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Mannacorda




Ontem demos uma volta na avenida depois de uma pizza e foi assim como sempre é, curioso, no mínimo, tantas pernas longas e curtas, cabelos, o calçadão da praia inteiro cheio de turistas, muitos sotaques, mas quase todos brasileiros, um esgoto aqui, outro ali, um acarajé, um brinquedo que gira colorido em disparada, bolhas de sabão, um prédio novo que se espicha além das nuvens, uma rede que balança na varanda solitária.

Então a gente pensa puxa mas seria legal ver tudo da varanda, e tudo está no contexto da queima de fogos e da festa de réveillon. É o tipo de pensamento que um casal jovem ainda não estabilizado financeiramente tem, mais um delírio futurístico do que uma aspiração genuína. Não tem ninguém na varanda, eu digo, as pessoas que poderiam estar nessas varandas na verdade estão bem longe, nos EUA, na Europa, talvez, é, é, ela concorda, mas lá não está em crise?

Um pouco adiante uma roda observa atentamente algo que se movimenta com rapidez no centro da roda, se fosse noutro bairro diria na hora putz morreu alguém, mas a roda gargalha, a roda curva o próprio corpo, ruboriza.

É uma roda feita de muitas camadas, a primeira, a segunda, a terceira e uma quarta mais volátil, cheia de hiatos, vãos que são ocupados de tempos em tempos, de modo que, ao passarmos, vemos por uma brecha o que exatamente as pessoas estão olhando. Daí que surge o quebra-coco, pensava que era o Robertinho do Chicote mas não, e o quebra-coco não faz outra coisa além de quebrar-coco, paciência, o quebra-coco está encharcado de suor e muito vermelho e usa aquela faixa preta em volta da cabeça e roupas de camuflagem do exército ou coisa assim. 

Seguimos em frente, passamos pela sorveteria mas hummm... a barriga ainda está cheia, tu quer uma bola? Comer agora seria na verdade muita gula, por um segundo penso em ir até lá. Descarto a possibilidade imediatamente, coloco na balança os dois cenários e acabo optando por aquele em que não vomito todo o conteúdo do estômago.

Um carro anunciando show de humor emparelha com a gente na beira mar engarrafada, continuamos assim lado a lado por alguns minutos, meia hora, quarenta minutos, das caixas de som do veículo uma propaganda em volume inaceitável convida a todos para assistir uma imperdível apresentação no teatro do humor, a voz que promove o evento enfatiza sempre a palavra humor, alguns turistas reprovam o reclame com caretinhas, principalmente os mais jovens, os mais velhos parecem alimentar algum tipo de curiosidade em relação a esse universo circense que recobre a cultura cearense como uma dessas epidermes de filme plástico que impedem os alimentos de estragarem na geladeira.

Não desistimos. Um homem sem camisa passa, é branco e não tem tatuagem, caminha ao lado de outro cara mais magro, a gordinha que vende pacotes de viagens para o Cumbuco – não tenho certeza agora se era pra lá mesmo - faz algo que me surpreende, ela gira 180° sobre o próprio eixo enquanto varre, feito um scanner, cada centímetro quadrado do corpo masculino, é baixinha, gorda e tem um bronzeado irregular, e se digo que é baixinha e gorda é porque decidi encarar o desafio de admitir publicamente que tamanha demonstração de autoestima e consciência do próprio desejo me causou espanto.

Escuto quando diz “não gosto de homem branco, mas esse daí até que vale a pena”, fazendo rir os dois moleques que estavam ali com panfletos estendidos ao lado, interpreto as risadinhas sacanas como “essa gordinha fode pra caralho” ou coisa assim.

Pouco depois, um cara com fones enormes nos ouvidos passa num trote elegante rente à avenida, é moreno, estatura mediana, corpo atlético, veste camiseta regata e calção, tem uma barba rala e, enquanto desenvolve a marcha em passos rápidos, mas não apressados, vasculha o interior dos carros que se arrastam, me pergunto se aquela estratégia de flerte é deliberada, uma ferramenta desenvolvida cuidadosamente após muito treino, ou apenas consequência de uma atitude corriqueira que vem sem avisar, algo que, por natureza, pertenceria à mesma família de “olhar pra alguém no ônibus lotado”.

A pergunta requer alguma reflexão, e reflexão normalmente requer tempo, tempo é algo que não temos ali, tão perto já do trenzinho da alegria, cuja fila começa a se formar bem antes do ponto de subida, em frente a uma área de exposições de quadros e aqui, antes de prosseguir falando do trenzinho da alegria, que, em si, reivindica uma análise particular, mais disposta a revirar o fenômeno do avesso, me detenho nos motivos das pinturas à venda sob as copas das palmeiras.

Na verdade não há nada de especial nas pinturas, que são bastante comuns, decalques da flora e da fauna locais que ganham forma em pinceladas grossas de cores berrantes. Elas apenas atraem a atenção de um modo curioso, não tenho nem certeza se de um modo curioso, enfim, o fato é que, ao tentar investigar os sentimentos, principalmente os sentimentos, a reação divide-se entre a tristeza e a condescendência.

Uma fileira de casinhas pequenas empoleiradas em algum morro - formação urbana pouco comum na cidade; um corpo de mulher bronzeado, ela está de bruços, mas a leve inclinação das costas sugere que a qualquer momento pode se erguer apoiada num dos cotovelos e olhar pra trás, encarando o espectador (caso fizesse isso, talvez lhe ocorresse perguntar por que tanto olham a marca de biquíni fio dental serenamente descoberta, um triângulo de alvura que começa no cóccix e termina em algum ponto indeterminado no meio das nádegas, dois gomos superlativos e tão simétricos a ponto de, medidos na diagonal, o resultado obtido não poderia ser outro senão o número de ouro da natureza).

Além do corpo nu e das casinhas, há também mais casinhas em cores diferentes, azul, amarelo, verde, vermelho, lilás, uma jangada repousando num fim de tarde pré-Instagram, uma palmeira, os motivos, como veem, variam do telúrico ao erótico, que, ao menos no Ceará, costumam se confundir.

Quanto ao trenzinho da alegria, há tanta coisa a ser dita que o mais prudente seria guardar tudo pra outra hora, outro dia, e é exatamente o que farei depois dessa ginástica visual. Antes do fim, perguntei “se a gente fosse turista, tu acha que a gente beberia nesse bar?”, e apontei um bar cheio de turistas, um bar tão desagradavelmente turístico, e por desagradável entendam o que quiserem.

A reposta foi “talvez”, no que concordei imediatamente.

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