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Bastidores epistemológicos e o poder esotérico da faxina

É interessante, no mínimo, a genealogia de uma faxina doméstica, que por vezes se estende também a outras áreas da experiência, tornando-se nessas ocasiões uma faxina também das ideias, retirando pó dos móveis mais antigos do inconsciente, alvejando ou simplesmente polindo alguns poucos vãos antes empesteados e sem tanto uso. Falo besteira e tergiverso ao mesmo tempo. De fato a faxina, como começa e termina e tudo que acontece entre os dois polos, é um objeto de estudo esplendoroso, para usar um termo de que gosto muito (adoro a pobreza material do sufixo “oso”, que, em última instância, dá a ideia de abundância).   Embora negligenciada, a faxina presta-se a análises substanciosas sobre como organizamos nossas vidas, a saber, o conjunto mais ou menos homogêneo de interações solitárias ou não que ativamos a cada novo ciclo de 24 horas e que envolve muitas entradas e saídas, personagens, sentimentos, falas e arranjos afetivos. A faxina, o faxinar, os objetos que ...

Círculo do Pensamento (CSU de Messejana)

Nova reunião do Círculo do Pensamento (CSU de Messejana) marcada para amanhã, em local e hora a serem devidamente combinados com os diligentes signatários. Estão na pauta:  1. O que fazer agora que nada foi feito e as coisas parecem se distanciar cada vez mais da ideia que tínhamos do que seriam caso tudo saísse conforme o acertado, sem considerar, entretanto, a possibilidade de que, movida uma única peça lateralmente, não importasse qual lado fosse, os planos desenhados com rigor em cartolina e caneta pincel estariam em perigo e, sendo honesto, talvez até mesmo irreversivelmente fracassados, irrecuperáveis, destinados a descansar no cemitério das ideias que tinham tudo para dar certo mas não deram?  2. A saída é colocar-se adiante dos fatos, antecipando cada lance do destino, mas sem adotar postura afoita - assim recomenda o grão-duque do Círculo do Pensamento, o nada popular 8794, jovem de 19 anos cuja vida social é a mais recatada possível. Reiterando: o conselho d...

Um pouco antes da hora

Trecho da crônica que sai amanhã no jornal O Povo .  "Entre 21h e meia-noite, o que fizemos, como previsto, não foi exatamente uma aventura: a) comer mais cachorro-quente, b) tomar uma Coca trincando de gelada, c) esbarrar nos patinadores, d) ser engolfado pelas turmas arrastando crianças suadas que escapavam dos ônibus em direção à praia já cantando com entusiasmo os sucessos de Luan Santana, e) tentar usar o banheiro químico (sem sucesso), f) decidir entre ficar mais perto do palco ou da ponte, com larga vantagem de votos favoráveis à última, g) escolher uma pedra cuja superfície fosse plana, sem tanta rugosidade e alinhada ao solo o bastante para que pudéssemos sentar, h) comprar pipoca (excelente ideia), i) lamentar a falta de uma máquina fotográfica mas não saber explicar por que é importante ter sempre uma máquina fotográfica a tiracolo, j) imediatamente esquecer da máquina e até festejar que não tivéssemos uma, l) relembrar, mês a mês, os principais acontecimentos do a...

Gordura na barba

A menos de duzentas páginas do fim, 167 pra ser preciso, olho pro Barba ensopada de sangue em cima da mesa e penso dois segundos ou três se estiver com tempo livre. E logo vem o desejo de continuar a leitura, o que acaba se mostrando o grande diferencial do romance (me permitam livre acesso à expressão “grande diferencial”, que utilizarei novamente a seguir), entendendo como grande diferencial a capacidade de envolver de tal modo os leitores nos acontecimentos narrados que, uma vez fechado o volume, as possibilidades da história ecoam de muitas maneiras na cabeça, o que, dada a baixa potência dramática de muita coisa que li em 2012, acabo por considerar sim uma qualidade, talvez não a principal para a crítica especializada, mas uma qualidade sem a qual muita coisa boa por aí acaba se tornando... chata. Digo tudo isso sabendo que posso estar enganado. Ainda resta pouco menos de duzentas páginas e em pouco menos de duzentas páginas qualquer livro extraordinariamente promiss...

Mannacorda

Ontem demos uma volta na avenida depois de uma pizza e foi assim como sempre é, curioso, no mínimo, tantas pernas longas e curtas, cabelos, o calçadão da praia inteiro cheio de turistas, muitos sotaques, mas quase todos brasileiros, um esgoto aqui, outro ali, um acarajé, um brinquedo que gira colorido em disparada, bolhas de sabão, um prédio novo que se espicha além das nuvens, uma rede que balança na varanda solitária. Então a gente pensa puxa mas seria legal ver tudo da varanda, e tudo está no contexto da queima de fogos e da festa de réveillon. É o tipo de pensamento que um casal jovem ainda não estabilizado financeiramente tem, mais um delírio futurístico do que uma aspiração genuína.  Não tem ninguém na varanda, eu digo, as pessoas que poderiam estar nessas varandas na verdade estão bem longe, nos EUA, na Europa, talvez, é, é, ela concorda, mas lá não está em crise? Um pouco adiante uma roda observa atentamente algo que se movimenta com rapidez no centro da ro...

Pensem nisso

Adendo ao comentário sobre o artigo do professor Daniel Lins: o que me surpreende é o raciocínio segundo o qual as pessoas – as massas, para usar o termo certo - são barbaramente infantilizadas por um Estado corruptor com intenções malévolas que reproduz estratagemas parecidos, se não por seus atos de crueldade, ao menos pela falta de uma política democrática que ofereça a opção de escolha, aos do nazismo. Todavia, o contrário jamais é considerado como hipótese plausível.  Quando falo o contrário, estou imaginando as massas barbaramente infantilizadas por uma casta de intelectuais cujos atos, de tão nobres em intenção, acabam por subestimar ou mesmo suprimir a capacidade de escolha das pessoas, no que também se aproximam perigosamente do nazismo. O que nos faz lembrar de  Laranja mecânica , que conta a historinha de um jovem delinquente às voltas com o autoritarismo do Estado e da sociedade. Nos dois casos, a pretexto de melhorar o jovem Alex, os vetores di...

VISHNU, meu deus

VISHNU – preguiça de colocar os pontos entre cada letra (sem afetação, é preguiça mesmo, embora tenha gasto mais tempo e energia explicando do que se tivesse colocado logo os pontos que separam cada letra do nome, que, corretamente grafado, fica assim: V.I.S.H.N.U ). Uma avaliação rápida da graphic novel .  Desenhos primorosos, argumento frágil, cheio de clichês do sci-fi . Personagens sem carisma, enredo pouco envolvente. Desfecho previsível. Superconsciência virtual emerge sem explicação, liberta a sociedade dos grilhões do consumo, é ameaçada pelo governo central, responsável por dividir a administração do planeta em nove áreas. VISHNU, a superconsciência cuja manjedoura é o laboratório Limbo 5, bastante parecido com o Cern, que brinca de colidir átomos enquanto flagra o rastilho do bóson de Higgs e de outras partículas subatômicas do mundo pop da física. Com mensagem pacifista e revolucionária, VISHNU logo começa a incomodar a gerência dos Nove. ...