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Cenas de Natal

5 Falta a quinta cena para terminar, mas o que será a quinta cena? Não chegou a considerar uma pentalogia de Natal como hipótese plausível, era trabalho para outra hora, não agora, não no dia vinte e quatro, a pouco tempo da ceia, todas as comidas postas em travessas, os dois banheiros da casa disputados a tapa, a mãe correndo pra lá e pra cá. A quinta cena seria então a que vasculha no ano inteirinho uma nesga de sentido, fiapo de algum enredo? Uma narrativa de 365 dias? O fio escorregadio da meada de repente enrosca-se nas pernas. "Esse cara sou eu", escuta em todos os lares, esse cara sou eu, uma admissão de culpa? Pensa no que pode querer dizer tal frase: esse cara sou eu. Esse, pronome demonstrativo, cara, substantivo, sou, verbo, eu, pronome – as quatro palavras juntas ecoam algum tipo de consciência dos limites do homem, limites físicos e psicológicos, esse cara, não qualquer um, mas esse, este que fala, sou eu, a súbita autorreferência desconcerta o i...

Cenas de Natal

4 O poeta digita, o poeta apaga, o poeta digita, o poeta apaga, e assim permanece durante boa parte da manhã, escrevendo e apagando sem encontrar a palavra certa, aquela que reluz além da mediocridade dos verbetes disparados nas redes sociais, o poeta julga-se verdadeiro, autêntico, paladino do desconcerto, alguém talhado verdadeiramente para ordenar o caos na cidade e, de passagem, espetar o dedinho buliçoso na ferida. Não há dia que não seja brindado com alguma arapuca montada pelo poeta, que é ferino, rápido e ataca furtivamente, não tem autocensura, às escondidas ri das estocadas, crê-se incumbido da nobre missão de desmascarar as banalidades, a mis en scène , detona reputações com um estalar de indicadores e, montado no Scadufax que é seu fraseado explosivo, distribui monossílabos gangrenados, defenestra inimigos, diverte-se à beça.   O poeta gargalha, toma um gole de vinho ou do que quer que esteja bebendo, coloca uma música agradável na vitrola recém-comprada, ...

Cenas de Natal

3 Encosta no caixa, veste camisa polo verde, calça jeans e sapatênis, usa barba rala, óculos, tem musculatura entre flácida e devedora de alguns meses matriculado na academia do bairro, carrega um peso nas costas mesmo quando não há peso algum nas costas. Sorri, a atendente sorri, ele sorri novamente, a atendente concentra-se nos números do cpf, pede que repita por favor os números para confirmar, ele repete, confirmado, confirmado, senhor. Em seguida quer saber onde pode embalar tudo pra presente, é logo ali, ele então leva até a moça encarregada de embalar tudo para presente um disco do Marcelo Jeneci, um livro da Clarice Lispector, um guia de tiradas do Snoopy sobre assuntos diversos como amor e felicidade (tenho um em casa) e um exemplar de O pequeno príncipe . Chega minha vez, então digo boa tarde, ela sorri, eu sorrio, pede número de cpf, sopro meu código em baforadas de três dígitos, a atendente pronuncia meu nome a meio caminho da pergunta e da constatação. ...

Cenas de Natal

2 Um homem na livraria diz é preciso falar com segurança e ler vagarosamente, sopesando cada palavra que ele – ele, no caso, o escritor – diz, registra, considero, e aqui o homem tosse levemente, considero um dos maiores historiados do séc. xx, um homem notável, o historiador, continua o homem na livraria, este livro em particular é um dos melhores, uma peça para ir sendo vencida aos poucos, o homem a quem se dirigiam as palavras mantém-se eternamente fechado em copas, como se diz, dou a volta e sento na cadeira, peço café e um roast beef, é um sanduíche de que gosto especialmente, leva carne, cebola, molho e outros ingredientes cuja identidade o paladar míope não discerne, então os dois homens caminham devagar até o café, puxam duas cadeiras e se sentam na mesa ao lado, seguem falando sobre o historiador e todas as palavras importantes que ele deixou como herança para nós, que estamos aqui, sentados, à espera do café, da bolinha de sorvete com calda quente de chocolate e da conta...

Cenas de Natal

1 Muita gente na rua, crianças, mulheres, não há homens pedindo esmolas nas esquinas da cidade, apenas  mulheres e crianças. Uma dessas mulheres carregava uma criança no colo. A criança era gorda e ria muito porque estava molhada, tinha sido banhada há pouco, e ria porque faz calor na cidade, principalmente entre os carros, no asfalto, faz calor. No carro o ar-condicionado está ligado. A criança, um recém-nascido, gargalha, não apenas ri, mas gargalha, é uma cena bonita de Natal, a mãe pede esmolas, a criança ri, não sabe que gargalha enquanto a mãe pede dinheiro batucando de leve no vidro dos carros. O pai diz quando ela passa: não veio aqui, se tivesse vindo teria dado um dinheiro, e fica olhando no retrovisor depois que a mulher com o bebê gordinho no colo desaparece entre os carros, no meio da avenida. Faz calor, e o ar está ligado. 

Mata de transição

Faz tempo procuro uma palavra, pra ser preciso desde a hora em que acordei hoje, umas 10h20. Sei o que deve dizer, os contornos, a intenção, conheço o peso, a forma, o tempo necessário para pronunciá-la devagar, a palavra não é um completo mistério, portanto. Familiar, há quem a utilize com frequência além do normal, é bonita, mesmo vulgar, eu mesmo me satisfaço com a pouca recorrência com que surge em tudo que escrevo, nem rara, nem popular, está ali. Uma palavra assim, significa variação, dubiedade, presença ao mesmo tempo de elementos diferentes, existe na fronteira, no exato limite entre duas coisas há uma área cujas propriedades é guardar características de ambos os lados, zona de alteração, espécie de mata de transição, camada que liga e comunica dois pontos distintos, a ideia geral da palavra é essa. Quase nuance, mas não é nuance, ou é? Nunca pensei que fosse tão difícil, outro dia passei horas com a palavra zunindo ao pé do ouvido, lá e cá, usava-a a p...

A santa marcha

O que nos leva a pensar no heroísmo, em Seya, Daniel, o vingador do futuro, o truculento He-man, Bob, o solitário Logan, uma infinidade de personagens cuja marcha até a superação dos pequenos fracassos é marcada por muito sofrimento, quase abandono do ringue, revisão de princípios, apelo aos amigos, à família, cara no chão, dor, lágrima, o sentimento total e irreversível de que o mundo não foi feito pra gente. Até a chegada do herói sem nome, sereno, violento. Uma jornada e tanto: como Daniel, vindo de outra cidade, igualmente desconhecida, à procura de uma vida tranquila, o que fica pra trás é apenas uma intuição, corolário de violências anteriores. O herói sem nome agride com martelo, faca, o salto da bota de caubói, suja-se inteiramente com o sangue do oponente de rosto difuso, caminha lento, abre a porta do carro, engata a marcha de força e vai embora. Herói sem território, sem família, vítima da frouxidão dos vínculos. Mais um coração atordoado no mundo, barqu...