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O erro dos gregos

Acima, família tipicamente grega festeja chegada triunfal do iogurte homônimo às prateleiras dos supermercados no mundo todo, gesto interpretado como evidente e indubitável pujança e vitalidade gregas O erro dos gregos foi ter permanecido tanto tempo sustentando uma imagem que não correspondia à realidade, ou seja, estavam posando de paradigma, esteio moral, âncora existencial e outras metáforas que, traduzidas, tomam esse povo como uma espécie de ápice especial da civilização e, sem medo de exagerar, culminância jamais experimentada por todos que lhes sucederam em escala cronológica. O erro dos gregos foi ter nos feito acreditar que, sim, tinham resposta pra tudo e que não, não iriam nos dar essas respostas de mãos beijadas, para tanto precisaríamos trilhar nossos próprios caminhos etc., dando com a cara na porta nove a cada dez vezes. O erro dos gregos foi não exatamente mentir, mas rir da nossa cara enquanto mentíamos para nós mesmos, crentes nessa verdade inaugural de...

Tramando o fim da trama

Rodrigo Gurgel na FSP hoje.  Trecho: " As Pequenas Mortes  sintetiza, assim, parcela da narrativa contemporânea: aferrada à valorização extrema do 'eu', incapaz de referir-se ao outro --ou, quando o faz, transformando-o em mero objeto--, preocupada em realimentar seu niilismo, adepta de fórmulas de expressão herméticas e certa de que vocabulário chulo e malabarismos linguísticos podem substituir uma trama". Acesso   aqui. 

Que cidade é essa?

O que é uma cidade? Desculpa, não devia ter perguntado isso. Cidade é tanta coisa. A imagem que temos dela, nós, nativos, a imagem que fazem dela, eles, forasteiros, a imagem que resulta da fricção entre as duas imagens, a de dentro e a de fora, mais uma terceira que ninguém sabe ao certo qual é, a imagem que os governantes vendem na publicidade oficial, que parece sempre muitos degraus acima da que vemos diariamente nas ruas,  Todavia, essa imagem diária também é precária, falsa, incompleta, como já apontava Calvino naquele livrinho que todo mundo cita como epígrafe nos trabalhos acadêmicos, As cidades invisíveis , e mesmo as tantas cidades invisíveis, postas lado a lado ou formando círculos concêntricos, não definiriam o que é a cidade, nem Fortaleza nem qualquer outra. Fato é que há sempre uma batalha, ora subterrânea, ora explícita, que se trava em torno da construção de uma imagem de cidade – falo uma, mas sei que são muitas e contraditórias e que no final é q...

Boletim final

Algumas teorias conspiracionistas atribuem a Leonardo Da Vinci a paternidade da invenção do corpo perfeito da barata  A barata desapareceu por completo, suspeito que não tenha resistido aos ferimentos e morrido atrás do fogão ou simplesmente conseguido escapar furtivamente por algum vão obscuro do encanamento. É o que costumam fazer quando tomadas de desespero ao verem suas vidas ameaçadas por qualquer coisa, uma sandália ou um predador, dá no mesmo. Essa pode ser classificada como a reação natural de todo ser vivo destituído de uma carapaça e colocado eventualmente sob ameaça, real ou imaginária: enfiar-se em alguma parte do sistema de esgoto e de lá sair apenas quando nada mais do lado de fora indicar a presença aterrorizante da morte. Por algum motivo, fomos programados com esse instinto que nos leva a evitar a própria dissolução física a todo custo. De modo que, agora, apenas duas perguntas sobrevivem à ausência da barata. Uma é: pode o animal – vou chamá-lo a...

Boletim atualizado

A barata finalmente resolveu se esconder atrás do fogão e de lá não deve sair até as primeiras horas da manhã, quando parecerá morta aos olhares leigos mas estará apenas aguardando o momento oportuno para escapar definitivamente.    Ao menos é assim que costumam se comportar em situação semelhante, afirmam os sites especializados em caça à barata que pesquisei há meia hora. A dúvida agora diz respeito ao que é mais prudente, fechar a porta do quarto de modo a impedir que até mesmo o plasma fantasmático seja capaz de atravessá-la. Ou proceder a novas buscas, cutucando desvãos insuspeitos, borrifando perfume (baratas detestam perfume) na parede, fazendo soar algum tipo de despertador intermitente etc. Fortaleza, 3h54, maio, 2013 – a dúvida persiste.

URGENTE - boletim da madrugada

Provas cabais de que chutar baratas dá azar, essas pessoas resolveram desrespeitar o tirano resiliente e agora precisam correr até os pulmões bombearem ácido de bateria, como diria Tyler Durden. Lembram dele? O cara que enxertava pintos nas sessões de cinema infantil. Sob todos os aspectos, uma lenda viva da cinematografia. Enfim, fica a dica.   Salvo por extrema necessidade, nunca chute uma barata no caminho de volta do trabalho. Por que digo isso? Porque, caso insista em ignorar o conselho de quem já chutou barata no trajeto trabalho-casa e se deu muito mal, coisas muito ruins esperam por você no quarto de madrugada, e não estou falando de fantasmas ou meninas possuídas por entidades diabólicas ou ainda bonecas animadas com poderes telecinéticos. Nada disso. É algo de fato muito ruim, algo que pode facilmente ser classificado como o seu pior pesadelo.   Quando menos esperar, uma barata, igualzinha à que ficou estatelada na calçada do outro lado da rua a...

É teste pra cardíaco, amigo

Fim de férias. É tempo de adaptar o tempo ao trabalho, o trabalho à vida, a vida às necessidades, as necessidades às vontades, as vontades aos desejos, os desejos às energias, as energias às prioridades, as prioridades aos objetivos, os objetivos às metas de longo prazo, as metas de longo prazo às de curto prazo e ambas às de médio prazo, todas as metas à lista de tarefas redigida ainda no começo do ano, o começo do ano ao meio do ano que já se avizinha e este ao restante do ano, que não demora a chegar. Tudo implicando tudo, escolhas modificando escolhas e por aí vai.   Voltar das férias é como regressar de um planeta cujas leis diferem em absoluto das que vigem no restante do universo, pulamos para encolher e nos agachamos para saltar, à sombra faz sol e chove debaixo da cama, é tudo escandalosamente estranho, um universo antinatural, ou seria o nosso universo cotidiano o antinatural e não esse de que voltamos cheios de uma energia bizarra? Bizarra no sentido...