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Postagens

Sendo A igual a B e diferente de C

Um texto, como qualquer coisa na vida, assume caminhos diferentes do pretendido pelo autor. Agora mesmo alimentava uma intenção primeira, que logo transformei em parágrafo, que aos poucos foi tomando novo rumo, e esse novo rumo conduziu a outra ideia, que, se desdobrada, diverge da anterior e quem sabe até a confronta, de modo que é melhor manter tudo como está, a ideia inicial virginalmente intacta, e na sequência o germe da contradição. Trata-se menos do velho pacto da cordialidade do que de preguiça.  Sendo assim, fica fácil concluir que o que parecia caminhar para um lado dirigiu-se inconscientemente ao outro, e aqui percebo o quanto o inconsciente é uma faca de dois gumes, até de três. Olhando pra trás e vendo tudo que era ideia convertido em tentativa não saída do papel, tudo que era planejamento metamorfoseado em diferença, cotejando o antes e o depois e enxergando nesse exercício o “salto quântico” (oportunidade para usar quântico em qualquer contexto não deve ser de...

Baile animal

No que diz respeito ao retorno, à volta, ao regresso a essa etapa da vida anterior à de agora, mais que etapa, que embute a ideia de processo, um ponto isolado, considerado vagamente ideal, faísca que incendeia o momento suspenso para o qual se volta o olhar imperceptivelmente nostálgico. Sobre isso há menos que dizer do que sugere a numerosa quantidade de cartas, apelos, mensagens, postagens nas redes agrupadas sob a mesma rubrica sentimental, reincidentes tentativas de apanhar o tempo pelo calcanhar. Colhe-se muita frustração e tão pouco de felicidade. Quando a aventura caminha no sentido contrário do ritmo da vida, os frutos, quando vêm, vêm podres de beleza. E essa busca, se entende bem o que tem para falar a uma plateia difusa, é válida, obtém-se qualquer nada e qualquer nada às vezes é. Ontem, recorda já tarde, teve essa mesmíssima conversa consigo, é possível?, não é possível?, respondeu prontamente, nunca é, de modo que, à maneira sobrenatural, saiu...

Bolhas fantásticas e outras coisas

Publicado no jornal O Povo em 13/10/2012.  A capa falsa avisa que se trata de história sem fim – o meio, por sinal, também falta. O convite para seguir com os personagens é natural. Aliás, o princípio ativo das histórias reunidas em Foras da lei barulhentos, bolhar raivosas e algumas outras coisas (Cosac Naify) é sempre o mesmo: o escritor começa, os leitores concluem, caso queiram realmente alguma conclusão. Do contrário, contentem-se com estripulias insólitas, personagens escabrosos e fabulações de deixar os cabelos em pé. A partir do título, destaque-se, que, se reproduzido inteiramente, ocupa um parágrafo com folga: Foras da lei barulhentos, bolhas raivosas e algumas outras coisas que não são tão sinistras, quem sabe, dependendo de como você se sente quanto a lugares que somem, celulares extraviados, seres vindos do espaço, pais que desaparecem no Peru, um homem chamado Lars Farf e outra história que não conseguimos acabar, de modo que talvez você possa quebr...

Onde vivem os monstros?

Publicado no jornal O Povo em 11/10/2012.  Um dia perguntei à garotinha se acreditava em monstros. Vampiros ou lobisomens?, quis saber. O rigor taxonômico sobrenatural e o senso de diferenciação embutidos na questão me assustaram à beça, mas a dúvida tinha lá seu fundamento. Pode ser qualquer um, respondi. A menina continuou: não havia tanto tempo, vira uma criatura bem esquisita na própria casa. Onde? Na cadeira. Que cadeira? Aquela. Com o mindinho, apontou o móvel de plástico no quarto repleto de bonecas, algumas maiores, outras menores, mas todas de olhar vidrado. Ali?, duvidei. Sim, repetiu, bem ali. Estava sentado? Estava, e girava a cabeça. No sentido horário ou no anti-horário? A menina fez cara de espanto: o que é sentido horário, titio?  Duda tem seis anos. Seus filmes prediletos: Barbie Cinderela e Atividade Paranormal . Cores: rosa e lilás. Uma coisa que adora: histórias de terror cujos protagonistas, as bonecas desatinadas, caminham sozinhas e dão vol...

As faces rosadas do Face (isto é uma piada)

As fotos de crianças que substituem as dos adultos são um fenômeno de rede, cada usuário, assíduo ou não, adere à regra com bastante naturalidade, é uma onda, febre se considerarmos a rapidez e grau de participação das pessoas, afinal são tantos os perfis no Facecook e Twitter transformados em duto de comunicação direta com um passado glorioso, crianças loiras, morenas, gordinhas, magras, cabelos compridos, pernas tortas, o substrato do que somos hoje de repente se evidencia já nos primeiros anos de vida, o susto é inevitável, os meios como túneis do tempo, há quem peça mais que essa olhadela curiosa que todos estamos dispostos a conceder e concentre forças em aproveitar a oportunidade para fazer da alteração visual um jogo egocêntrico de perguntas e respostas, uma brincadeira de adivinhação cujo centro nervoso é a própria vida, não a minha ou a sua, mas a dele. Como fenômeno a onda das fotos de criança, que precede o Dia das Crianças e se justifica minimamente diante da curiosida...

Curiosity III

A natureza da sonda aproxima-a cada dia mais da natureza humana, entendendo que ambas constituem organismos diferentes, diferenciados segundo as leis da física e conforme os ritos sociais, e considerando que mesmo as formações distintas guardam íntima relação entre si, intrínsecas, as sondas, sobretudo as espaciais, mas também as de outra espécie, definem-se por curiosidade, atenção agudizada ao extremo, alta capacidade cognitiva, densidade analítica, processamento rápido de estímulos variados, frieza de cálculo, armadura ósseo-metálica adequada a suportar vasta pressão etc., trata-se, como visto aqui em outras ocasiões, de sujeito especial, cuja finalidade derradeira é nobre, sim, mas igualmente vã. Assim nos aproximamos enormemente das sondas, sobretudo das espaciais, que até o fim do ano terão se convertido irreversivelmente nas mais vaidosas entre todas as sondas, esperemos para ver, de qualquer maneira é uma felicidade que mesmo os mecanismos inanimados encontrem, numa terra ...