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As faces rosadas do Face (isto é uma piada)

As fotos de crianças que substituem as dos adultos são um fenômeno de rede, cada usuário, assíduo ou não, adere à regra com bastante naturalidade, é uma onda, febre se considerarmos a rapidez e grau de participação das pessoas, afinal são tantos os perfis no Facecook e Twitter transformados em duto de comunicação direta com um passado glorioso, crianças loiras, morenas, gordinhas, magras, cabelos compridos, pernas tortas, o substrato do que somos hoje de repente se evidencia já nos primeiros anos de vida, o susto é inevitável, os meios como túneis do tempo, há quem peça mais que essa olhadela curiosa que todos estamos dispostos a conceder e concentre forças em aproveitar a oportunidade para fazer da alteração visual um jogo egocêntrico de perguntas e respostas, uma brincadeira de adivinhação cujo centro nervoso é a própria vida, não a minha ou a sua, mas a dele. Como fenômeno a onda das fotos de criança, que precede o Dia das Crianças e se justifica minimamente diante da curiosida...

Curiosity III

A natureza da sonda aproxima-a cada dia mais da natureza humana, entendendo que ambas constituem organismos diferentes, diferenciados segundo as leis da física e conforme os ritos sociais, e considerando que mesmo as formações distintas guardam íntima relação entre si, intrínsecas, as sondas, sobretudo as espaciais, mas também as de outra espécie, definem-se por curiosidade, atenção agudizada ao extremo, alta capacidade cognitiva, densidade analítica, processamento rápido de estímulos variados, frieza de cálculo, armadura ósseo-metálica adequada a suportar vasta pressão etc., trata-se, como visto aqui em outras ocasiões, de sujeito especial, cuja finalidade derradeira é nobre, sim, mas igualmente vã. Assim nos aproximamos enormemente das sondas, sobretudo das espaciais, que até o fim do ano terão se convertido irreversivelmente nas mais vaidosas entre todas as sondas, esperemos para ver, de qualquer maneira é uma felicidade que mesmo os mecanismos inanimados encontrem, numa terra ...

Salvem o condutor

Há descompasso, que é descompasso? É desentendimento nos quereres e poderes, assim, pluralizados, de modo que impera agora sentimento desgovernado, dito desta maneira soa até leviano, bobo, ridiculamente infantil, mas o fato é que há sempre descompasso entre o querer nosso e o querer da realidade, sendo a última mais forte, incontornável e indiferente, só nos resta colocar a viola no saco e partir – partir ao meio, encerrando cada coisa em seu lugar, ou partir, encaminhando-se diligentemente à porta de saída, se bem me entendem há maneiras e maneiras de cotejar o desejo, confrontar a parede, nenhuma delas exige menos que a dor, nenhuma concede salvo-conduto, nenhuma abre mão de uma boa briga, a todos o meu muito boa sorte.

Curiosity II

A natureza da sonda, de qualquer sonda, espacial, gástrica, genética, de perfuração, não é tão diferente da nossa, projetada para coletar informações em ambiente estranho, por vezes adverso, resultado de anos de trabalho de grupo esmerado de cientistas, fruto de altos investimentos dos governos, símbolo de poderio que remonta à guerra fria, o que faz a sonda sonsa?, perde-se nos detalhes, dedica mais tempo às miudezas que à procura por formas de vida, no solo marciano por exemplo a Curiosity não uma nem duas, mas três vezes fotografou-se à beira de alguma depressão, penhasco, as fotos chamam a atenção muito mais pela beleza que pelo valor científico, à Curiosity curiosamente interessam bem mais os acidentes geográficos, a extensão das ruínas naturais, a profundidade dos cânions, sobre outro qualquer assunto de interesse coletivo, como a possibilidade de haver alguma reserva de água potável no planetinha, ainda não emitiu nenhum parecer a sonda Curiosity, fato que na comunidade científ...

Curiosity

O solo marciano - a superfície de Marte, para ser exato - tem consistência arenosa diversa, mesmo nas fotos em p&b fica patente que se trata de estrutura diferente da usual, a da Terra, para ficar em exemplo caseiro, caminhando por Marte à noitinha ou ainda nas primeiras horas do dia é possível distinguir certo nível de desmoronamento da rotina, as pegadas deixadas são quase sempre mais fundas e refletem o embargo que trazemos na alma, no corpo, nos pensamentos, sobre o qual não havia até então a menor desconfiança, logo é apenas quando de passagem por esse planeta agora visitado pela sonda Curiosity, que de curiosa não tem nada, que podemos entender a gravidade, o peso, a dimensão trágica das marcas no chão.

Lugar de gente feliz

Dez cigarros depois, o texto fica pronto, não era o que pretendia, nunca é, parece saído de alguma oficina mecânica forjada de última hora no canto mais escurinho do cérebro, uma nota informativa do quanto nos afastamos do que cremos ser quando as engrenagens da criação – expressão ridiculamente desgastada, eu sei – se põem em movimento. Trata-se da crônica da crônica da morte anunciada, desde o início da semana tinha essa certeza difusa de que as coisas não seriam fáceis nos próximos sete dias, de modo que tratei imediatamente de assumir a causa. Escrevo para tentar compensar algo, não essa bobagem da mãe ou qualquer outra, mas uma que só vou descobrindo à medida que escrevo. É um pedido de desculpas, caro leitor, desculpa, eu devo desculpas, estou aqui ouvindo música e pensando que talvez fosse tudo diferente em outra cidade, em outra época, em outra vida, a gente começa a escrever e acha que o ponto de partida fatalmente conduzirá ao de chegada, que é o mesmo que esbo...

Drama reptiliano

Toda semana um calango cai na pia da lavanderia, daí fico observando o calango tranquilo esperar que algo aconteça, uma mão amiga quem sabe resgatá-lo da superfície lisa, escorregadia, mas nada, o animal continua lá parado, à espera, a mão não chega, o gavião não chega e é impensável supor que a própria ideia de salvação seja algo presente na mente reptiliana dessa criatura, imagino que repudie profundamente o descuido ao atravessar uma fresta da parede, um desvão no telhado, o instante da troca de pernas que redundou na queda, o que significa em bom português filosófico um calango cair da parede?, sempre me pergunto, um bicho tão adaptado às escaladas de repente vem abaixo, tão próprio para trepar nos locais mais altos, mais difíceis, um montanhista de sangue frio, esperto, então lá estava esse calango estúpido de sangue frio, não transpirava, a vida para ele agora é feita de espera, momentos de angústia, indefinição, ali cercado pela brancura do falso mármore da pia da lavan...