Estava decidido, seriam todas escravas, brancas, negras, mulatas, pardas, altas, magras, cheias, fleumáticas, risonhas, cínicas, maledicentes, leitoras, mantidas em calabouço próprio, privado, pessoal, particular, refrigerado, pouca luz, isolado, alimentadas como convém, vestidas com os panos da moda, escravas brancas, pretas, um sortimento variado e duradouro, escravas do sexo, não repetiria escolhas por dois ou três anos, teria as mulheres que quisesse, podia pagar, custasse o que custasse, podia pagar, jovens, muito jovens, maduras, velhas, não haveria segregação, prometeu a si mesmo enquanto a luzinha do caixa rápido do supermercado indicava algum tipo de engodo bem debaixo do seu nariz.
Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...
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