linguagem.

Uma ideia

Uma experiência sutil. Uma idéia: de revista. Outra de: site. Outra de: banda. Mais uma de: perfil falso no Twitter com objetivo subterrâneo de dizer as verdades que todos precisam ouvir ou bolinar egos de quem se acha no direito de – (complete a frase). Uma quinta idéia: livro, contos, crônicas, romance, poemas, fragmentos de narrativas (rsrs), tão em voga hoje a idéia de fragmento - cabe tudo no fragmento, cabe inclusive o fraudulento, o inautêntico, o postiço, o fragmento promovido a legenda de uma era, “reuni fragmentos de uma narrativa visual e os condensei” e tal e tal e tal. Homem fragmento, mulher fragmento, criança fragmento. Tudo polinizado por muita esperteza/ironia. Uma idéia: mestrado, doutorado, pós. Conferem, ato contínuo, algum polimento à trajetória humana, agora não mais refém dessa contingência absurda que é a falta de sentido imediato. Filhos, netos, bisnetos. Viagens, cruzeiros, férias, filtro solar, cadeira, decoração, tamanho da TV, cor d...