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Cenas de Natal

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O poeta digita, o poeta apaga, o poeta digita, o poeta apaga, e assim permanece durante boa parte da manhã, escrevendo e apagando sem encontrar a palavra certa, aquela que reluz além da mediocridade dos verbetes disparados nas redes sociais, o poeta julga-se verdadeiro, autêntico, paladino do desconcerto, alguém talhado verdadeiramente para ordenar o caos na cidade e, de passagem, espetar o dedinho buliçoso na ferida.

Não há dia que não seja brindado com alguma arapuca montada pelo poeta, que é ferino, rápido e ataca furtivamente, não tem autocensura, às escondidas ri das estocadas, crê-se incumbido da nobre missão de desmascarar as banalidades, a mis en scène, detona reputações com um estalar de indicadores e, montado no Scadufax que é seu fraseado explosivo, distribui monossílabos gangrenados, defenestra inimigos, diverte-se à beça.  

O poeta gargalha, toma um gole de vinho ou do que quer que esteja bebendo, coloca uma música agradável na vitrola recém-comprada, aciona uma janela, telefona, cutuca, articula, funga no cangote da morena, o poeta embevecido acredita-se capaz de erguer apenas com palavras uma rede patibular destinada a todos aqueles cuja imperícia ou desinteligência o incomodam dia após dia.

Cruel, é uma atividade incansável para a qual o poeta, mesmo nonagenário, encontra sempre algum tempinho entre as colheradas de mingau.

Um raro exemplar de humanidade, dizem os amigos. Um espírito de porco, apunhalam os poetas menores, alvos corriqueiros do poeta maior.

E o que faz o poeta? O verdadeiro poeta, o homem por trás da higienização das palavras, o arcabouço vernacular da aldeia, esse poeta dá de ombros, desimportando-se com tudo o mais. 

Tudo mentira, evidentemente. 

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