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A cada 72 horas

Com que frequência o número 1111 aparece no seu dia?  Apenas nesse horário que antecede o almoço ou também um pouco antes de ir dormir, quando decidimos sobranceiramente começar uma atividade que nos tomará as próximas quatro ou cinco horas e ao fim da qual um rosto (o nosso?) vai se erguer de um livro ou da cavidade mais prazerosa do corpo (do nosso?) e se surpreender ao enxergar no espelho um sorriso (o meu?), não qualquer sorriso, mas esse que resulta do acúmulo de impressões ou fluidos – então, com que frequência esse número que esconde um sorriso que não esconde nada acontece? Alguém mais enxerga na repetição de padrões, não apenas numéricos, mas também olfativos e visuais, uma pista de que o cotidiano é regido por leis não escritas, ou seja, todo esse vasto panteão de fenômenos que escapam ao limitado poder de compreensão, à normatização e ao instituto da taxonomia radical? Entendendo por taxonomia radical a irrefreável tendência contemporânea a encontrar, entre t...

Poutpourri

A primeira vez que li “poutpourri” foi num encarte de CD da banda Cheiro de Amor que coloquei pra tocar quando tinha 14 ou 15 anos. Morava numa casa alugada num bairro bem distante de tudo. Logo três ou quatro músicas saracotearam no som da sala, uma emendada à outra. Foi então que tive a certeza de que uma onda jamais interrompe outra onda, pelo contrário, para que uma se forme, outra se quebra, ou para que duas se formem, três se esboroam. Rejeição e simultaneidade se dissolviam na espuma. Era tudo que o axé podia ensinar a um rapaz da minha idade, o que não era pouca coisa.   O poutpourri fazia coincidir, sem atritos, ou com pouco atrito, ou dissimulando eventuais atritos, músicas diferentes, que se justapunham, criando um vago sentido de unidade formal entre partes diversas. Ao camuflar início e fim das canções, suavizando o baque do desfecho e disfarçando o começo de um enredo, a manobra sugeria uma noção de continuidade, apesar das variações no curso dos acontecime...

Jogos

Em teoria, sabemos bem pouco sobre cada pessoa ou coisa e desse pouco quase nada resiste a um segundo escrutínio, o que não significa dizer que tudo se resume a esse doce elogio do inacessível, do imponderável, um jogo cujas regras, desconhecidas por completo, é conduzido às escuras por mãos fantasmagóricas. Não é isso. Acredito que uma vasta camada de tudo que existe dá-se a conhecer a quem, mediante esforço repetitivo, um bocado de paciência e humildade suficiente para reconhecer e explicar a essa plateia pronta a esquartejar que em momento algum teve a mais remota pretensão de ostentar uma vaga ideia sequer de superioridade, que o que se toma como superioridade no mais das vezes é apenas um modo escandalosamente tímido de se manter afastado. Então, acredito que uma vasta camada de tudo que existe expõe-se, nem que seja por uma fração irrisória de tempo, a quem resolve sair de casa e enxergar essa história toda, que acreditávamos maluca e desgastada, sob um ponto de v...

Em tese

Aos poucos você se enreda nessa tarefa penosa que é tentar encontrar uma fibra de sentido para os pensamentos, que dão voltas e se recusam a entrar na casinha número 1, preferindo a nº 2 ou a nº 3, quando não a nº 4 e só muito raramente a nº 5, essa espécie de casa de salvação, que existe apenas como hipótese, assim como os buracos negros e outros fenômenos astronômicos previstos em teoria mas jamais confirmados na prática, seja porque a realidade está aquém da teoria, seja porque está além – ou seja porque não está em lugar nenhum, carecendo igualmente de comprovação. De minha parte, acho pouco produtivo e até certo ponto inviável crer que essas coisas todas que vemos não sejam elas mesmas, mas outras coisas, sob as quais talvez existam ainda outras e dentro destas novas coisas, deus é que sabe.  Custo a acreditar que a realidade possa estar aquém de qualquer teoria. Se tanto, está no mesmo plano, e considerar a possibilidade remota de que algo imaginado encontre par...

Acompanhe em tempo real

Acima, grupo de alunos aprende o duro processo de acompanhar a vida em tempo real  As ações agora têm um predicado que busca dotá-las de um grau ainda maior de autenticidade.  Que predicado é esse? O que possibilita que narremos em tempo real, ou seja, o tempo que se desenrola à medida que o presenciamos. Veja em tempo real, acompanhe em tempo real, informe-se em tempo real, divirta-se em tempo real – esses enunciados têm em comum o fato de convocarem a um modelo específico de participação.   O que há, porém, nessa sobreposição, porque se trata realmente de uma, que provoca tanto fastio? Ou não é fastio essa sensação que se segue a toda exposição excessiva e frenesi digital?O que temos feito de errado? A impressão é que eliminamos etapas de um processo cujo resultado final era a criação de noções e conceitos a partir de experiências que costumavam exigir maturação.  As opiniões estão aí, agora como subproduto do fazer/pensar simultâneos e não de...

Desilusionismo

Li uma reportagem que chamou a minha atenção menos pela tragédia que apresentava ( pessoas morando nas ruas ), o que me envergonha, do que pela súbita curiosidade que a expressão “desilusão amorosa” despertou, piscando como uma luzinha frenética no painel de lugares-comuns.  A desilusão amorosa é o comportamento ou o efeito naturalmente daninhos, é a conclusão de um processo em que ao menos uma das partes, querendo ou não, coloca a viola no saco e vai em busca de outra coisa porque já não é possível conviver com esse outro cuja imagem se estilhaçou em mil e um pedaços e agora cada pedaço é diferente do conjunto harmonioso que resplandecia na cama às primeiras horas do dia. Nada ali é familiar, e o sentimento é de total desterro.  A desilusão é o fim da picada, e não custa lembrar que o fim da picada é o ponto derradeiro além do qual a mata é tão cerrada que os golpes de facão já não são capazes de abrir caminho.  Desiludir-se é estar além dessa fronteira e,...