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Olha, é de graça

Uma brincadeira que venho descobrindo é que basta revisitar para perceber que tudo que a gente vem dizendo é de alguma maneira um contradito, ou seja, o avesso, mas o avesso piorado, um contrário falso ou falso contrário. Não o avesso, entendam, mas a falha, e quando digo falha meus olhos de repente acendem e em algum ponto indeterminado do corpo uma luzinha indica a porta de saída.  A falha, portanto. Não o avesso. Reler, ler, reler, eis a brincadeira, que não passa de, uma hora dessas, ainda deitado na cama ou de pé esperando a água do café ferver, espiar tudo que fizemos e dissemos e enxergar ali mais do que antes. Ou não enxergar metade do que antes parecia claro. 

Sustos

De repente começamos a falar sobre o que nos assusta. O mar, eu disse. Grandes animais, ela respondeu. Velhos e palhaços, devolvi; salas iluminadas.  Salas iluminadas, repetiu. Mas é claro que não acreditei e não apenas isso, entendi essa mentira ou exagero como uma senha para que a partir dali disséssemos a primeira coisa que viesse à cabeça, representasse perigo ou não, fosse absurda ou não, afinal o medo não carece justificativa, ele simplesmente é e continua sendo por muito tempo.  Abajures. Ri.  Abajures?  Tenho medo também de tampas de panela e jarras de suco pela metade e portas de guarda-roupa que não fecham direito e telas de computador que escurecem sem explicação. Uma série de eventos domésticos para os quais a física ou a matemática ou a biologia não tem uma teoria.  Fico terrivelmente assustada quando encontro meias pelo avesso e controle remoto sobre almofadas e cortinas que não esvoaçam ainda que esteja ventando. E ass...

Um pouco antes do café

Há dias em que a gente acorda e não reconhece o próprio rosto. A gente se olha, eu me olho, e o que vejo não parece em nada comigo, não sou eu, mas outro que, da noite para o dia, tomou o meu lugar, alguém com o mesmo nariz, a mesma boca, orelhas iguais, queixo, cabelos, entradas, olhos, o mesmo cinza ou o mesmo castanho e a mesma leve assimetria no alinhamento das sobrancelhas, uma mais baixa que a outra, e assim o corpo inteiro, ombros, mãos, joelhos, pés, e então lembro que mesmo o solado dos sapatos se desgasta de formas diferentes, um mais inclinado que o outro lado, e depois, como uma coisa se enrosca em outra, a boca. Quando quero estranhar-me, olho a boca, um lábio derreado, o esquerdo, sempre. Todo um lado esquerdo do corpo diferente do direito, toda uma banda, um hemisfério, como se duas notas musicais em tons diferentes ou lados de um planeta ou como se, no ato da montagem, o responsável houvesse se distraído e, ao perceber a besteira que tinha feito, soltasse: o...

Mulheres de Marte

O que faria em Marte em 2025 depois de uma viagem de sete meses sem fazer outra coisa senão pensar no quanto ainda falta para chegar em Marte? Lavrar o solo vulcânico de Marte, que trabalho árduo. Um dia quente em Marte.  A súbita suspensão dos ventos. Um fim de namoro em Marte. O luto em Marte. A fome, a sede, a doença, a morte, o parto a uma gravidade de quase 3m/s². A expulsão do bebê dificultada pela força da gravidade terrena dividida por três. No planeta vermelho a gravidade é uma inimiga ainda mais traiçoeira. Eu tentaria localizar o jipe-robô Curiosity no horizonte laranja de um fim de tarde. A lataria da sonda refletindo a luz intensa do sol. O chão esturricado do planeta e seus rios congelados quilômetros abaixo dos nossos pés indiferentes à presente de um bípede em fuga. Mas sinto que, embora próximo, Marte é um planeta distante, inalcançável. Está na zona habitável, mas é como se não estivesse. Marte é e não é. É hostil, e isso diz muito sobre o ...

Duas bolas de sorvete, por favor

Quando a gente quer opinião, no fundo, o que a gente quer mesmo? A gente quer elogio. Bom, você pode até disfarçar, negacear, esconder o jogo, mas é isso mesmo. Dificilmente a gente quer outra coisa além do elogio, e só de vez em quando consideramos a sério a hipótese de que a crítica vai contrariar nossas expectativas. Nessas horas, sentimos doer bem lá no coração aquecido do nosso orgulho.  Raramente estamos preparados para o pior: nosso trabalho é ruim, e nada do que dissermos ou fizermos vai mudar essa realidade. Dizer que foi o melhor que pudemos fazer não é uma desculpa. Dizer que foi o melhor que pudemos fazer é um tapinha nas costas que damos em nós mesmos para que possamos continuar a fazer o que temos de fazer. E isso não é pouco.  De modo geral, porém, estamos intimamente convencidos de que nosso trabalho, seja ele qual for, merece, senão todo o aplauso, ao menos algum, e se ele não vem, logo desconfiamos das intenções, das arapucas, da maldade atávica d...

Duas leituras

Faz tempo que não falo dos livros. Recomendo dois deles, um mais que o outro: o novo do Zambra, Formas de voltar para casa , e o outro de uma autora uruguaia, Inês Bortagaray, Um, dois e já . Os dois, por curiosidade, ambientados num tempo afetivo muito perigoso, o tempo da privação de liberdade, dos silêncios prolongados, dos sumiços, do sumidouro em que se transformou todo o continente. O primeiro é um típico exemplar de Zambra: ficção e não ficção se enovelando, exposição dos mecanismos que movimentam a construção do discurso literário, um relato que ilumina o outro, memória e amor. Autoficção? Desaparecimento, ditadura, amor, persistência, recorrência, o abismo entre gerações? Definitivamente, não faço ideia da matéria do romance.   Preciso reler, agora pinçando cada palavra da página separadamente e examinando-a sob luz forte, uma luz branca, como um cirurgião ou um mecânico ou um biólogo que contempla muito serenamente uma espécie marinha jamais vista ou um osso ...