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23H23

Então era assim que se sentia embora preferisse esconder, esconder era seu litígio particular, uma causa pela qual vinha lutando nos últimos anos, o batente contra o qual se projetava com força capaz de fazê-lo despedaçar-se não fosse ele um homem de a) coragem, b) amor e c) medo nas mesmas proporções. Então era assim que as coisas se davam no mundo, pensou, não exatamente lastimando que o presente houvesse ganho contornos indesejáveis, mas, de alguma maneira, prevendo, cedo ou tarde os destinos assumiriam aquelas cores e se se surpreendia era menos por ser fantástico. Era por ser óbvio. Quem sabe porque aguardasse desfecho semelhante ao que assistia de camarote. A vida passando como as vacas que desfilam nas ruas da cidade fantástica, enquanto ele, um homem jovem, não bonito, era como se olhasse sempre a mesma pintura, sem entusiasmo ou medo excessivos. Era disso, evitava transbordos. Recorda-se agora do dia em que subiu no muro da casa do amigo e viu a tia do amigo sentada no...

A Gangue do Exu-mirim

NOTA>>> Bom, esse texto, que prefiro deixar sem imagem, saiu na página semanal da Aerolândia no jornal O POVO , hoje, sexta-feira, dia em que perdi todos os arquivos do meu notebook, num claro indício de que coisas ainda piores podem ocorrer caso insista em sair de casa ou do trabalho diretamente pra outro lugar. O texto, um estudo rasteiro, fala das gangues de exus-mirins que aterrorizam os ricos e remediados de Fortaleza, mas sobretudo os altos remediados (classe média HD), visto que os ricos encontram não sem dificuldades alguns mecanismos para se prevenir do ataque cada vez dia mais frequente e pernicioso desses obreiros do terrorismo, os exus-mirins, que nada mais são do que meninos na faixa dos 10 aos 17 anos cujo corpo funciona prioritariamente a base de crack, Coca e 7Belo. Por favor, leiam o texto com atenção. Ele integra uma série de microensaios que pretendo publicar em livro qualquer dia. A GANGUE DO EXU-MIRIM: UM ESTUDO Francis Santiago defronta-se com o mistér...

Fazer andorinha: passo a passo

E se eu me chamasse Perseu e você Ester? Quase não consigo imaginar no que essas alterações resultariam. Talvez em nada, mas talvez tudo fosse diferente e nós, pense bem nisso, nós seríamos outros. As brigas que tivemos até aqui, inclusive a de ontem, respeitariam uma regra estranha, e cada detalhe seria novo detalhe, equivalente ao anterior em qualidade mas substancialmente distinto, o que nos levaria a pensar de maneira algo pessimista que não vale a pena persistir nas mudanças. Estaríamos apenas parcialmente corretos. Isso é menos um fato que uma crença. Duvido que as diferenças façam tanta diferença ao final, e digo isso sem pensar mais que dois segundos no assunto. Nunca fazem. Não é o mesmo que - “estamos no mesmo barco, relaxem”. Não o mesmo que admitir: tudo bem, não há desnível, vincos sociais ou ranhuras na superfície ideal. Vejam, como déspota esclarecido, não tolero o relativismo absoluto. “Queria ser tão claro quanto me fosse possível” era o que pediria se o calend...

Eu sou irônico

NOTA: o texto que segue foi orgulhosamente publicado na magazine Aerolândia. Dante Ferboa , o ensaísta cascatinha Não sei exatamente que parcela de culpa podem ter Holden Caufield, Homer Simpson, Ross Geller e Sheldon Cooper. Tampouco posso acreditar que houve um dia na história em que não tenhamos recorrido às ferramentas de que falarei como catarse vaidosa capaz de desarmar um interlocutor indesejável apenas esgrimindo-se um punhado de palavras de gume afiado. De todo modo, desconsiderando os efeitos positivos facilmente identificáveis, me pergunto com freqüência quando começamos a acreditar que a ironia e o sarcasmo são recursos infalíveis, a serem usados a cada seqüência de quatro frases como se fossem obrigatórios na vida do homem e da mulher modernos, urbanos, heterossexuais, brancos e católicos. E não encontro resposta. Duas semanas atrás, minha sobrinha de seis anos disse a sua mamãe que ela, minha irmã, precisaria dormir mais duas horas além do habitual caso realmente ...

O tipo da ideia descrente

Você está aí? Digitou, mas a janela continuou inerte, apagada, nada se movia, absolutamente nada sugeria que do outro lado houvesse alguém cuja ansiedade correspondesse em tamanho e intensidade a sua própria ansiedade, sendo assim considerou dormir, considerou preparar uma rodada de café, considerou engatar dois episódios do seriado, considerou mais coisas de que pode lembrar-se agora, mas certo mesmo é que nenhuma das intenções se concretizaria e ele seguiria parado à espera do que não viria, você está aí?, tornou a perguntar apenas – jurou a si mesmo – para se certificar, afinal era homem de ideias, valores e ideias, jamais envolvia-se por capricho no que quer que fosse, um trabalho, um namoro, um esporte, um projeto coletivo enfim, não era do seu feitio nadar na superfície enquanto alguns metros abaixo do umbigo as ondas agitavam-se lentamente antes de repercutirem do lado de cima, e, levados por essas mesmas trepidações rotineiras, havia corpos gigantescos de corais que debutavam...

Amazing stories*

* Clique nos links com o botão direito e peça, por favor, uma nova aba. Grata: a Gerência . Difícil mesmo foi conciliar aquele pensamento ainda no café, o pensamento que era o sonho. Zumbis , sexo, mais não lembrava, apenas que era acossada numa escadaria por uma mulher que tinha cinco ou seis pernas e que percorria rapidamente as distâncias sem saltar degraus, arrastando-se, e aquilo era a representação de tantos filmes horrendos que já havia assistido antes, sabia disso em fração de segundos, e essa consciência, diria uma superconsciência, era a melhor coisa dos sonhos, então havia um lado ruim, o medo, e um lado bom, o poder de fazer o que quisesse. Era como a moral da história no final dos desenhos animados dos anos oitenta, quando o Príncipe Adams voltava ao começo do episódio e, a partir de momentos tensos e representativos, explicava alguma doutrina, falava do bem e também sobre como o Esqueleto podia ser um cara com profundas carências afetivas recalcadas naquela relação, ...

Um problema

PESSOAS QUE VIVERAM processos semelhantes reagiram de maneira diversa, deixando para trás o que lhes desagravada, guardando o que fosse bom e, entre idas e vindas, seguindo em frente. É o que qualquer um faria. É o que deveria tomar como caminho óbvio, natural, o caminho do bem: viver, depurar, guardar, assentar, intervalo, e recomeça “viver, depurar” etc., e assim uma porção de coisas estaria finalmente resolvida e eu estaria livre para viver outra porção de coisas. MAS TENHO A IMPRESSÃO de que uma dessas etapas é defeituosa quando penso em minha trajetória particular, e não me refiro a toda trajetória, a estrada que percorri desde o nascimento até o dia em que completei 23 anos. Penso em um momento específico, rigorosamente situado no tempo e no espaço, um instante que identifico claramente quando me volto ao passado e percebo “vejam, lá está ele, vejam como sorri, é um encanto, concordam?”, e todas as minhas amigas balançam a cabeça afirmativamente, e mesmo minha mãe, que dev...