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O tipo da ideia descrente


Você está aí?

Digitou, mas a janela continuou inerte, apagada, nada se movia, absolutamente nada sugeria que do outro lado houvesse alguém cuja ansiedade correspondesse em tamanho e intensidade a sua própria ansiedade, sendo assim considerou dormir, considerou preparar uma rodada de café, considerou engatar dois episódios do seriado, considerou mais coisas de que pode lembrar-se agora, mas certo mesmo é que nenhuma das intenções se concretizaria e ele seguiria parado à espera do que não viria, você está aí?, tornou a perguntar apenas – jurou a si mesmo – para se certificar, afinal era homem de ideias, valores e ideias, jamais envolvia-se por capricho no que quer que fosse, um trabalho, um namoro, um esporte, um projeto coletivo enfim, não era do seu feitio nadar na superfície enquanto alguns metros abaixo do umbigo as ondas agitavam-se lentamente antes de repercutirem do lado de cima, e, levados por essas mesmas trepidações rotineiras, havia corpos gigantescos de corais que debutavam sentimentos, então pensava “tenho todo direito a nadar fundo, cada dia mais fundo”, todavia debutar sentimentos era dispendioso, admitia, vejam os casais, vejam os homens e vejam também as mulheres, os velhos e as velhas, como se convertem em sócios e de sócios em outra coisa e de outra coisa em outra em dois tempos, e no final temos algo ainda mais financeiramente extravagante, se me acompanharam.

Daí a preferência atávica por afundar, afundava a despeito dos conselhos, podia avistar amigos contentes, a superfície é lugar dos mais agradáveis, o vento sopra, há luzes refratando-se a toda hora nas nuvens e nas asas dos pássaros, o céu sempre tão azul riscado por alguma aeronave, e esse azul é de uma outra maneira que sob aquela vasta massa aquosa que existia por baixo, o azul de baixo é conforme são as coisas que tememos enquanto o azul de cima é como a vida é, mas sem os sustos, o que não o desqualifica, só o distingue, há azul de um tipo e azul de outro.

Tinha a exata noção das coisas falsamente equilibradas. Tinha isso, e tinha mais, tinha a esperteza de entender que, puxa, a mãe estava certa nas suas bobagens: as coisas deixam de ser quando não são mais. Mãe, quando as coisas não são mais? Você saberá, teria respondido não tocasse o telefone.

Você saberá.

E falava sozinho. Falaria por dias ainda, a janela era realmente essa remota possibilidade que irradiava para o que restasse de concreto, era uma janela à maneira do bloco animado pela falta de movimento, lembram-se do monólito sinistro de 2001?. Era a janela, não avermelhava, não esverdeava, sequer alaranjava, estava distante, noutro planeta, você está aí?, ainda perguntaria uma última vez antes de se convencer do óbvio, plim!

Podia estar. Como não podia estar. E essa certeza, de que havia duplamente se enganado, foi suficiente.

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