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Tempos alienígenas

Na imagem acima, a heroína procura desesperadamente uma saída do mundo infestado por alienígenas hostis. Para tanto, mune-se de armamento pesado, como lança-chamas e granadas de mão. Os tempos também são de: Desejar fazer, embora não se saiba ao certo o quê. Tempos de projetos, formulações, cartilhas, esboços, parcerias, eleições, mudanças, remoção de fantasmas etc. Tempos do marketing mudancista, principalmente. Eu mesmo tenho alinhavado uns tantos projetos mais ou menos ambiciosos. Estão anotados no caderno. São eles: uma revista de humor. Trabalho seriamente nessa ideia enquanto esboço: um livro. Uma novela que explora vagamente o pegajoso desejo que quase todo mundo cultiva num canto qualquer da alma de ir embora da cidade e que também alimento, mas com sinal invertido: o desejo de ficar. De ir ficando, na verdade, um ficar sem heroísmo ou acomodação. Um ficar curioso. São arquiteturas incipientes e até amadoras, admito, mais desejos que estratagemas de vida. N...

No domingo

Acima, casal se diverte em festa. Animado, decidiu pular na piscina. Ela perdeu um brinco; ele, um beijo. A maioria das pessoas está feliz. Outra parte (a porcentagem é ignorada) está triste ou apenas melancólica. Há menos gente triste que feliz, dizem especialistas. Isso é algo a ser festejado, defendem os felizes. Os tristes ou melancólicos deram de ombros para a pesquisa. Conforme nota explicativa, “uma fração menor ainda do público pesquisado navega regiões intercambiáveis, zonas cinzentas que não comportam regramento pré-definido, não sendo considerada ideal para efeito de mensuração e análise”. Especialmente nesse dia, as redes sociais recebem grande afluxo de pessoas. É um alvoroço. É também divertido. Todos se mostram de alguma maneira. Passear a tristeza ou a alegria desmedida é uma atividade que, em grande medida, equivale ao footing no parque, quando os citadinos importavam-se menos com a saúde do que com a vista alheia. De lá para cá, pouca coisa mudou....

Pai

Uma vez surpreendeu a mãe rindo só na cozinha, foi perguntar o que era, a mãe fechou-se, só achando graça das besteiras do teu irmão, menino, o que ele fez, mãe?, nada, deixa pra lá, o pai ainda não tinha chegado do trabalho, era de madrugada, domingo, três da manhã, de repente o sorriso transformou-se em mistério e aquela mulher na cozinha, num completo alienígena, ligou a TV, adormeceu uns minutos depois. O pai não tinha voltado, a mãe agora fazia café.

Mãe

No telefone a mãe fala da viagem, a sobrinha entusiasmada, a tia na menopausa parecia uma arara, a vó detestando tudo que podia, o pai encapsulado na rabugice, o quadro inteiro uma esquete do humorístico Zorra Total , à exceção da própria mãe, mesmo sem querer escondia um segredo qualquer, agonia que viera da juventude, atravessara o casamento e agora saltava como um palhaço no picadeiro naquele hiato incômodo das ligações de fim de semana.

Na fila

Estava decidido, seriam todas escravas, brancas, negras, mulatas, pardas, altas, magras, cheias, fleumáticas, risonhas, cínicas, maledicentes, leitoras, mantidas em calabouço próprio, privado, pessoal, particular, refrigerado, pouca luz, isolado, alimentadas como convém, vestidas com os panos da moda, escravas brancas, pretas, um sortimento variado e duradouro, escravas do sexo, não repetiria escolhas por dois ou três anos, teria as mulheres que quisesse, podia pagar, custasse o que custasse, podia pagar, jovens, muito jovens, maduras, velhas, não haveria segregação, prometeu a si mesmo enquanto a luzinha do caixa rápido do supermercado indicava algum tipo de engodo bem debaixo do seu nariz.