Com ar pesaroso, o garçom aponta a
televisão e diz que a outra também foi mutilada, e por mutilada quer dizer que alguém ia
passando na rua e resolveu apedrejar os dois aparelhos, aparentemente sem razão
para tal, de maneira que agora o homem de cabelo cortado bem rente ao couro me
encara como se buscasse investigar na minha incipiente reação facial o quão fundo
aquela informação parecia ter batido, e qual não é a sua surpresa quando sorrio
e digo sem medo de ser feliz “as pessoas ficam realmente possuídas na festa de
Momo”, antecipando-me, portanto, à tentativa do garçom de talvez não procurar
culpados, mas de checar as consequências da narrativa que acabara de contar, e
foi nessa hora que, preferindo encurtar a conversa a continuar naquele jogo
de gato e rato, pedi um prato executivo de filé à parmegiana, que é o que
sempre peço naquele restaurante.
Desejo para 2025 desengajar e desertar, ser desistência, inativo e off, estar mais fora que dentro, mais out que in, mais exo que endo. Desenturmar-se da turma e desgostar-se do gosto, refluir no contrafluxo da rede e encapsular para não ceder ao colapso, ao menos não agora, não amanhã, não tão rápido. Penso com carinho na ideia de ter mais tempo para pensar na atrofia fabular e no déficit de imaginação. No vazio de futuro que a palavra “futuro” transmite sempre que justaposta a outra, a pretexto de ensejar alguma esperança no horizonte imediato. Tempo inclusive para não ter tempo, para não possuir nem reter, não domesticar nem apropriar, para devolver e para cansar, sobretudo para cansar. Tempo para o esgotamento que é esgotar-se sem que todas as alternativas estejam postas nem os caminhos apresentados por inteiro. Tempo para recusar toda vez que ouvir “empreender” como sinônimo de estilo de vida, e estilo de vida como sinônimo de qualquer coisa que se pareça com o modo particular c...