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Mãos vs. Fenômenos

Há duas semanas li nos jornais da cidade que uma mulher vestida de azul, de aspecto ossudo, com ares de bruxa, uma mulher que poderia facilmente ser minha tia, os olhos igualmente azuis, mas um azul esmaecido, já perto de se apagar por inteiro, essa mulher veio do interior do estado, uma distância imensa, portanto, e, de frente para o mar, mexeu mãos e braços e sacudiu cabelos na tentativa de impedir que fôssemos todos varridos do mapa por uma onda gigante. Somos gratos a essa mulher que não foi paga para nos livrar da morte, do desterro, da abundância nociva da água, mas, pensando bem, por que essa mulher, que mora tão longe, quase noutro estado, por que razão ela resolveu, muito intimamente, que valeria a pena impedir essa onda gigante que chegaria à costa da capital do Ceará apenas em 2013, daqui a bons três meses, em dia, hora e data imprecisos? Não é uma pergunta retórica, apenas gostaria de entender as bobinas que movimentam a cabeça dessa mulher de natureza apar...

A onda vem vindo

Tinha essa ideia, que era mergulhar, tomar distância, saltar num pé, mergulhar e nadar para longe, para perto, nadar em muitas direções, era ótimo exercício movimentar braços e pernas em rápidas evoluções, a cabeça virando para respirar no momento preciso, a água salgada talvez não incomodasse tanto quanto o sol, certamente não incomodaria tanto quanto a falta de um incômodo autêntico, desses que dão vida a uma existência, um incômodo suficientemente doloroso, a dor enfim irremediada tem lá suas vantagens. Depois de nadar, a ideia seguinte era parar, como se pudesse, ondulante, puxar uma cadeira, uma mesa, ocupar um assento em alto mar e então esperar que o tempo passasse lento, enquanto no calçadão as pessoas se exercitavam de todas as maneiras, caminhando, correndo, fazendo flexão, patinando etc., uma mulher metida no short, nas costas a marca do suor, há sempre tantos modos de colocar o corpo em movimento e o calçadão é uma diversão democrática, imensa, ótimo para ficar...

A ideia que temos de diversão

Enquanto não vinha, enquanto esperava, pedi que piscasse, vamos, quero vê-la piscar, não uma nem duas, mas três ou seis ou nove vezes, regime de progressão assimétrica, era um desafio, era bonito vê-la enrugar o cenho, meninice evidente, “tô tentando, tô tentando”, tenha calma, fingia aperrear-se e ria, ria, é pra já, era noite, era frio, era quente, o tempo de setembro provando ser mais que um triângulo das bermudas perdido no calendário, um instantinho de felicidade dura para sempre, um instantinho de felicidade – olhos piscando – é maior que qualquer felicidade.

Vó, tô estourado

É inexpressiva a fatia da população cearense que percebeu, até agora, que o refrão “Vó, tô estourado e meu avô é o culpado” evidencia uma troca inusual de papéis familiares. Por trás da métrica livre dos versos do forró, há a sugestão de mudança nos costumes: sai a figura da avó permissiva, cuja proposta pedagógica, fundada no anarquismo e no princípio do laissez faire, laissez passer , tem o condão de mimar em excesso os (as) filhos (as) dos filhos (as), estragando-os (as). No lugar, entra o avô galhardo, desmantelado, raparigueiro, irrecuperável biriteiro. Esse avô hipotético de que fala a música não teve grande problema em se desincumbir da responsabilidade de ser o mantenedor de certa reserva ortodoxa no trato com os assuntos da casa. É o que é: agente da profanação dos hábitos, e se ressente de não ter podido aproveitar mais a vida. Propagandeada em outdoors da cidade, a canção Vó, tô estourado , da banda Forró Movimento, tira proveito dessa situação-limite. Murmurada ...

Ensaios de feitiçaria amorosa

Texto publicado no jornal O Povo de 15/9. Foto: Héctor Abad, jornalista e escritor colombiano. “Minha fórmula é confusa”, admite o narrador. “Constatei que em minha arte poucas regras se confirmam.” A arte de que fala é a da mezinha, da feitiçaria, do encantamento, e o público a que se destina é bastante específico: o feminino. Uma enorme bravata, claro. Anotadas à moda das obras de culinária, as sugestões do Livro de receitas para mulheres tristes guardam tanto de gastronomia quanto de simpatias românticas. E, se calham de interessar também a homens, é apenas porque o escritor e jornalista colombiano Héctor Abad, 54 anos, renova um gênero marginal: o do aconselhamento amoroso. De que modo? Misturando-o a outros temperos literários, como o romance epistolar, a crítica de costumes um tipo de autoajuda que se desmascara sucessivamente. Afinal, cada pequena poção consagra-se como correspondência íntima. O tom presumido é de quem elege aquela honestidade só franqueada aos amigos. Feita...

Vida em comum

Se você achar uma pessoa que consegue suportar (o que já é grande coisa), se esse alguém também conseguir suportar você (e tanta coincidência já chega a ser suspeita), e se em certos momentos você não só o suporta como queria tê-lo mais perto ainda, e por acaso sente sua falta quando ele demora, e ao vê-lo recupera sua alegria, então não tenha medo de se submeter a essa desolação da proximidade que é a vida em comum: é bem possível que você resista a ela. Héctor Abad em Livro de receitas para mulheres tristes (página 127).